Entrevista: António Guterres

Entrevista: António Guterres

Dezembro de 2013: António Guterres, então Alto Comissário da ONU para os refugiados, concede entrevista após encontrar o papa Francisco.

A “globalização da indiferença” do papa é também “globalização da rejeição” para Guterres. Ele falou também sobre a Europa que fecha fronteiras aos refugiados, sobre os migrantes haitianos no Brasil e sobre o exemplo de Mandela (que morreu um dia antes da gravação da entrevista).
Anúncios

“Temem que o povo me eleja em 2018”, afirma Lula ao papa Francisco

“Temem que o povo me eleja em 2018”, afirma Lula ao papa Francisco

Roma – Chegou às mãos do papa Francisco nesta sexta-feira (2), uma carta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O documento de 7 páginas foi escrito em espanhol e data de 30 de agosto – um dia antes do impeachment de Dilma Rousseff.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI em Roma

cartalulaprint
Carta tem 7 páginas e foi escrita em espanhol um dia antes do impeachment

Lula inicia a carta informando o papa sobre a “gravíssima situação política e institucional que o Brasil vive” e que “tomou a liberdade de escrever em nome da amizade e respeito que o pontífice tem pelo Brasil”.

Na primeira parte do documento, Lula afirma que por “meios democráticos e pacíficos”, o governo do PT conseguiu tirar o Brasil do mapa da fome da ONU, “liberando da miséria” mais de 35 milhões de brasileiros, além de “aumentar a renda e o consumo de outros 40 milhões”, no que chamou de “maior movimento de mobilidade social” da história do Brasil.

Lula afirma que após a vitória de Dilma Rousseff em 2014 sobre uma “poderosa coalizão de partidos”, os adversários não se conformaram com a derrota e “tentaram impugnar o resultado por todos os meios legais, sem obter êxito”.

O ex-presidente escreve que, a partir de então, “os partidos derrotados e os grandes grupos de comunicação se rebelaram contra as regras do regime democrático, começando a sabotar o governo e a conspirar para tomar o poder por meios ilegítimos”.

Durante o ano de 2015 – prossegue o documento – “no afã de inviabilizar o governo, apostaram contra o país, aprovando no parlamento um conjunto de medidas irresponsáveis para comprometer a estabilidade fiscal”.

“Finalmente” – lê-se a seguir – “não titubearam em desencadear o processo de impeachment inconstitucional e completamente arbitrário contra a Presidente da República”.

Em defesa de Dilma

Deste ponto em diante, Lula defende Dilma Rouseff, “uma mulher íntegra cuja honra pessoal e pública é reconhecida até mesmo por seus adversários mais fervorosos. Nunca foi, nem está sendo, acusada de nenhum ato de corrupção”.

Lula afirma que o governo Dilma não cometeu crime de responsabilidade fiscal e diz que os procedimentos contábeis “utilizados como pretexto para a destituição da presidente” nunca foram motivo para penalizar nenhum governo.

“Trata-se, portanto, de um processo estritamente político, que viola abertamente a Constituição e as regras do sistema presidencialista”, afirmou Lula.

Na última parte da carta, Lula escreve que as “forças conservadoras querem obter por meios obscuros aquilo que não conseguiram democraticamente: impedir a continuidade e o avanço do projeto de desenvolvimento e inclusão social liderado pelo PT, impondo ao país o programa político e econômico derrotado nas urnas”.

Eleições 2018

O ex-presidente chega as considerações finais alertando que “as mesmas forças que tentam derrubar a presidente, também querem criminalizar os movimentos sociais e um dos maiores partidos de esquerda democrática da América Latina, o PT”.

“Não se trata de mera retórica – lê-se a seguir – o PSDB já apresentou formalmente uma proposta de cancelamento do registro do PT”, disse Lula.

“Temem que em 2018, com eleições livres, o povo brasileiro possa me eleger presidente Presidente da República, para resgatar o projeto democrático e popular”, afirmou.

Lula ainda escreveu que o combate à corrupção “passou a ser muito mais vigoroso no governo do PT” e disse que “pessoalmente não teme nenhuma investigação”.

“O que não posso aceitar são atos de flagrante ilegalidade e parcialidade praticados contra mim e contra minha família por autoridades judiciais e policiais”, disse.

Lula considera sua “trajetória de mais de 40 anos de militância democrática seu maior patrimônio e ninguém me fará renunciar a isso”.

Antes de assinar, Lula agradece a “generosa atenção que Sua Santidade dedicou a esta carta” e “coloca-se à disposição para qualquer esclarecimento ou reflexão de interesse comum”.

Editorial: quem chorou hoje no mundo?

Editorial: quem chorou hoje no mundo?
  • Extraordinariamente, assinei o editorial da Rádio Vaticano justamente nesta semana em que o fotojornalismo fez-se fotojornalismo. Na redação, nos perguntamos se o Papa teria visto a imagem. A dúvida acabou no dia seguinte, quando na sua conta no Twitter, Francisco escreveu: “A guerra é a mãe de todas as pobrezas, uma grande predadora de vidas e almas”.

A imagem da fotojornalista turca Nilüfer Demir - AFP
A imagem da fotojornalista turca Nilüfer Demir – AFP

A imagem de uma criança migrante sem vida numa praia da Turquia rodou o mundo nesta semana. Aqui na Europa, também ganhou as manchetes dos principais jornais e provocou indignação nas redes sociais. Editoriais em grandes grupos de comunicação europeus argumentaram sobre a ética da publicação de tal fotografia e sobre a mensagem que ela continha em si mesma: o lado mais abjeto da guerra que se materializa no corpo inerte uma criança.

A cena da criança sem vida na praia de Bodrum une-se ao torvo retrato de uma cultura vil e insustentável que o Papa denuncia desde o início do seu Pontificado. A questão dos migrantes está no centro de seu Magistério: a primeira visita pastoral de Francisco foi à ilha italiana de Lampedusa – também local de chegada de muitos migrantes que fogem da África e do Oriente Médio em direção à Europa –, em julho de 2013.

“Adão, onde estás?”, questionou Francisco ao rezar pelas vítimas no Mediterrâneo lembrando de uma das perguntas que Deus colocou no início da história da humanidade, narrada no Gênesis. Jogando flores brancas e amarelas nas águas do Mediterrâneo contaminadas pela indiferença, um comovido Pontífice também questionou: “onde está o teu irmão?”, ao recordar outra colocação de Deus. O Papa então, ao final, acrescentou uma terceira pergunta:

“Peçamos ao Senhor a graça de chorar pela nossa indiferença, de chorar pela crueldade que há no mundo, em nós, incluindo aqueles que, no anonimato, tomam decisões socioeconômicas que abrem a estrada aos dramas como este. ‘Quem chorou hoje no mundo?’”.

As lágrimas da fotojornalista turca Nilüfer Demir petrificaram-se naquele 2 de setembro, ao ver o corpo do pequeno Aylan Kurdi que jazia na areia. Mesmo assim, naquele exato instante, decidiu apertar o botão de sua câmera.

“A única coisa que eu poderia fazer era tornar visível seu clamor. Naquele momento, acreditei que poderia fazer isso acionando o obturador da minha câmera e tirando a foto”.

Nos mais de 10 anos em que documenta a travessia dos migrantes a partir de Bodrum em direção à ilha grega de Kos, a somente 5 quilômetros, o pranto de Demir transborda dor e tristeza. Por que o jornalismo é o seu serviço!

A decisão de Demir foi o golpe de misericórdia na moribunda Europa. Este Velho Continente que não é capaz de lembrar que há 70 anos viu-se em meio a uma catástrofe humanitária gerada pela tragédia da própria guerra. Milhões de europeus foram forçados a emigrar diante da penúria do pós-guerra e buscar um porto seguro nos campos de refugiados – e também em outros países.

Naquela época, somente da Alemanha, hoje carro-chefe da economia europeia, saíram mais de 7 milhões de refugiados, sem contar os 2 milhões de franceses, 1,6 milhão de poloneses e 700 mil italianos.

Foi então que surgiram os primeiros tratados e organizações internacionais de proteção aos deslocados que, mais tarde, em 1951, estabeleceriam o Estatuto dos Refugiados. Dentre as normativas, destaque para a proteção dos migrantes e o impedimento de regressos forçados.

O Estatuto determina que seja o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) a aplicar e fiscalizar as regras para a proteção dos refugiados. Todos os Estados que tenham ratificado a Convenção de 1951 são obrigados a cooperar com as ações do ACNUR e cumprir as normas básicas vigentes. Ou seja, não discriminar por raça, sexo, religião e nação e fazer valer a regra do “non refoulement” em não mandar de volta ao país de origem quem poderá ser alvo de perseguição.

Antes da foto de Demir, a chanceler alemã Angela Merkel demonstrou “não ter esquecido” o passado recente do seu país e abriu, por assim dizer, as fronteiras. A Alemanha espera para este ano mais de 800 mil pedidos de asilo.

Ainda não sabemos qual será o efeito da imagem do menino de Bodrum em termos de abertura e aceitação dos migrantes em território da União Europeia. Tampouco sabemos se, naqueles que promovem a guerra, ainda resta uma fagulha de misericórdia ou um ímpeto de humanidade. Ou, se naqueles que servem à economia tecnocrática, há espaço para a cultura da solidariedade.

Em março deste ano, Francisco compartilhou uma importante reflexão moral para o debate da questão dos migrantes: “Pensemos nisto: todos somos migrantes a caminho da vida, nenhum de nós tem um domicílio fixo nesta terra, todos temos que ir”.

Aylan Kurdi, o menino da praia de Bodrum, teve que ir mais cedo: foi um migrante nesta terra somente por três anos.

No Vaticano, Haddad apresentará “visão ousada” para São Paulo

No Vaticano, Haddad apresentará “visão ousada” para São Paulo

“Uma surpresa positiva”. Assim o prefeito de São Paulo disse ter recebido o convite da Pontifícia Academia das Ciências para participar, a partir desta terça-feira (20/7), no Vaticano, do encontro sobre “Escravidão Moderna e Mudanças Climáticas”.

Fernando Haddad é um dos sete prefeitos brasileiros de um total de 40 prefeitos do mundo inteiro que são aguardados no Vaticano. O debate converge com a recente publicação da encíclica Laudato si do Papa Francisco, que vai receber os prefeitos na Aula de Sínodo, na tarde desta terça-feira.

Reciclagem, iluminação pública e mobilidade urbana deverão guiar a participação de Haddad no encontro, no qual apresentará as recentes mudanças promovidas após a aprovação do Plano Diretor e as perspectivas de um futuro sustentável para a maior cidade da América do Sul.

Ao afirmar que São Paulo está muito atualizada no que diz respeito às questões globais de sustentabilidade, Fernando Haddad deverá defender  durante o encontro uma “visão mais ousada” que a prefeitura tem aplicado no processo de transformação da matriz da mobilidade da cidade.

sao paulo de cima
Haddad defende mudança “ousada” na matriz da mobilidade de São Paulo

“Devolvendo para o transporte público, para o pedestre e para o ciclista aquilo que nunca poderia ter sido tirado dele, que é o espaço para que estas modalidades de locomoção sejam priorizadas em relação ao transporte individual motorizado para o qual as cidades não têm capacidade de suporte. Aqui em Roma, são quase 1 carro para cada habitante, em São Paulo há 1 carro para 2 habitantes. Ou seja, daqui a pouco não vai haver espaço para que as pessoas possam se deslocar. A não ser que a matriz da mobilidade seja totalmente alterada. Isso tem um custo político, isso tem um custo social. Mas é absolutamente imprescindível nós conseguirmos planejar o futuro com um pouco mais de ousadia. Não manter um padrão que nós sabemos, insustentável”, afirmou à RV.

Haddad afirmou ter recebido com surpresa o convite do Vaticano e saudou a inciativa do Papa em promover um debate de questões tão “palpitantes e urgentes”.

Haddad durante a entrevista após ser recebido pelo prefeito de Roma
Haddad durante a entrevista após ser recebido pelo prefeito de Roma

“É inusitado. Todos nós fomos surpreendidos positivamente pelo convite. Penso que o Papa Francisco demonstra uma sensibilidade e uma capacidade de ser vincular a temas da maior relevância, da maior atualidade e, à maneira dele, ele está colocando na agenda política dos Países e das cidades temas incontornáveis. Não podemos mais fingir que não há pobres, que estamos degradando o meio ambiente. Se não cuidarmos dessas metrópoles hoje, com espaço de convívio, interação e produção de cultura, de política, de artes, de conhecimento, de bens e serviços – mas temos que fazê-lo de forma sustentável – todos nós acabaremos prejudicados. Então, o Papa demostra uma capacidade de previsão muito impressionante. Esse reforço, para nós que estamos no dia a dia das cidades, trabalhando em prol delas, quase espiritual, de inspirar de mobilizar almas e corações para um projeto urbano mais digno da existência não poderia vir em melhor hora”, concluiu.

//

Vaticano conclui no Brasil investigação sobre possível milagre atribuído a Madre Teresa

Vaticano conclui no Brasil investigação sobre possível milagre atribuído a Madre Teresa

O caso da cura milagrosa em Santos – que poderá determinar a canonização de Madre Teresa – chegou ao Vaticano no início deste ano e logo foi considerado válido por apresentar elementos contundentes para a instauração de um processo.

A Congregação para a Causa dos Santos concluiu as investigações no Brasil sobre o possível milagre atribuído à intercessão de Beata Madre Teresa de Calcutá para a cura inexplicável de um homem em Santos (SP), em meados de 2008. Fontes vaticanas revelaram que o Papa Francisco teria declarado durante sua visita à Albânia que “segue de muito perto” a causa de Madre Teresa e teria a intenção de canonizar a religiosa o “mais depressa possível”.

O caso da cura milagrosa em Santos – que poderá determinar a canonização de Madre Teresa – chegou ao Vaticano no início deste ano e logo foi considerado válido por apresentar elementos contundentes para a instauração de um processo. Tanto que a fase diocesana do tribunal vaticano aconteceu entre 19 e 26 de junho, na diocese de Santos.

Fatos evidentes

O Promotor de Justiça nomeado para o processo local, padre Caetano Rizzi, afirmou que tudo aconteceu muito rapidamente porque os fatos são evidentes.

João Paulo II e Madre Teresa na Índia em 1985
João Paulo II e Madre Teresa na Índia em 1985

“Ouvimos diversas testemunhas, ouvimos o possível miraculado. Foi um processo longo, intenso, com muitas audiências e muito trabalho. Mas a graça de Deus nos faz chegar a conclusão de que não temos aqui uma palavra para explicar o que aconteceu. Está sendo um processo muito rápido porque os fatos são evidentes”, explicou

O Delegado episcopal vaticano para o tribunal local, Monsenhor Robert Sarno, explica que agora, antes do possível milagre ser levado até o conselho médico da Congregação para a Causa dos Santos, ele precisa ser analisado por dois médicos autônomos indicados pela Congregação.

Fase Vaticana

“Eles devem emitir uma opinião se existe uma explicação científica para a imediata e instantânea cura da pessoa. Se um deles afirma que sim, então o caso vai para a análise do conselho médico da Congregação que vai avaliar o possível milagre com base nos depoimentos das testemunhas e na documentação médica do caso”.

Após esta análise, caso os médicos deem uma posição afirmativa sobre a autenticidade do milagre, o caso passa para o conselho teológico da Congregação que deverá analisar os elementos teológicos do possível milagre.

“Podemos demonstrar que, no momento em que a intercessão da Beata Madre Teresa de Calcutá foi pedida, as condições do doente mudaram inexplicavelmente? Se os teólogos apresentarem uma resposta afirmativa para esta pergunta, o caso passa para a análise dos bispos e cardeais da Congregação. Se eles considerarem que o milagre não tem explicação científica – comprovado pelos médicos e concedido por Deus por meio de Madre Teresa de Calcutá e aprovado pelo Conselho Teológico –, então eles encaminharão seu parecer positivo ao Papa que é o único que tem autoridade para julgar o caso”.

Jovens venezuelanos fazem greve de fome em protesto contra Maduro e pedem para encontrar o Papa

Jovens venezuelanos fazem greve de fome em protesto contra Maduro e pedem para encontrar o Papa

Os jovens venezuelanos Martín Paz e José Vicente Garcia entraram, nesta quarta-feira, (09/06), no quinto dia de greve de fome. Eles estão diante da Sala de Imprensa do Vaticano e querem um encontro com o Papa Francisco. Ambos são membros da Câmara de Vereadores de San Cristóbal, capital do estado venezuelano de Tachira.

martin.jpg
Martin, 29 anos, disse que pretende denunciar ao Papa as violações dos direitos humanos na Venezuela.

Martín, 29 anos, disse que pretende denunciar ao Papa as violações dos direitos humanos na Venezuela. O jovem afirmou que o protesto aconteceria com ou sem a presença de Nicolás Maduro. O Presidente da Venezuela cancelou o encontrou que teria com Francisco no último domingo, (07/06).

“Hoje, em nosso País, a situação dos direitos humanos é complicada. Pessoas são torturadas, perseguidas e reprimidas porque se expressam diferentemente do governo. Existem mais de 70 presos políticos nas penitenciárias venezuelanas. Pessoas morreram por causa da repressão do governo. Por isso, nós nos somamos à greve de fome em curso em nosso País, que acontece em oito estados onde mais de 50 pessoas, não somente políticos, mas também cidadãos comuns, protestam para pressionar o governo e o mundo para que os direitos humanos sejam respeitados em nosso País”.

Martin Paz e José Vicente Garcia em um colchão na calçada da Via da Conciliação
Martin Paz e José Vicente Garcia em um colchão na calçada da Via da Conciliação

Martín e José vieram ao centro da fé católica também para defender a entrada de organismos internacionais na Venezuela para que estas avaliem a situação dos direitos humanos no País.  “Deixamos nossos filhos, nossas esposas, a nossa gente para vir aqui e tornar visível aquilo que para a Comunidade internacional é invisível. Queremos derrubar esse governo de fachada e, por isso, viemos até a máxima representação da Igreja”.

[vimeo https://vimeo.com/130228332]

“Hoje os venezuelanos não têm uma instituição a qual recorrer em nível nacional. E, por isso, a Igreja é o primeiro ente ao qual as pessoas recorrem quando o Estado não responde. A fé é o que está movendo a Venezuela hoje. Todos em greve de fome foram levados à igrejas. E, nós, viemos para cá, como representação desta fé e, além disso, confiando no Papa Francisco, que conhece muito bem a realidade da Venezuela, e pode interceder para solucionar estes problemas. Tudo o que queremos é sermos minimamente escutados, poder entregar uma carta ao nosso Papa, que ele não somente saiba da situação atual na Venezuela mas que também as pessoas na Venezuela sintam a esperança de que o Papa intercederá por todos nós”.

Especial: “Custa mais matar do que salvar”

Especial: “Custa mais matar do que salvar”

Nesta terceira e última matéria especial sobre a Casa do Menor, instituição fundada pelo padre italiano Renato Chiera na periferia do Rio de Janeiro, ele reflete sobre o porquê da sociedade brasileira querer investir na violência e o que ele espera que aconteça com a Casa do Menor quando ele não estiver mais por aqui.

Em contraposição a essa realidade, ouviremos também os testemunhos de dois jovens recuperados na Casa do Menor. Padre Chiera e o grupo de 25 menores vieram a Itália para uma turnê musical. Conheceram o Papa no início de abril e agora volta ao Brasil com a esperança de um Brasil menos desigual.

RV5495_Articolo

Como é que a Casa do Menor se mantém hoje?

Padre Renato Chiera: Hoje nós temos muitas dificuldades. O governo ajuda pouco, muito pouco. A sociedade brasileira está crescendo um pouquinho mais na solidariedade mas aquele que poderia mais ajudar ainda não ajuda. Então, nós devemos chamar a sociedade a esta responsabilidade.

Custa mais matar do que salvar

Para nós não tem nem 500 reais. 500 reais para salvar, 4,5 mil para matar. Nós queremos investir na violência. Estamos investindo na violência. Isso custa até em nível econômico. Custa mais matar do que salvar. Isso é uma loucura!

Como gostaria de ver o trabalho da Casa do Menor ir avante quando o senhor não estiver mais aqui?

Eu estou virando velho. Então eu tenho que preparar o futuro. Eu, gostaria, primeiro, que continuasse. Segundo, que se espalhasse e crescesse.  E, terceiro, que nós pudéssemos manter esta alma, esta mística. Nós fazemos isso para os meninos porque eles são Jesus. Porque se não tivermos esta mística nos perdemos o entusiasmo, perdemos a gasolina, então perdemos aquilo que é nosso diferencial. Eu não gostaria que amanhã a Casa do Menor fosse uma ONG como tantas as outras. Mas a coisa mais séria é pessoas: pessoas vocacionadas. O amor não é uma profissão. O amor é uma vocação.

Drama atual

Hoje a realidade dos meninos não é mais tão visível como antes na rua, mas é mais dramática. Queria pedir aos padres nas paróquias de estarem atentos ao grito destes meninos que não vêm à Igreja, nós irmos procurá-los lá onde tem o narcotráfico, onde o tráfico está adotando estes nossos meninos, não ter medo, ir  até eles. Eu digo: não cadeia neles, família neles, amor neles, escola, casa, profissão, futuro. Aí que teremos um Brasil melhor.

Vida nova

Juan de Barros, 17 anos

Eu cheguei no dia 22 de abril de 2013 na Casa do Menor. Cheguei com o propósito de me recuperar… sair da vida errada em que eu estava. Minha vida era muito “correria”. Minha vida não era nada mais, nada menos, que aquela realidade que nós vemos aí na cidade, que é a agressividade, é o roubo, que é a prostituição, que é o tráfico. Então, a minha vida era baseada dentro disso. Eu vivia na ilusão.

Como é que foi a sua acolhida na Casa do Menor?

Quando eu cheguei, o propósito era de ficar três meses e sair. Tinha colocado no meu coração de ficar só três meses. Mas, conforme o cotidiano, o amor que eles passaram para mim, o carinho, a compreensão. Hoje eu falo isso com muita emoção que a Casa do Menor me ajudou muito. Fico e me sinto muito grato pelo o que eu tenho hoje,  o que eu sou: eu devo muito a eles.

Como é que você pretende passar isso que você recebeu adiante?

Pretendo passar da maneira que me passaram.  Por meio do amor, do carinho, da conversa, do diálogo. Não com violência, como está sendo hoje em dia no mundo. Lá fora, como existem muitas pessoas ruins, existem também muitas pessoas boas.

Rosana Agrícola da Silva, 29 anos

Três anos atrás, como era sua vida?

A minha vida sempre foi muito difícil. Nós vivemos numa área carente e desde quando eu nasci, minha mãe sempre foi alcoólatra. Eu sempre fui criada… não exatamente criada, mas vivendo com a proteção de Deus, cuidando dela, até que ela faleceu. Eu vivi uma vida meio complicada em casa com parentes, com drogas… Então, eu encontrei a Casa do Menor, que tem amigos, tem pessoas unidas, tem pessoas que falam sobre a mudança, o que a gente pode fazer pra mudar. Para mim foi inspirador e aí eu tive que entrar.