Viajando sozinho pela Sicília – e ilhas menores

Viajando sozinho pela Sicília – e ilhas menores

As ilhas Egadi, na ponta ocidental da Sicília, são, sobretudo, destino de verão dos próprios sicilianos. Italianos de outras regiões, contudo, também são numerosos. Raros, porém não menos frequentes, são os turistas estrangeiros que chegam, na maioria, nos navios de cruzeiro que atracam em Trapani ou Palermo. Ultra-raros, todavia sempre com o pé na estrada, são os viajantes “individuais”.

Área central de Palermo, próximo ao Spasimo
Área central de Palermo, próximo ao Spasimo

Foi em Palermo que cheguei com um low-cost da Vueling saído de Roma – Fiumicino, em um trajeto percorrido em menos de uma hora. A capital da Sicília, por assim dizer, é uma cidade jovem e com muitos locais interessantes a serem descobertos. Consegui um B&B a preço módico via Airbnb no coração da cidade, mercado Vucciria. Movimentado durante a semana e, em especial, nos fins de semana, quando a situação é caótica. Povo grita mesmo. Se não quiser descer e participar do vuco-vuco, comer as coisas típicas, use tampões para dormir. Cheguei em Palermo no final de agosto, quando justamente soprava o Scirocco, um vento quente que eleva a sensação térmica para níveis marcianos, uma coisa tipo Teresina.

Na Sícilia os trens não funcionam como no resto da Itália, exceção para a linha Palermo-Cefalù, que é bem servida, numa viagem que dura cerca de uma hora. Cefalù é uma típica cidade à beira-mar que durante o verão é invadida pelos turistas. A faixa de areia branca é tomada, obviamente. Evitando essa muvuca tipo Jurerê em fevereiro, à direita ao final da praia estão as rochas. Ali, é possível encontrar um lugar tranquilo longe da gritaria, porém sem areia, o que na Itália não é prioridade.

Detalhe de uma das bancas do mercado Ballarò
Detalhe de uma das bancas do mercado Ballarò em Palermo.

Terceiro dia de aventuras, busão da estação central de Palermo para Monreale. O lance improvisado na Sicília supera o Brasil, sem mentira. Tanto é que era o tiozinho que vende uns badulaques no ponto do busão que detinha os horários de partida e chegada do bus para Monreale. Também questão de uma hora para chegar. Lá no alto o calor deu uma aliviada. Visita à praça central e à catedral, patrimônio da Unesco. Vale a pena subir nas torres para ter um visual do alto de Palermo e da Conca d’Oro, o conjunto das montanhas que circunda a cidade. Almoço num restaurante típico ao lado da catedral, preço justo e uma Pasta alla Norma como tem que ser. Monreale é pequena, portanto pode ser visitada em meio-dia. Tendo em consideração que após o almoço a vida volta ao normal depois das 16h, sabe-se que essa “tradição” também atinge os ônibus. Espero por mais de uma hora para voltar a Palermo.

Chegando à cidade, na praça do Teatro Politeama, pego outro busão em direção a Mondello, a praia mais limpa e próxima de Palermo. Ok, águas limpas, etc e tal. Todavia, os italianos quando vão pra praia se instalam com casa, cachorro e tudo mais. A maior parte da extensão da areia é privada, resta pouco espaço livre e este, claro, superpopulado. Vazei. Melhor continuar a noite no centro de Palermo, que é cheia de vida e…botecos! A região do porto nas imediações da via Vittorio Emanuele concentra uma centena de restaurantes e botecos, mesas do lado de fora, claro. Uma coisa meio Brasil: calor, algazarra, música. Lugar ideal para encontrar outros viajantes e conhecer o povo da cidade.

O dia seguinte dedico a Palermo com uma incursão pelas vielas do mercado Ballarò. Uma experiência olfativa intensa. E visual também: algumas boas 200 fotos tiradas. Mercado tradicional que representa bem a cultura meridional italiana, com a fusão de culturas típicas daquela parte da Sicília.

Scala dei Turchi, província de Agrigento. Dizem que o pôr do sol é fantástico. Não pude conferir, infelizmente!
Scala dei Turchi, província de Agrigento. Dizem que o pôr do sol é fantástico. Não pude conferir, infelizmente!

Longe de Palermo, haviam dito que valia muito a pena conhecer o Vale dos Templos e a Scala dei Turchi, na província de Agrigento. Ida e volta no mesmo dia, de busão, valeu muito a pena. Cruzei uma parte interna da Sicília que é muito diferente do litoral. A viagem demorou algo como uma hora e meia. Chegando em Agrigento, o ônibus para o Vale dos Templos saiu rapidinho. Caminhar pelo Vale, contudo, foi devagarinho. O calor piauiense sem ao menos uma brisa às 11h da manhã era de matar. Acho que desidratei, mas não amarelei. Muita água e muita espera pelo ônibus que depois iria me deixar “próximo” a Scala de Turchi. Estendi à toa o dedo para pedir uma carona, recebi vários sinais de negativo. Enfim, o ônibus passou e me deixou a uns cinco quilômetros da Scala. Continuei em vão meus pedidos de carona. Caminhei uns bons 2 quilômetros até que um casal de Torino me deu uma carona até a escadaria para descer. Valeu muito a pena. O lugar é único e dizem que o por do sol é magnifíco, não pude ficar para ver. Lá, pelas coincidências do destino, encontrei brasileiros que vivem em Roma que me ofereceram uma carona para voltar para Agrigento, assim pude curtir a praia por mais tempo!

Hora de mudar de base. Destino: Trapani. Ali também por meio do Airbnb achei um apê dos anos 50 super inteiro todo pra mim por um preço módico. Sabia que não era no centro histórico, mas a distância seria facilmente coberta pedalando. Primeira medida em Trapani, limpar o sensor de imagem da câmera. Segunda: alugar uma bike. Por oito dias paguei 45 euros. Justo, cinco por dia. Rodei toda a cidade, o porto e as praias durante a tarde.  Pôr do sol nas salinas, com moinhos de vento e flamingos ao longe. No mesmo passeio estava uma família da Lituânia que, mais tarde, descobri estar hospedada pertinho do meu apê. Voltamos juntos pedalando e trocando experiências dos locais visitados!

Dia seguinte: início da exploração das Ilhas Egadi. A primeira: a menor, Levanzo. Embarquei, junto com a bike, na “nave” porque no ferry rápido não dá pra embarcar a bike. Pouco menos de duas horas e chegamos. A ilha é pequena e cheia de surpresas. Algumas “cala” de tirar o fôlego. Indo à direita a partir do porto é possível seguir as trilhas. Cabeção, ao invés de deixar a bike no porto, me meti nas trilhas com a magrela. Resultado: pneu furado. Voltei ao porto, deixei a inutilizável bicicleta ali e fui me informar sobre como visitar a Grotta dei Genovesi. Lugar ancestral que vale muito, mas muito mesmo a pena conhecer. Seguir pela trilha que sai do porto, contudo, é fora de cogitação. Chegar de barco e voltar pela trilha só se tiver tempo. O importante é ir até este local ancestral que era o topo de uma montanha quando a ilha de Levanzo era ligada à Sicília. Lá, no cume, as populações pré-históricas neolíticas e paleolíticas deixaram seus sinais nesta caverna que, ao que tudo indica, era um lugar sagrado. Tais sinais semelhantes são encontrados também na Espanha e na França, num veradeiro quebra-cabeça antropológico. O guia que nos explicou era muito simpático. Não permitiu contudo que fossem feitas fotos, mas não foi preciso. Grotta dei Genovesi, nota 10.  De volta a Trapani, já é noite, momento para saborear uma típica granita artesanal e depois comer uma deliciosa pasta alla norma (dieta elementar), não necessariamente nesta ordem!

Eu e a bike na cala Azzurra em Favignana
Eu e a bike na cala Azzurra em Favignana

Segunda das ilhas: Marettimo. Uau. Jurassic Park. A mais distante das três ilhas. Não demora muito porém para chegar com o ferry veloz. Já na chegada, ali mesmo no porto, o serviço de volta à ilha de barco é oferecido. Um dia inteiro para contornar a ilha por 15 euros. Vale a pena, claro. O dia estava lindo e o mar de almirante. Saio num barco com outras 10 pessoas. Para minha sorte, o irmão do comandante passa com outro barco onde estavam só três pessoas: obviamente pulei para o lado de lá. Com mais calma e sem o frenesi de umas crianças mal acostumadas e de umas mães italianas histéricas e super protetoras, a volta à ilha transcorreu maravilhosamente em paz. Acho que paramos umas 5 vezes para tomar banho. Todos os locais fantásticos. Os paredões da ilha altos quase 600 metros dão uma sensação de isolamento selvagem. As grutas formadas pela ação da água e do vento reservam uma surpresa a parte e, para mim, algo que jamais esquecerei. Numa das paradas para banho, uma gruta especial. É preciso nadar uns 10 metros adentro, tudo vai ficando escuro. Tocar as paredes lisas de calcário completa o cenário de fantasia. No fundo, uma pequena praia de pedrinhas brancas e escuridão total. Depois que os outros sairam, continuei ali sozinho por uns 10 minutos. Sentado, ouvindo as pequenas ondas reverberarem junto aos bíjá. Quando olha-se para trás, apenas um ponto de luz incide através das rochas diretamente na água azul turquesa cristalina e guia para a saída. Um lugar idealizado até mesmo para os contos de fada, sem dúvidas.

Pôr do sol a bordo da "nave" saíndo de Favignana.
Pôr do sol a bordo da “nave” saíndo de Favignana.

Terceira das ilhas: Favignana. Outra vez “nave” e bike. Sem vacilos, rodei toda a parte sul da ilha que é plana. Em meio-dia passei pelas principais “cala”, azzurra e rossa. Como estavam lotadas, claro, nem parei. Sempre deixando-me guiar pelos sentidos, acabei encontrando um lugar nas pedras com um mar tranquilo onde quase ninguém se aventurou a descer. Exceção para uns moloques que queriam pular das pedras, alta uns 10 metros. Saltos feitos, logo foram embora. Favignana tem centro histórico muito legal e eu queria comer um cous-cous, típico da região, herança gastronômica árabe. Nos restaurantes não encontrei nada e, quando ia em direção ao porto, acabei cruzando com um restaurantezinho onde tinha cous-cous fresquinho e vegetariano, feito por uma vegetariana. Viva! A guria deveria ter menos de 20 anos. Perguntei porque ela tinha decidido ser vegetariana. Porque me faz sentido, respondeu. E, de fato, essa é a melhor resposta.

Ilhas terminadas, dia para ir a San Vito lo Capo e conhecer Scopello e a Reserva Natural do Zingaro. Em Trapani, no Arancio Tourist onde aluguei a bike, eles me reservaram a ida ao Zingaro em barco por cinco euros. Valeu muito a pena. O mar estava mexido, não fizemos tantas paradas para banho, mas admirar a beleza incontaminada da reserva foi excepcional. Fiz minha boa ação traduzindo as infos da guia, muito simpática por sinal, para um casal da Suécia. San Vito lo Capo segue os padrões de Mondello, ou seja, cheia e privada. À esquerda, contudo, existe uma grande área livre onde fiquei muito bem por umas três horas enquanto aguardava a saída do barco. Volta para casa, no ponto a espera do bus estava a família de lituanas muito simpáticas. Patati patatá durante o retorno. Anoitece.

O fim das férias se aproximam: uma vez em Trapani, não tem sentido não descer até Pantelleria, argumento comigo mesmo durante a noite. De fato, no dia seguinte, me informo das partidas e me confirmam que o ferry rápido sai as 13h. Não tenho dúvidas, compro ida e volta. Dois dias em Pantelleria e depois voltaria para Roma, feliz da vida.

Um "Dammuso" em Pantelleria.
Um “Dammuso” em Pantelleria.

Sempre que via no google earth Pantelleria perdida no Mediterrâneo, mais próxima da África do que da Itália, imaginava uma ilha toda pitoresca, não paradisíaca. Para os italianos, a referência é sempre aquela da casa de Giorgio Armani, ou daquela de Gerard Depardieu e outras chiquerias. Mas o que importa é que chego as 4 da tarde, em 15 minutos descolo um quarto onde ficar e as 5 estou na bike (15 euros meio-dia – os preços na ilha são muito mais salgados). As cinco e meia chego no Lago de Vênus e dali não quero mais sair: as águas sulfúricas que são apenas uma das manifestações vulcânias secundárias presentes em toda a ilha (que na verdade é um vulcão adormecido) aliviam as tensões. Sem contar na lama terapêutica natural. Já é escuro quando resolvo sair das piscinas naturais, dedos enrrugados da hidrólise. Moleza no corpo, mesmo assim subo com a bike a íngreme ascendente antes de embocar a perimetral de Pantelleria. Dia seguinte, último dia, volta à ilha de barco. Outra vez, mar de almirante, céu de brigadeiro.

Paradas sensacionais para o banho. Já na primeira, fontes de água doce termais dentro do mar! Uma mistura de água quente, quentíssima, com as águas do mediterrâneo. Ninguém queria sair dali, nem os peixes! Uma experiência a ser feita e não escrita. Partimos as 10 horas da manhã e as 18h estávamos de volta ao porto. Ver toda a ilha da perspectiva de quem está a bordo foi inesquecível: salve a ilha preta!

No fim do passeio, rumores de que um vento fortíssimo se abateria sobre a ilha nas próximas horas, impedindo a navegação (o meu retorno a Trapani) e comprometendo os voos. Dito e feito. Na segunda-feira pela manhã pego um micro-ônibus e vou para o lago, na volta, consigo uma carona. Da perimetral vemos as ondas altíssimas. O motorista me diz: por três dias ninguém sai ou entra da ilha. Oba! Por vias das dúvidas, fui até a bilheteria e me deparei com o fatídico aviso de que o ferry rápido não sairia. Viva o improviso! Aviso no quarto que ficarei por mais alguns dias, alugo um 600 e vou dar a volta a ilha, desta vez de carro! O vento não perdoa!

Se na costa o vento é implacável, subindo em direção às pequenas planícies no interior da ilha, a intensidade diminui. Com o mapa da ilha no banco do carona, subo em direção à Montanha Grande. No caminho, vejo os mais variados tipos de dammuso, construções típicas pantescas, intercalados com os vinhedos. Não resisto e roubo um cacho de uva zibbibo, matéria prima do Passito de Pantelleria e dos vinhos da ilha. Ali, os parreirais são muito baixos para que os cachos fiquem protegidos do vento que sopra constantemente. Acaba a planície, enfrento uma longa trilha para chegar à Favara, local de outras manifestações vulcânicas secundárias: vapores de água quente que saem das fendas das rochas às vezes acompanhados de ácido sulfídrico. O bacana neste caso foi o caminho para chegar às fendas. E as fotos. Ainda à caça dos eventos vulcânicos secundários, próxima parada, Grotta Benikulà, ou sauna natural. Uma outra fenda, dentro de uma rocha, onde cabem seis pessoas sentadas. O vapor natural surge das profundezas e ali sim sente-se o seu calor e atuação no corpo. Ao sair da sauna, o bom é ter uma garrafa d’água para se refrescar, e outra para beber. Ali mesmo, um pequeno terraço em direção oeste garante o pôr do sol na África! Depois da sauna, nada melhor que as águas quentes do lago de Vênus. A lua crescente garantia a permanência também na clara noite da ilha preta!

 

Pôr do sol em Pantelleria
Pôr do sol em Pantelleria, a Ilha Preta.

No terceiro dia o vento torna-se quase brisa, o mar acalma. Os primeiros barcos começam a deixar o porto. Sinal de que o ferry veloz deverá zarpar e que minha aventura em Pantelleria vai terminar. De volta à ilha-mãe, tempo de subir em Erice, com a bike no bondinho, comer um Genovese alla nutella e descer a montanha. Ali, com o calor do vento no rosto, começo a repassar as férias, as aventuras e a libertação que é estar longe da zona de conforto e das comodidades quotidianas. Viajar sozinho é, antes de tudo, um percurso interior no qual muitos paradigmas são rompidos. É aprender que (lá vem clichê) não importa onde se vai chegar e sim a estrada percorrida. É sorrir quando perguntarem: passagem para quantos, mesa para quantos, quarto para quantos. É saber valorizar o imprevisto e assumir, de uma vez por todas, que “Deus nos criou livres, porém não independentes”.

Anúncios

“Democracia sem fronteiras” – Manifestação dos brasileiros em Roma

Fotos da manifestação desta sexta-feira, 21/06, no Coliseu, Roma.

Link para a matéria no Terra

20 anos depois da paz, democracia ainda deve crescer em Moçambique

MInistro italiano da Cooperação Internacional, Andrea Riccardi

Opinião é de Andrea Riccardi, fundador da organização católica Comunidade de Santo Egídio e um dos mediadores do Acordo Geral de Paz de 1992. Riccardi falou com exclusividade à DW: “Não existem ameaças como no passado”.

No próximo dia 4 de outubro, feriado nacional em Moçambique, serão comemorados os 20 anos da assinatura do Acordo de Paz entre os antigos rebeldes da RENAMO e o governo da FRELIMO, que se opuseram numa guerra civil que durou 16 anos.

Revendo o Boletim oficial da República de Moçambique publicado no dia 14 de outubro de 1992 – documento que oficializou a paz no país – o hoje ministro italiano da Cooperação Internacional, professor Andrea Riccardi, que junto com a equipe de mediadores da Comunidade de Santo Egídio ajudou a criar o Acordo Geral de Paz de Moçambique 20 anos atrás, conta que jamais deixou de acreditar que o fim do conflito civil fosse possível: “Eu sempre acreditei. Penso que, junto com Dom Matteo Zuppi, fomos os arquitetos da aproximação entre as partes que não se falavam”, disse o fundador da Santo Egídio, em entrevista exclusiva à DW África.

De um lado, estava o governo da Frente de Libertação de Moçambique, FRELIMO, do então presidente Joaquim Alberto Chissano. De outro, a Resistência Nacional Moçambicana, RENAMO, de Afonso Dhlakama.

O ex-mediador Andrea Riccardi levanta hipóteses sobre o que poderiam ter pensado ambas as partes antes da primeira ronda de negociações: “Grande era o risco de que um [FRELIMO] dissesse ao outro: ‘Senhores bandidos armados’ e os outros [RENAMO] dissessem: ‘governo ilegítimo'”.

Na época das negociações de paz, que duraram cerca de dois anos, um personagem fundamental conseguiu superar a resistência de aproximação da RENAMO: Dom Jaime Gonçalves, Bispo da Beira, como lembra Riccardi: “Foi um discurso importante para explicar à RENAMO que eles não tinham outra saída a não ser negociar. Depois, houve também um amadurecimento por parte do governo de Chissano”, disse o atual ministro italiano da Cooperação Internacional.

Diplomacia italiana

Uma decisão chave dos mediadores da Santo Egídio, uma comunidade de leigos católicos com sede na Itália, que durante dois anos e três meses negociou a paz em Moçambique, foi envolver a diplomacia italiana. “Solicitamos ao governo italiano – que na época tinha um grande prestígio em Moçambique – a nomear um representante, que foi Mario Raffaelli”.

Fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi foi um dos mediadores do Acordo Geral de Paz de 1992...Fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi foi um dos mediadores do Acordo Geral de Paz de 1992…

Mas se a comunidade internacional já começava a olhar com atenção as tentativas para terminar a guerra civil, que desde 1976 tinha devastado o país, internamente Moçambique tinha alguns conflitos que impediam o país avançar à tão sonhada estabilidade. “As relações entre o governo moçambicano e a Igreja Católica eram péssimas e só melhoraram quando eu, junto com a Comunidade de Santo Egídio, tomei a decisão de promover um encontro entre Dom [Jaime] Gonçalves e o secretário do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, que interveio pessoalmente junto à FRELIMO para que esta promovesse uma mudança na sua política religiosa”, explicou Riccardi à DW África.

Apesar de todos os esforços, em Moçambique quase ninguém acreditava que uma organização não governamental internacional pudesse ajudar a estabelecer os rumos de um futuro sem guerra.

“Foi a necessidade das duas partes, do governo e da RENAMO, que levou a Comunidade de Santo Egídio a desempenhar este papel para criar um acordo. A opinião pública ironizou, exerciam pressões. Mas, depois de longas tentativas, longos silêncios e dificuldades chegamos a um acordo”, relata Andrea Riccardi.

Porém, segundo ele, “as duas partes deveriam, ainda, amadurecer. Em particular a RENAMO, que deveria passar da luta armada à luta política. Havia um grande salto a ser feito”.

Perguntado se, passados 20 anos do Acordo Geral de Paz de Moçambique, Andrea Riccardi mudaria alguma coisa em Moçambique, o professor respondeu: “Acredito que um dos grandes problemas seja que a RENAMO deveria se transformar em [verdadeiro] partido de oposição para um [efetivo] funcionamento bipartidário da democracia em Moçambique. Entretanto, acredito que todos tenham respeitado os acordos: o governo e a RENAMO que jamais voltou às armas”.

Ainda olhando para o futuro, Riccardi fez uma crítica construtiva de quem ajudou a levar a paz a Moçambique: “Acredito que a democracia em Moçambique deva crescer. Mas não existem ameaças no sentido daquilo que houve no passado. Contudo, quando eu estive no Parlamento, em Maputo, e vi os guerrilheiros sentados nas cadeiras da oposição, não posso esconder que aquilo me comoveu”.

...assinado a 4 de Outubro daquele ano pelo então presidente moçambicano, Joaquim Chissano (esq.), e o líder da RENAMO, Afonso Dlhakama (dir.)…assinado a 4 de Outubro daquele ano pelo então presidente moçambicano, Joaquim Chissano (esq.), e o líder da RENAMO, Afonso Dlhakama (dir.)

Crimes a punir?

Evocando os protocolos do Acordo Geral de Paz de 1992, Riccardi respondeu à questão sobre se os crimes da guerra civil deveriam ou não ser investigados e tornados públicos numa Comissão da Verdade e Acolhimento.

“Moçambique fez outra escolha: a anistia. Esta foi a escolha de Moçambique porque os crimes e as violências foram praticados por ambos os lados. Temos que esperar os moçambicanos do futuro”, avalia.

Interesses económicos

Para este futuro, Riccardi acha que a democracia em Moçambique ainda precisa crescer, mas que “um grande bem estar está a aproximar-se. A presença da empresa petrolífera italiana [ENI, que estuda descobertas de gás natural na bacia do Rovuma, em Cabo Delgado, no nordeste do país] é algo a ser considerado. Há um grande crescimento de interesses económicos e a sociedade deve harmonizar-se com isso”.

Interrogado sobre se esta é uma visão do ministro italiano da Cooperação Internacional, Riccardi disse não saber: “É uma visão de um grande amigo de Moçambique, que conheceu o país quando a fome o assolava, quando no mercado central de Maputo tinha somente peixe seco. Hoje, em vinte anos, a história realmente mudou”, acredita.

Por outro lado, segundo Riccardi, “existe muita pobreza em Moçambique. Existe um problema de distribuição do bem-estar, mas para criar algo diferente é preciso que uma nova sociedade crie raízes”.

Autor: Rafael Belincanta (Roma)
Edição: Renate Krieger/António Rocha