Lotus 1985 de Senna vai à pista em Ímola e encerra tributo

Sob chuva e depois de quase 30 anos, a Lotus 97t de 1985 com a qual Ayrton Senna conseguiu duas vitórias e sete pole positions voltou à pista em Ímola neste sábado.

ayrton senna'sO Tributo a Ayrton Senna, 20 anos depois de sua morte, terminou com este evento pela manhã e foi uma chance única de reviver a memória do tricampeão.

Nestes quatro dias de Tributo, de certa forma, Ayrton esteve presente. Seja por meio de seus F1 originais expostos nos boxes do autódromo Enzo e Dino Ferrari – onde Senna ganhou três corridas – assim como na memória do público que compareceu em peso ao local que o ídolo morreu de forma trágica.

A grande estrela do tributo, a Mclaren do primeiro título mundial, não saiu dos boxes. Não era necessário.

 

 

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Monumento atrai fãs e “imortaliza” Ayrton Senna em Ímola

(crônica)

O tempo passa. Senna voava. Senna sempre acelerou contra o tempo que, desde às 14h17 daquele 1° de maio de 1994, corre mais devagar. Talvez seja por isso que muitos se perguntem: já faz 20 anos?

estatua4Na verdade, estas duas décadas reiteram a convicção do mito que não subjaz aos efeitos do tempo. Hoje, em Ímola, Senna vive. Está vivo nas lembranças de cada uma das pessoas que chegam ali para lhe prestar esse tributo. Está vivo nos corações dos tantos brasileiros que ainda hoje se arrepiam ao ouvir o hino da vitória e aquele tan tan tan que embalou 41 vitórias – três delas em Ímola – ao longo de dez temporadas na F1, das quais, em três, Senna foi o campeão. Está vivo até mesmo para quem nunca o viu acelerar o seu Toleman, sua Lotus, sua McLaren ou sua última Williams.

O circuito de Ímola não é mais o mesmo de 1994. A curva Tamburello jáestatua2 não existe mais. No seu lugar, foi construída uma chicane menos espetacular, porém muito mais segura. Contudo, do lado de fora da pista, a lembrança permanece. Ali Senna foi imortalizado numa estátua de bronze, na qual foi retratado com uma expressão triste, cabisbaixa, como se pensasse em algo que jamais pudesse acontecer.

A obra é do escultor italiano Stefano Pierotti e foi inaugurada em 1997. Além da imagem principal de Senna, nas laterais existem outras formas. Numa delas, Ayrton é visto de costas, carregando o capacete, como se estivesse caminhando para o lado da vida eterna.

estatua2Em outra, Senna é retratado pilotando, o seu fórmula 1 aparece numa pista invisível e, ainda, vê-se a imagem do campeão levantando o troféu da corrida. Por fim, assim como Senna, seu fórmula 1 foi esculpido como se estivesse passando para o outro lado – somente os aerofólios ficaram de fora junto com o capacete, que parece estar flutuando.

 

http://esportes.terra.com.br/automobilismo/formula1/monumento-atrai-fas-e-imortaliza-ayrton-senna-em-imola,0451fc33c24b5410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html

Médica que anunciou morte de Senna relembra últimos momentos

Médica que anunciou morte de Senna relembra últimos momentos

(Notícia publicada em maio de 2014 por ocasião dos 20 anos da morte de Senna. Decidi traduzir os trechos da entrevista original que mais me chamaram a atenção)

A médica Maria Teresa Fiandri durante o anúncio da morte de Ayrton Senna.
A médica Maria Teresa Fiandri durante o anúncio da morte de Ayrton Senna.

São 18h40 de 1° de maio de 1994. Em meio aos microfones, telecâmeras e rostos marcados pelas lágrimas, pela tensão, pela oração, cabe à médica Maria Teresa Fiandri, responsável do departamento de reanimação do Hospital Maior de Bolonha, anunciar ao mundo – ao vivo – que Ayrton Senna morreu após o terrível acidente em Ímola. Passados vinte anos, aquela mesma voz calma e decidida, relembra, em uma entrevista concedida ao jornal italiano Libero Quotidiano, o dia no qual “o garoto que falava com os olhos”, fechou-os para sempre.

Doutora, onde estava às 14h17 daquele domingo? “Em casa. Assistia o Gp pela tv com meus filhos, apaixonados por F1. Não estava de sobreaviso mas estava à disposição. No mesmo momento soube que se tratava de um acidente grave, me troquei e entrei no carro. Não esperei que me chamassem, o bip tocou quando já estava a caminho. Cheguei no hospital ao mesmo tempo que o helicóptero”.

Vinte e oito minutos depois do acidente, Ayton foi entregue em suas mãos. “Estava em coma muito profundo, mas apresentava batimentos cardíacos e antes de analisar a tomografia não se podia saber quais eram as esperanças reais. Que era muito grave tínhamos percebido imediatamente, o quadro já era claro ao doutor Gordini e aos médicos que o haviam socorrido na pista”.

Aquele movimento com a cabeça que para as pessoas em casa era um sinal de esperança… “Infelizmente, era um sinal de extrema gravidade. Após analisar a tomografia vimos que as lesões eram enormes e não-operáveis. O cérebro sofreu muitos danos…”.

No decorrer das investigações e do controverso processo, foi apurado que na batida contra o muro a suspensão direita da Williams se soltou, carregando consigo o pneu que atingiu a cabeça de Senna, enquanto o braço da suspensão atravessou a viseira e trespassou a região do lobo frontal direito. “Não sei se foi o golpe direto ou o contra-golpe a causar mais danos. O braço da suspensão havia provocado um corte profundo, era o que se percebia imediatamente; depois vimos as fraturas no crânio e a partir daí decidimos realizar um eletroencefalograma para saber se existia ou não atividade cerebral”.

A telemetria demonstrou que nos dois segundos entre a quebra da barra de direção e a batida Senna reagiu, freiou e diminuiu as marchas, passando dos 310 km/h aos 211 km/h. Se não tivessem acontecido os impactos do pneu e do braço da suspensão, como teria sido? “O restante do corpo de Senna estava íntegro, não haviam outras lesões importantes, Ayrton teve uma grande infelicidade. Bastaria um palmo a mais à direita: não posso dizer que nada teria acontecido, mas certamente outros danos significativos no corpo não exisitiam”.

Como Senna estava quando chegou ao hospital? “Estava belo e sereno, aquela é a impressão que tive. Obviamente, o rosto estava um pouco inchado devido ao trauma, mas recordo que tinha uma pessoa perto de mim e ela também exclamou: ‘Como é belo…’”.

Havia algo no destino de Ayrton… “Talvez sim, também aquilo que li sobre ele depois, naquele dia, me deu esta impressão: um destino no final infeliz, como se ele no fundo tivesse sempre sabido que teria morrido jovem”.

Após os inúteis tratamentos que vocês tentaram, chegou o momento do anúncio. “Sim, mas não havíamos nenhum plano do trabalho que deveria ser feito junto aos meios de comunicação, como alguns escreveram, assim como não é verdade que fizemos 18 transfusões em Senna. Acredito ter dado a notícia duas ou três vezes, uma delas, sem dúvidas, quando vimos o eletroencefalograma que não demonstrava atividade, algo que hoje nos daria a permissão para declarar a morte, mas à época não podíamos fazê-lo porque para a lei italiana a morte coincidia com a parada dos batimentos cardíacos: e até que o coração de Ayrton não parou, nós não podíamos constatar o decesso.

O que sente hoje quando vê Senna na tv ou nos jornais? “Uma sensação estranha, afeto, como se existisse uma ligação. Porém, não olho nunca suas fotos, porque a recordação daquele dia ainda hoje me deixa muito emocionada”.

“Senna: sem medo, sem limite, sem igual”

“Senna: sem medo, sem limite, sem igual”

– Eu estava lá naquele dia. De repente, tudo era silêncio.

De fato, hoje no autódromo Enzo e Dino Ferrari, na cidade de Ímola, no Norte da Itália, nem sinal do ronco dos motores. Os áureos anos do GP de San Marino, entre 1981 e 2006, ficaram na memória – principalmente o de 1994.

– Todos sabiam que algo grave tinha acontecido. Eu estava na tribuna e, de repente, vi o Prost parar e sair do carro balançando a cabeça. Naquele tempo não tinha celular, internet, demoramos até saber do acidente de Senna, conta Tomaso Rebbechi que na época tinha 17 anos.

Hoje ele tem um pequeno hotel fazenda numa cidade próxima a Ímola, recebe turistas de todo o mundo e conta que muitos ainda visitam o autódromo, mesmo sem as corridas.

Ao chegar ao autódromo, logo se vê uma grande foto de Ayrton, com o macacão da Rothmans-Willians: a tribuna em que Tomaso estava leva agora o nome do tricampeão. Ali, o último herói nacional venceu três vezes com seu McLaren, em 1988, 1989 e 1991. Apesar de parecer ter parado no tempo, o circuito tem um relógio que ainda funciona. Ímola ainda realiza corridas, principalmente de moto.

Na Itália, domingo ainda é, tradicionalmente, dia de acompanhar a Fórmula 1 na TV. No Corriere dello Sport salta a vista o nome Senna. É o piloto Bruno Senna, que depois de 17 anos da morte de seu tio, faz com que as lembranças de Ayrton venham ainda mais a tona. É bom voltar a ver um Senna correr, diz um jovem que está no bar do circuito. Enquanto isso, um dos funcionários explica como se faz para chegar ao local onde existia a curva Tamburello.

Na área interna do circuito, está o Parco Acque Minerali. Caminhando pelas trilhas, ouve-se de repente alguns brasileiros. É um grupo que foi conhecer o lugar onde, ainda hoje, pessoas de todo o mundo prestam suas homenagens ao piloto. O caminho leva ao lado oposto daquele onde Senna não venceu sua última curva. O muro da Tamburello não existe mais, tampouco o antigo traçado, que hoje é de um “S”. Mas as fitas, flores, bandeiras e outras lembranças indicam que foi ali que Senna morreu. Um pouco mais adiante, o encontro com Ayrton.

O piloto foi imortalizado numa estátua de bronze, na qual foi retratado com expressão triste, cabisbaixa, como se pensasse em algo que jamais se pudesse acontecer.

– Ninguém jamais vai tocar meu coração como você tocou, saudades campeão, diz a mensagem em italiano escrita na base da estátua, ou melhor, obra de arte.

Ela foi feita pelo escultor italiano Stefano Pierotti e inaugurada em 1997. Além da imagem principal de Senna, nas laterais existem outras formas. Numa Ayrton é visto de costas, carregando o capacete, como se estivesse caminhando para o lado da vida eterna. Em outra parte, Senna é retratado pilotando, o seu fórmula 1 aparece numa pista invisível e, ainda, vê-se a imagem do campeão levantando o troféu da corrida. Por fim, assim como Senna, seu fórmula 1 foi esculpido como se estivesse passando para o outro lado, somente os aerofólios ficaram de fora junto com o capacete, que parece estar flutuando. As flores de plástico, colocadas nas mãos de Senna, desafiam o tempo.

Em frente, no alambrado da pista, mais homenagens. Uma bandeira do Brasil, recados de fãs russos e alemães, fotos de Ayrton e mensagens de saudade. Recentemente, parte de um cartaz de divulgação do documentário “Senna” também foi pendurado. Lá está escrito: “Senna: sem medo, sem limite, sem igual”.

Rafael Belincanta, Ímola, 29 agosto 2011.