Um ano após renunciar ao papado, Bento XVI vive isolado

Um ano após renunciar ao papado, Bento XVI vive isolado
Rafael Belincanta
Direto de Cidade do Vaticano

Por volta das 16h algumas ruas da Cidade do Vaticano começam a ser fechadas ao tráfego e à passagem de pedestres, sobretudo aquela que leva ao Mosteiro Mater Ecclesiae, residência do papa emérito. Se desde 28 de fevereiro de 2013 Bento XVI não é mais o chefe da Igreja Católica, ao menos um dos seus compromissos de quando era pontífice continua sendo cumprido à regra: recolher-se em oração na gruta de Nossa Senhora de Lourdes, que recria com fidelidade aquela francesa em pleno coração dos Jardins do Vaticano.

Assim, isolado do mundo e longe das preocupações do Palácio Apostólico, a contribuição de Joseph Ratzinger à Igreja Católica hoje é, principalmente, espiritual. O porta voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, que acompanhou Bento XVI ao longo de seus 8 anos de pontificado, afirmou à Rádio Vaticano que a decisão de renunciar não foi prematura, ao contrário:

“Fazia séculos que um papa não renunciava. Portanto, para a maioria das pessoas, tratava-se de um gesto inusitado e surpreendente. Contudo, quem estava mais próximo a Bento XVI sabia que existia essa possibilidade, e Ratzinger já havia dito isso, muito tempo antes e com todas as palavras, a Peter Seewald”, (que publicou o livro “Luce del Mondo”, resultado de uma série de encontros com o papa emérito).

Padre Lombardi talvez esteja entre os poucos a não terem sido pegos de surpresa naquele 11 de fevereiro de 2013 quando, durante um consistório para a criação de novos cardeais, Bento XVI, em latim, anunciava seu afastamento:

23 de dezembro de 2013: Papa Emérito Bento XVI recebe o Papa Francisco e os dois trocam saudações de Natal, no Vaticano Foto: AP
“Bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice”.

O papa emérito concluiu sua mensagem de renúncia afirmando que manteria uma vida consagrada à oração e assim tem sido nesse período histórico no qual a Igreja Católica tem dois papas. Era justamente nesse ponto que a imprensa internacional e os próprios vaticanistas acostumados com os corredores da Santa Sé se concentravam: o que acontecerá à Igreja com dois papas?

Padre Lombardi estava tranquilo também em relação a esta questão: “O papado é um serviço e não um poder. Se se vivem os problemas no contexto do poder, é claro que duas pessoas podem ter dificuldades de convívio porque pode ser difícil o fato de renunciar a um poder e conviver com o sucessor. Porém, se se vive tudo isso exclusivamente como serviço, esse problema não existe”.

23 de março de 2013: Papa Francisco abraça o Papa Emérito Bento XVI quando ele chega à residência de verão Castelo Gandolfo Foto: Reuters
O fato é que após a renúncia de Ratzinger e a eleição de Bergoglio, papa Francisco e o papa emérito encontraram-se, oficialmente, três vezes. “É como ter um avô em casa, mas um avô sábio”, declarou papa Francisco aos jornalistas quando perguntaram como ele se sentia com dois papas vivendo no Vaticano. “Sempre o quis muito bem, fiquei feliz quando foi eleito e o mesmo senti quando renunciou: um exemplo de grandeza. Somente um grande homem seria capaz de tal gesto”, reiterou papa Francisco aos jornalistas durante o voo de retorno do Rio de Janeiro, no ano passado.

Entretanto, a renúncia de Bento XVI não cortou o elo com quem sempre admirou o teólogo Ratzinger antes, e também depois, já como pontífice. As visitas ao Mater Ecclesiae apesar de possíveis não são frequentes. Os pedidos para uma audiência com o papa emérito são muito bem analisados antes de serem aprovados. Nada de compromissos oficiais ou oficiosos: encontrar Bento XVI significa acompanhá-lo nas orações e, talvez, manter uma rápida conversa.

Prestes a completar 87 anos, em 17 de abril próximo, a figura do papa emérito torna-se cada vez mais etérea. Longe das atenções, o papa alemão já não ocupa os lugares de destaque nem ao menos nas bancas e lojas em torno ao Vaticano, dominadas pelas imagens de um sorridente papa Francisco e do onipresente papa João Paulo II. Talvez tenha sido essa ideia de ausência física e presença espiritual que Bento XVI havia amadurecido muito tempo antes da renúncia. Após um pontificado marcado pelas duras críticas à Igreja por sua conduta diante dos crimes de abuso de menores e do vazamento de informações sigilosas, a saída de cena de Joseph Ratzinger é como se fosse um retorno às suas origens.

“Bento XVI certamente sempre foi um homem de oração, durante toda sua vida, e desejava – provavelmente – ter um tempo no qual pudesse viver essa dimensão da oração com mais espaço, totalidade e profundidade. E este agora é o seu tempo”, conclui padre Lombardi.

“O Senhor me chama a subir ao monte”, diz Papa em última bênção

“O Senhor me chama a subir ao monte”, diz Papa em última bênção

Domingo histórico na Praça São Pedro. Ao meio-dia em ponto (horário local) Bento XVI saudou o público naquela que foi a última oração do Ângelus de seu pontificado. Desde cedo, muitos fiéis já aguardavam o Papa, entre eles representantes da comunidade brasileira em Roma e na Itália.

Com a voz marcada pela emoção e interrompido pelos aplausos, o Papa declarou: “Neste momento de minha vida sinto que a palavra de Deus está dirigida a mim. O Senhor me chama a subir ao monte, a dedicar-me ainda mais à oração e à meditação”.

Neste momento de minha vida sinto que a palavra de Deus está dirigida a mim. O Senhor me chama a subir ao monte, a dedicar-me ainda mais à oração e à meditação

Bento XVI

“É mais, se Deus me pede isso, é porque eu poderei continuar servindo com as mesmas condições e o mesmo amor com o qual o fiz até agora, mas de um modo mais adequado à minha idade e às minhas forças”, afirmou. O Papa foi interrompido várias vezes por aplausos da multidão durante sua mensagem aos fiéis.

Brasileiros acompanharam despedida
Germânia da Silva mora em Roma desde 1985. Acompanhou de perto o pontificado de João Paulo II e de Bento XVI. Ela se diz preocupada com o futuro da Igreja. “Esse período de sucessão é difícil, não se sabe como será. (O novo papa) terá que ter pulso firme”, disse.

Casal de Videira (SC) acompanha o Ângelus Foto: Rafael Belicanta / Especial para Terra
Casal de Videira (SC) acompanha o Ângelus
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Uma grande faixa chamava a atenção em meio à multidão. “Obrigado Santo Padre”, escrito em italiano. Essa foi a forma que a Comunidade Shalom encontrou para agradecer Bento XVI. Aliás, foi ele que, no ano passado, assinou o reconhecimento pontifício da Comunidade Shalom, nascida em Fortaleza (CE).

“Bento XVI representa muito para a Shalom, ele confirmou a comunidade que nasceu com João Paulo II”, reiterou Padre João Chagas, coordenador do escritório internacional da Shalom.

Por outro lado, há quem esteja em Roma de passagem e aproveita para saudar Bento XVI ou, ao menos, participar do momento histórico, como disse o casal Carla Barnabé e Valmir Fuck, de Jaraguá do Sul (SC). “Prolongamos nossa estadia em Roma para participar dessa celebração. Esperamos que o próximo papa seja mais carismático”, contou ao Terra.

De Santa Catarina também veio o casal Marco Aurélio Farias e Cristina Mengato. Turistas, viram na televisão que neste domingo o papa conduziria o seu último Ângelus. “Soubemos ontem e viemos. Nunca imaginamos estar aqui hoje. Esperamos que o novo papa traga renovação e resolva os problemas da Igreja”, ressaltou Marco Aurélio.

Este domingo marca o início de uma semana intensa. Na quarta-feira, Bento XVI fará sua última aparição pública na Praça São Pedro durante a audiência geral. É previsto, como normalmente acontece, um passeio entre os fiéis com o papa-móvel.

No último Ângelus, Papa deixa mensagem em português
No último Ângelus, Papa deixa mensagem em português

Renúncia
Na quinta-feira, o Papa se reúne com os cardeais pela manhã e, às 17h, parte de helicóptero para Castel Gandolfo, onde fica a residência de verão dos papas. Bento XVI deve permanecer ali por cerca de dois meses antes de voltar ao Vaticano para viver no monastério que está sendo reformado para ele. Ainda na quinta-feira, às 20h locais tem início a Sé Vacante.

De acordo com a Santa Sé, quase 200 mil pessoas eram esperadas à última audiência dominical, durante a qual Bento XVI rezou o Ângelus na janela de seus aposentos no palácio apostólico. As autoridades de Roma aprovaram um sistema especial de vigilância na praça e mobilizaram milhares de policiais. Além disso, atiradores foram posicionados em locais chaves.

Brasileiros acompanham penúltimo Angelus de Bento XVI

Brasileiros acompanham penúltimo Angelus de Bento XVI
  • Rafael Belincanta
  • Direto do Vaticano

A Praça São Pedro fez lembrar neste domingo os grandes acontecimentos da Igreja Católica no Vaticano: fiéis do mundo inteiro reunidos diante da janela do apartamento pontíficio de onde, ao meio-dia, o Papa – pela penúltima vez -, recitou o Ângelus como Sumo Pontífice. A versão digital do Corriere della Sera fala em 50 mil pessoas na Praça neste domingo.

Maria Madalena Inácio, pernambucana de Garunhuns, mas que há 26 anos mora na Itália. Ela acompanhou em 2005 a eleição de Joseph Ratzinger e veio à Praça neste domingo por considerar o momento histórico Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Maria Madalena Inácio, pernambucana de Garunhuns, mas que há 26 anos mora na Itália. Ela acompanhou em 2005 a eleição de Joseph Ratzinger e veio à Praça neste domingo por considerar o momento histórico
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Entre elas, muitos brasileiros. O Terra conversou com Maria Madalena Inácio, pernambucana de Garunhuns, mas que há 26 anos mora na Itália. Ela acompanhou em 2005 a eleição de Joseph Ratzinger e veio à Praça neste domingo por considerar o momento histórico.

“Sempre que posso, venho aqui ouvir o Papa aos domingos. Hoje trouxe minha bandeira com a qual já estive em muitos lugares, para que o Papa veja que pode contar com meu apoio e de muitos brasileiros”, disse Maria.

Na verdade, Maria e sua bandeira conseguiram criar uma pequena representação do Brasil na Praça São Pedro. Por ali também estavam devidamente identificadas por outra bandeira Isabel Peterle Modolo e Lorena Peterle Modolo Braz, do Espírito Santo. Lorena, que mora em Roma há um ano, trouxe sua mãe para acompanhar as palavras do Papa. “Não esperávamos uma reviravolta tão grande na Igreja”, disseram ao Terra.

Isabel Peterle Modolo e Lorena Peterle Modolo Braz, do Espírito Santo. Não esperávamos uma reviravolta tão grande na Igreja, disseram Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Isabel Peterle Modolo e Lorena Peterle Modolo Braz, do Espírito Santo. Não esperávamos uma reviravolta tão grande na Igreja, disseram
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Carlos André da Silva, natural de Fortaleza, mas que mora em Bréscia, no Norte da Itália, há oito anos, veio a Roma especialmente para acompanhar o Ângelus. “Vim agradecer ao Papa pelos sete anos que ele esteve à frente da Igreja. A renúncia foi um grande ato de humildade e desprendimento”.

A notícia da renúncia, na última segunda-feira, pegou de surpresa um grupo de São Paulo que estava em Lisboa. “Decidimos mudar nosso itinerário somente para acompanhar esse acontecimento histórico”, disse Edivaldo Negrelli. Sua esposa, Ariete Negrelli, disse que a renúncia “significa uma esperança de mudança na Igreja e que torçe para que o próximo papa seja mais carismático”.

Edivaldo Negrelli e sua esposa, Ariete Negrelli Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Edivaldo Negrelli e sua esposa, Ariete Negrelli
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Em seu Twitter, logo após o Angelus, Bento XVI publicou a seguinte frase. “A Quaresma é um tempo favorável para redescobrirmos a fé em Deus como base da nossa vida e da vida da Igreja”.

Neste domingo, às 18h de Roma, têm início os Exercícios Espirituais do Papa pela Quaresma. Até o próximo sábado, junto com a Cúria Romana, o Papa ficará recluso em oração na Capela Redemptoris Mater, no Palácio Apostólico.

No próximo sábado está previsto um encontro com o presidente da Itália, Giorgio Napolitano. O Vaticano ainda não confirmou se o encontro será privado ou público. No domingo, o Papa volta a conduzir o Ângelus, na Praça São Pedro. A despedida pública oficial do Papa será na quarta-feira, dia 27, durante a audiência geral, também na Praça São Pedro.

No dia 28, o Papa encontra os cardeais antes de partir para Castel Gandolfo, às 17h. A partir das 20h, a Santa Sé fica em vacância.

Fiéis fazem vigília no Vaticano após renúncia de Bento XVI

Rafael Belincanta 

Direto do Vaticano

Noite de vigília e oração na Praça São Pedro, no Vaticano, depois de Bento XVI anunciar que vai deixar a Cátedra de Pedro no próximo dia 28. Uma decisão que deixou o mundo perplexo mas não diminuiu a fé de muitos fiéis que estão reunidos em frente às janelas do estúdio do Papa, no Palácio Apostólico.

Fiéis reuniram-se sob chuva na Praça de São Pedro na noite do dia em que, pela quarta vez na história, um papa renunciou Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Fiéis reuniram-se sob chuva na Praça São Pedro na noite do dia em que, pela quarta vez na história, um papa renunciou
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

 

Corin Walters, dos Estados Unidos, protegia a chama da vela contra a chuva enquanto acompanhava um grupo de jovens de Roma que entoam músicas em homenagem a Joseph Ratzinger. “Vivo aqui em Roma e vim prestar meu apoio a decisão do Papa”, disse.

Entre os fiéis, também uma religiosa francesa que encarou a noite fria para rezar pelo Papa. “Doeu quando soube da notícia, mas, pelo pouco que pude refletir, o Papa tem seus motivos. Rezo a Deus para que a Igreja se fortaleça”.

A consternação que parece ter tomado conta da opinião pública no início desta segunda-feira foi a mesma que os cardeais, reunidos pela manhã para aprovar a criação de novos santos em um consistório, experimentaram ao ouvir as palavras do Papa em latim quando anunciou o fim de seu magistério.

O Cardeal João Braz de Aviz, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, disse em entrevista à Rádio Vaticano ter consultado um cardeal que estava próximo para ter certeza se tinha entendido a mensagem do Papa.

“O Papa está dizendo que ele está renunciando? Porque não me parecia verdade. De fato, depois vimos que já estava confirmado e era isso mesmo que ele estava dizendo. Foi uma surpresa para todos nós, porque esta atitude da renúncia não é uma atitude muito comum na Igreja. Mas a gente acredita que o Papa, provavelmente ajudado pelos seus médicos, pelas pessoas que lhe estão perto, seguramente ele avaliou isso, e o fez no conjunto da Igreja para o bem da Igreja”.

Dom Braz de Aviz será um dos 118 cardeais que terão direito a escolher o próximo Papa, podendo serem também eleitos Bispo de Roma. Os outros quatro cardeais brasileiros com direito a voto são: dom Geraldo Agnelo Majella, dom Cláudio Hummes, dom Raymundo Damasceno Assis e dom Odilo Pedro Scherer.