“Não falta dinheiro para o desenvolvimento da agricultura em Angola”, diz chefe do IFAD

“Não falta dinheiro para o desenvolvimento da agricultura em Angola”, diz chefe do IFAD

Nigeriano Kanayo Nwanze concedeu entrevista à DW África sobre a sua última visita à Angola. Para ele, a falta de investimentos faz com que metade dos alimentos consumidos em Angola sejam importados.

Após a sua primeira visita oficial a Angola, no início de Março, o presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (IFAD), Kanayo Mwanze, já tem uma convicção.

“Atualmente, somente 2% do orçamento de Angola é aplicado em programas para o desenvolvimento da agricultura. Diante dessa falta de investimento, não surpreende que mais de 50% dos alimentos consumidos em Angola sejam importados”, afirma.

O chefe do IFAD diz que não falta dinheiro em Angola para o desenvolvimento da agricultura. Para ele, a desigualdade social que hoje assola o país é consequência parcial da guerra.

“[O baixo investimento na agricultura] reflete diretamente nos contrastes sociais, com preços inflacionados que fazem de Luanda uma das capitais mais caras e desiguais do mundo”, afirma o nigeriano.

Problema identificado

Ele ressalta que existem recursos para transformar essa realidade. Faltaria capacitação. Basta lembrar, conforme Nwanze, a vocação rural que Angola tinha antes da guerra.

“O governo reconhece a importância da agricultura. E quer usar os recursos que estão sendo gerados por meio da indústria extrativista – petróleo e diamantes – para financiar a agricultura”, diz o presidente do IFAD.

Nwanze: “é necessário recuperar vocação de antes da guerra”

Nwanze acrescenta que o mais importante é o poder público incentivar “capacitação para instituições e pessoas, além de promover investimentos maciços para o desenvolvimento rural”, afirma.

Antes da guerra, Angola era quase auto-suficiente na alimentação. Mantinha produções importantes de cassava e coco. A guerra não somente destruiu todas as plantações, mas também resultou em uma grande migração das zonas de plantio para as cidades.

Segundo Nwanze, se o país conseguisse revitalizar esses sistemas alimentares, ao menos seria capaz de reduzir as despesas de importação.

“Penso que isso é essencial. Mais importante do que a competitividade no mercado internacional é a produção de alimentos suficientes para que a agricultura não seja somente de subsitência, mas que os agricultores possam alimentar suas famílias e comercializar o excedente”, opina.

Capacitação disponível

Ele insiste que, se houver investimento de massa na agricultura, em 10 anos, Angola terá mudado, mas é preciso manter uma visão de longo prazo para que isso aconteça”, adverte.

Nwanze diz que ouviu durante encontros com representantes do Banco para o Desenvolvimento de Angola (BDA), que “dinheiro não é problema.”

Kanayo Nwanze

“Angola tem dinheiro, não há dúvidas sobre isso. Minha discussão com o diretor executivo do BDA foi para saber como se pode capacitar o banco para que consiga avaliar propostas, ter pessoas para planejar e supervisionar os projetos.”

O IFAD poderia atuar exatamente nesta área, segundo Nwanze. Poderia proporcionar “treinamento ao pessoal no próprio país ou em Roma para ajudar a criar as instituições nacionais”, diz.

Atualmente, o IFAD apoia o desenvolvimento da agricultura em Angola, junto com o Banco Mundial, na chamada “Agricultura Familiar Orientada ao Mercado”. O financiamento do programa é de 50 milhões de dólares, dos quais 9 milhões provêm do fundo internacional.

A partir de Setembro deste ano, um novo projeto voltado à pesca artesanal deve entrar em vigor, mas ainda depende de financiamento.

“Não falta dinheiro para o desenvolvimento da agricultura em Angola”, diz chefe do IFAD

Um ano após renunciar ao papado, Bento XVI vive isolado

Um ano após renunciar ao papado, Bento XVI vive isolado
Rafael Belincanta
Direto de Cidade do Vaticano

Por volta das 16h algumas ruas da Cidade do Vaticano começam a ser fechadas ao tráfego e à passagem de pedestres, sobretudo aquela que leva ao Mosteiro Mater Ecclesiae, residência do papa emérito. Se desde 28 de fevereiro de 2013 Bento XVI não é mais o chefe da Igreja Católica, ao menos um dos seus compromissos de quando era pontífice continua sendo cumprido à regra: recolher-se em oração na gruta de Nossa Senhora de Lourdes, que recria com fidelidade aquela francesa em pleno coração dos Jardins do Vaticano.

Assim, isolado do mundo e longe das preocupações do Palácio Apostólico, a contribuição de Joseph Ratzinger à Igreja Católica hoje é, principalmente, espiritual. O porta voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, que acompanhou Bento XVI ao longo de seus 8 anos de pontificado, afirmou à Rádio Vaticano que a decisão de renunciar não foi prematura, ao contrário:

“Fazia séculos que um papa não renunciava. Portanto, para a maioria das pessoas, tratava-se de um gesto inusitado e surpreendente. Contudo, quem estava mais próximo a Bento XVI sabia que existia essa possibilidade, e Ratzinger já havia dito isso, muito tempo antes e com todas as palavras, a Peter Seewald”, (que publicou o livro “Luce del Mondo”, resultado de uma série de encontros com o papa emérito).

Padre Lombardi talvez esteja entre os poucos a não terem sido pegos de surpresa naquele 11 de fevereiro de 2013 quando, durante um consistório para a criação de novos cardeais, Bento XVI, em latim, anunciava seu afastamento:

23 de dezembro de 2013: Papa Emérito Bento XVI recebe o Papa Francisco e os dois trocam saudações de Natal, no Vaticano Foto: AP
“Bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice”.

O papa emérito concluiu sua mensagem de renúncia afirmando que manteria uma vida consagrada à oração e assim tem sido nesse período histórico no qual a Igreja Católica tem dois papas. Era justamente nesse ponto que a imprensa internacional e os próprios vaticanistas acostumados com os corredores da Santa Sé se concentravam: o que acontecerá à Igreja com dois papas?

Padre Lombardi estava tranquilo também em relação a esta questão: “O papado é um serviço e não um poder. Se se vivem os problemas no contexto do poder, é claro que duas pessoas podem ter dificuldades de convívio porque pode ser difícil o fato de renunciar a um poder e conviver com o sucessor. Porém, se se vive tudo isso exclusivamente como serviço, esse problema não existe”.

23 de março de 2013: Papa Francisco abraça o Papa Emérito Bento XVI quando ele chega à residência de verão Castelo Gandolfo Foto: Reuters
O fato é que após a renúncia de Ratzinger e a eleição de Bergoglio, papa Francisco e o papa emérito encontraram-se, oficialmente, três vezes. “É como ter um avô em casa, mas um avô sábio”, declarou papa Francisco aos jornalistas quando perguntaram como ele se sentia com dois papas vivendo no Vaticano. “Sempre o quis muito bem, fiquei feliz quando foi eleito e o mesmo senti quando renunciou: um exemplo de grandeza. Somente um grande homem seria capaz de tal gesto”, reiterou papa Francisco aos jornalistas durante o voo de retorno do Rio de Janeiro, no ano passado.

Entretanto, a renúncia de Bento XVI não cortou o elo com quem sempre admirou o teólogo Ratzinger antes, e também depois, já como pontífice. As visitas ao Mater Ecclesiae apesar de possíveis não são frequentes. Os pedidos para uma audiência com o papa emérito são muito bem analisados antes de serem aprovados. Nada de compromissos oficiais ou oficiosos: encontrar Bento XVI significa acompanhá-lo nas orações e, talvez, manter uma rápida conversa.

Prestes a completar 87 anos, em 17 de abril próximo, a figura do papa emérito torna-se cada vez mais etérea. Longe das atenções, o papa alemão já não ocupa os lugares de destaque nem ao menos nas bancas e lojas em torno ao Vaticano, dominadas pelas imagens de um sorridente papa Francisco e do onipresente papa João Paulo II. Talvez tenha sido essa ideia de ausência física e presença espiritual que Bento XVI havia amadurecido muito tempo antes da renúncia. Após um pontificado marcado pelas duras críticas à Igreja por sua conduta diante dos crimes de abuso de menores e do vazamento de informações sigilosas, a saída de cena de Joseph Ratzinger é como se fosse um retorno às suas origens.

“Bento XVI certamente sempre foi um homem de oração, durante toda sua vida, e desejava – provavelmente – ter um tempo no qual pudesse viver essa dimensão da oração com mais espaço, totalidade e profundidade. E este agora é o seu tempo”, conclui padre Lombardi.

20 anos depois da paz, democracia ainda deve crescer em Moçambique

MInistro italiano da Cooperação Internacional, Andrea Riccardi

Opinião é de Andrea Riccardi, fundador da organização católica Comunidade de Santo Egídio e um dos mediadores do Acordo Geral de Paz de 1992. Riccardi falou com exclusividade à DW: “Não existem ameaças como no passado”.

No próximo dia 4 de outubro, feriado nacional em Moçambique, serão comemorados os 20 anos da assinatura do Acordo de Paz entre os antigos rebeldes da RENAMO e o governo da FRELIMO, que se opuseram numa guerra civil que durou 16 anos.

Revendo o Boletim oficial da República de Moçambique publicado no dia 14 de outubro de 1992 – documento que oficializou a paz no país – o hoje ministro italiano da Cooperação Internacional, professor Andrea Riccardi, que junto com a equipe de mediadores da Comunidade de Santo Egídio ajudou a criar o Acordo Geral de Paz de Moçambique 20 anos atrás, conta que jamais deixou de acreditar que o fim do conflito civil fosse possível: “Eu sempre acreditei. Penso que, junto com Dom Matteo Zuppi, fomos os arquitetos da aproximação entre as partes que não se falavam”, disse o fundador da Santo Egídio, em entrevista exclusiva à DW África.

De um lado, estava o governo da Frente de Libertação de Moçambique, FRELIMO, do então presidente Joaquim Alberto Chissano. De outro, a Resistência Nacional Moçambicana, RENAMO, de Afonso Dhlakama.

O ex-mediador Andrea Riccardi levanta hipóteses sobre o que poderiam ter pensado ambas as partes antes da primeira ronda de negociações: “Grande era o risco de que um [FRELIMO] dissesse ao outro: ‘Senhores bandidos armados’ e os outros [RENAMO] dissessem: ‘governo ilegítimo'”.

Na época das negociações de paz, que duraram cerca de dois anos, um personagem fundamental conseguiu superar a resistência de aproximação da RENAMO: Dom Jaime Gonçalves, Bispo da Beira, como lembra Riccardi: “Foi um discurso importante para explicar à RENAMO que eles não tinham outra saída a não ser negociar. Depois, houve também um amadurecimento por parte do governo de Chissano”, disse o atual ministro italiano da Cooperação Internacional.

Diplomacia italiana

Uma decisão chave dos mediadores da Santo Egídio, uma comunidade de leigos católicos com sede na Itália, que durante dois anos e três meses negociou a paz em Moçambique, foi envolver a diplomacia italiana. “Solicitamos ao governo italiano – que na época tinha um grande prestígio em Moçambique – a nomear um representante, que foi Mario Raffaelli”.

Fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi foi um dos mediadores do Acordo Geral de Paz de 1992...Fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi foi um dos mediadores do Acordo Geral de Paz de 1992…

Mas se a comunidade internacional já começava a olhar com atenção as tentativas para terminar a guerra civil, que desde 1976 tinha devastado o país, internamente Moçambique tinha alguns conflitos que impediam o país avançar à tão sonhada estabilidade. “As relações entre o governo moçambicano e a Igreja Católica eram péssimas e só melhoraram quando eu, junto com a Comunidade de Santo Egídio, tomei a decisão de promover um encontro entre Dom [Jaime] Gonçalves e o secretário do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, que interveio pessoalmente junto à FRELIMO para que esta promovesse uma mudança na sua política religiosa”, explicou Riccardi à DW África.

Apesar de todos os esforços, em Moçambique quase ninguém acreditava que uma organização não governamental internacional pudesse ajudar a estabelecer os rumos de um futuro sem guerra.

“Foi a necessidade das duas partes, do governo e da RENAMO, que levou a Comunidade de Santo Egídio a desempenhar este papel para criar um acordo. A opinião pública ironizou, exerciam pressões. Mas, depois de longas tentativas, longos silêncios e dificuldades chegamos a um acordo”, relata Andrea Riccardi.

Porém, segundo ele, “as duas partes deveriam, ainda, amadurecer. Em particular a RENAMO, que deveria passar da luta armada à luta política. Havia um grande salto a ser feito”.

Perguntado se, passados 20 anos do Acordo Geral de Paz de Moçambique, Andrea Riccardi mudaria alguma coisa em Moçambique, o professor respondeu: “Acredito que um dos grandes problemas seja que a RENAMO deveria se transformar em [verdadeiro] partido de oposição para um [efetivo] funcionamento bipartidário da democracia em Moçambique. Entretanto, acredito que todos tenham respeitado os acordos: o governo e a RENAMO que jamais voltou às armas”.

Ainda olhando para o futuro, Riccardi fez uma crítica construtiva de quem ajudou a levar a paz a Moçambique: “Acredito que a democracia em Moçambique deva crescer. Mas não existem ameaças no sentido daquilo que houve no passado. Contudo, quando eu estive no Parlamento, em Maputo, e vi os guerrilheiros sentados nas cadeiras da oposição, não posso esconder que aquilo me comoveu”.

...assinado a 4 de Outubro daquele ano pelo então presidente moçambicano, Joaquim Chissano (esq.), e o líder da RENAMO, Afonso Dlhakama (dir.)…assinado a 4 de Outubro daquele ano pelo então presidente moçambicano, Joaquim Chissano (esq.), e o líder da RENAMO, Afonso Dlhakama (dir.)

Crimes a punir?

Evocando os protocolos do Acordo Geral de Paz de 1992, Riccardi respondeu à questão sobre se os crimes da guerra civil deveriam ou não ser investigados e tornados públicos numa Comissão da Verdade e Acolhimento.

“Moçambique fez outra escolha: a anistia. Esta foi a escolha de Moçambique porque os crimes e as violências foram praticados por ambos os lados. Temos que esperar os moçambicanos do futuro”, avalia.

Interesses económicos

Para este futuro, Riccardi acha que a democracia em Moçambique ainda precisa crescer, mas que “um grande bem estar está a aproximar-se. A presença da empresa petrolífera italiana [ENI, que estuda descobertas de gás natural na bacia do Rovuma, em Cabo Delgado, no nordeste do país] é algo a ser considerado. Há um grande crescimento de interesses económicos e a sociedade deve harmonizar-se com isso”.

Interrogado sobre se esta é uma visão do ministro italiano da Cooperação Internacional, Riccardi disse não saber: “É uma visão de um grande amigo de Moçambique, que conheceu o país quando a fome o assolava, quando no mercado central de Maputo tinha somente peixe seco. Hoje, em vinte anos, a história realmente mudou”, acredita.

Por outro lado, segundo Riccardi, “existe muita pobreza em Moçambique. Existe um problema de distribuição do bem-estar, mas para criar algo diferente é preciso que uma nova sociedade crie raízes”.

Autor: Rafael Belincanta (Roma)
Edição: Renate Krieger/António Rocha

Reforma do Coliseu de Roma começa em dezembro deste ano

O Coliseu é o monumento mais visitado de Roma.

O Coliseu é o monumento mais visitado de Roma.

Reuters

Construído há cerca de dois mil anos, o Coliseu, um dos maiores símbolos do Império Romano, será reformado a partir do próximo mês de dezembro e as obras devem durar até 2015. Visitado por cerca de cinco milhões de pessoas a cada ano, e uma das maiores atrações turísticas da Itália, a iniciativa desperta polêmicas como o fechamento da circulação de carros em torno do anfiteatro e o financiamento das obras pela iniciativa privada. Serão três fases de recuperação do monumento: a primeira será a restauração das alas Norte e Sul e a substituição das grades dos arcos e metais em nível do solo, justamente onde os turistas fazem as filas para comprar os ingressos. A segunda fase prevê a construção de um centro de serviços na praça em frente ao monumento e a terceira etapa, ainda em estudo, seria a reforma dos ambientes internos.

O correspondente de RFI em Roma, Rafael Belincanta, explica que a maior polêmica depois do anúncio da reforma é a proibição do acesso de carros à área em torno do Coliseu, onde a circulação é intensa. A medida deve piorar o tráfego na capital, quetambém é famosa por seus engarrafamentos.