30 de outubro: o terremoto mais intenso da Itália desde 1980

30 de outubro: o terremoto mais intenso da Itália desde 1980

7h38. Acordo. Já dormi a horinha a mais da volta ao horário normal.

7h40.  A placa africana empurra com força a placa euroasiática. Epicentro: Norcia, ao norte de Roma. 

Solto o primeiro tuíte, com muita calma. Tudo treme ainda. E continua. Uns bons 40’. Na sala, o Benjamin samba freneticamente tal como rainha de bateria.

Me acostumei a esta coisa enfadonha de não ter chão, literalmente. Desde 24 de agosto (a primeira vez a gente nunca esquece) até este 30 de outubro – em que celebro 4 anos de reconhecimento da cidadania italiana – senti a maior parte das propagações sísmicas que chegaram à capital.

Mas hoje foi mais forte! Na minha escala, soma-se ao fuzuê do Benja a queda de um dos meus soldadinhos de chumbo (um marechal francês, justamente!).

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Info do USGS em Richter

Começo a pesquisar: USGS logo divulga a intensidade Richter: 6.6. O INGV porém registrava 6.1 de momento. Um tanto quanto divergentes apesar das diferenças de cálculos entre as escalas Richter e Magnitude Momento. Logo o INGV revê para 6.5; com possível reajuste.

Aqui cabe um esclarecimento para os italianos que acreditam em manipulação de dados sobre a intensidade.

“Elaboramos os dados da rede sísmica nacional, registrados a poucos quilômetros do epicentro, e os reproduzimos por meio de um modelo calibrado com base nas características do território italiano. O resultado, portanto o valor da magnitude, é mais realístico comparado ao de outros institutos, que utilizam dados provenientes de diversos centros europeus ou mundiais e os reproduzem a partir de um modelo menos específico no que diz respeito às particularidades do território italiano”, disse a NATGEO Alessandro Amato, do INGV.

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A primeira avaliação do INGV

No whatsapp, recebo mensagens de quem viveu pela primeira vez um terremoto (logo o mais intenso!) e daqueles que já não aguentam mais tantos tremores.

As notícias começam a correr. A mais importante: não há vítimas. Em Norcia, a Basílica de São Bento desmoronou. Estive lá em maio: uma pérola medieval que passa à História. As regiões já antes atingidas voltam a ser duramente castigadas. Há danos em mais de 100 cidades.

Em Roma, danos nas Basílicas de São Paulo e São Lourenço, que foram fechadas. Registros de muitas rachaduras.

É o abalo sísmico mais intenso desde 1980 na Itália. 

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A Basílica de São Bento em Norcia destruída pelo terremoto
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Terremoto: moradores de Roma acordaram com camas tremendo

Terremoto: moradores de Roma acordaram com camas tremendo

O terremoto que atingiu o centro da Itália na madrugada desta quarta-feira (24), foi sentido em Roma. O correspondente da RFI conta que, como outros moradores da capital, acordou com a cama tremendo. Assustada, a população foi para as ruas da cidade.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI em Roma

Eram 3h36 da madrugada desta quarta-feira, quando a região central da Itália foi atingida por um forte terremoto de 6 graus na escala Richter.

O epicentro foi a cidade de Accumoli, ao norte da região do Lácio, onde houve muita destruição. A cidade com maiores danos é Amatríce, na mesma província. Pescara del Tronto, na província das Marcas, também foi severamente atingida.

Nas primeiras horas após o terremoto principal, o prefeito de Amatríce Sergio Pirozzi declarou: “metade da cidade não existe mais”. As primeiras fotos ao amanhecer confirmavam o drama.

Réplicas também foram sentidas em Roma

Em Roma, o terremoto foi sentido praticamente em toda capital. Eu, no momento exato do terremoto, acordei com a cama que chocalhava muito forte, com um grande susto. Nós, moradores de Roma, também sentimos os tremores que se seguiram durante a madrugada, de 5,1 e 5,4 graus. Muitas pessoas saíram de casa e foram para as ruas. Não foram registrados danos maiores na capital.

O Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia (INGV) localizou o epicentro do sismo principal a 4 quilômetros de profundidade entre as províncias de Rieti e Ascoli Piceno, distantes cerca de 150 km de Roma.

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Amanhecer em Roma em 24 de agosto 

Especialistas do INGV afirmaram que o potencial de destruição do terremoto pode ser comparado ao terrível sismo que devastou a cidade de Aquila em abril de 2009, e deixou 309 mortos.

Coincidentemente, o horário do terremoto deste 24 de agosto foi praticamente o mesmo do de Aquila, que foi registrado às 3h32.

Itália: educar à prevenção para evitar tragédias em caso de desastre natural

Itália: educar à prevenção para evitar tragédias em caso de desastre natural

O sul da Itália é uma das regiões mais vulcânicas do planeta. Seja no mar ou em terra firme, as manifestações são visíveis. Na região de Nápoles, apesar das últimas erupções terem acontecido há centenas de anos, o monitoramento é constante: alterações nas condições dos gases expelidos e pequenos terremotos poderiam ser o pré-anúncio de uma grande atividade vulcânica.

Vulcão Solfatara, perto de Nápoles, um dos 40 da região dos Campos Flegrei. Aqui, não restam dúvidas de que estamos em cima de um vulcão em atividade. Milhões de pessoas vivem nesta zona e os especialistas afirmam que, em caso de uma erupção ou terremoto intensos, seria quase impossível evitar uma tragédia colossal.

“Este é o ponto em que, provavelmente, ficamos um pouco para trás. A população não está, talvez, completamente consciente sobre os riscos do território. Todavia, por sorte, este é um momento tranquilo. Não há sinais de atividades que possam levar a pensar em eventos extremos. Então, temos todo o tempo para intervir, para realizar planos de emergência que sejam realmente operativos, e com a participação da população. Para que esta tome consciência da situação e, por consequência, esteja pronta a fazer uma série de percursos referidos pelos planos de evacuação da Defesa Civil, caso algo aconteça”,  afirma Francesco Peduto, Presidente do Conselho Nacional dos Geólogos italianos.

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Vulcão Solfatara em atividade na cidade de Pozzuoli, Nápoles.

Como parte da educação para a prevenção, os geólogos italianos incentivam as visitas aos locais com atividade vulcânica: é um modo para se conscientizar sobre a essa magnífica e assustadora força da natureza.

Para quem vive literalmente quase na boca do vulcão, a presença do vizinho é sempre um motivo de preocupação, mas nada que tire a normalidade da vida cotidiana.

“Estamos circundados pelos vulcões. Para nós é normal. Se houvesse uma explosão não saberia para onde ir. Os testes que fazemos não servem a nada. Não sei o que fazer: é preciso seguir em frente torcendo para que isso não se repita”, admite Pasquale Lungo, 16 anos.

“Em caso de perigo, tem uma sirene que toca três vezes. Depois, continua a tocar. Temos que ficar embaixo dos bancos e, depois, formar uma fila e sair pela saída de emergência. Temos que tentar manter a calma, ficar sempre em fila… É preciso ficar perto de pilastras e colunas que possam nos proteger”, explica Davide Albanese, 17 anos.

“Nas aulas temos um cartaz onde estão escritas todas as regras sobre o que fazer em caso de incêndio ou terremoto. Nos explicam o que fazer, a cada ano fazemos testes de evacuação e também tempos lugares para onde ir em caso de problema”, disse Fabrizio Francino, 15 anos.

“Em teoria, sabemos o que fazer… Falo também da minha experiência pessoal. Já aconteceu de ter um terremoto e a sirene não ter tocado, ou ter tocado mais tarde. Também já aconteceu de ter que continuar na sala mesmo após alguns tremores…tivemos que tomar a iniciativa de sair mesmo que a diretora não estivesse de acordo. Digamos que este sistema de segurança não funciona muito bem, mas em teoria sabemos o que fazer”, questiona Alberto Nuoto, 17 anos.

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Cidadania italiana: acordo vai reduzir burocracia nos consulados italianos no Brasil

Cidadania italiana: acordo vai reduzir burocracia nos consulados italianos no Brasil

A recente adesão do Brasil ao Pacto de Haia, que extingue a legalização de documentos civis nacionais para processos no exterior, terá incidência direta sobre o tempo do processo de reconhecimento de cidadania nos consulados italianos no Brasil.

“A burocracia do processo vai cair em torno de 50%”, afirma a deputada no Parlamento italiano, Renata Bueno.

O prazo para a emissão da regulamentação brasileira do acordo é de 8 meses, e deverá entrar em vigor junto com a regulamentação internacional, a partir de julho de 2016.

Atualmente, em média, a espera para obter o reconhecimento da cidadania italiana por meio de uma das 7 agências consulares italianas no Brasil, é de cerca de 10 anos.

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“Este ano também conseguimos que o governo italiano mande mais 2 milhões de euros para que os consulados possam melhorar os serviços. Temos feito o possível para que esta situação crítica ao menos melhore”, enfatizou a deputada ítalo-brasileira eleita na circunscrição eleitoral italiana da América Meridional.

O processo de reconhecimento da cidadania italiana pode ser feito tanto no Brasil como na Itália. Todavia, com as grandes filas enfrentadas nos consulados no Brasil, a deputada afirma que na Itália o processo é mais rápido.

“Convém fazer na Itália. Mas isso tem um custo, principalmente de estar aqui, de ‘morar’ na Itália. Mesmo assim, quem faz pelo Brasil também tem que pagar uma taxa de 300 euros por cada pedido, o que não acontece na Itália”, recordou Bueno.

Informações completas sobre o reconhecimento da cidadania italiana podem ser encontrados no site do Ministério das Relações Exteriores italiano

Itália começa a votar lei que reconhece união gay

Itália começa a votar lei que reconhece união gay

Após ver manifestações pró e contra a legalização do casamento gay no país, o senado italiano começa a debater nesta terça-feira (2) o projeto de lei que prevê o reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo. A casa já não tem mais motivos políticos para postergar o início da revisão e voto de cada um dos artigos da futura lei, como aconteceu em 28 de janeiro. Ao texto foram propostas mais de 3000 emendas e a votação deverá se estender até 11 de fevereiro.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI em Roma

A Itália, único país da Europa ocidental a não reconhecer a união civil entre homossexuais, deve superar este vácuo legislativo. Os constantes recursos e apelos dos ultraconservadores católicos, já não podem contar nem menos com o apoio do Papa.

Francisco pediu para que a Conferência episcopal literalmente não metesse a colher em assuntos legislativos e cuidasse da pastoral, acabando com um dos últimos entraves à votação do projeto 2081, ou Cirinnà nome de sua autora, a senadora do partido Democrata, Monica Cirinnà.

O texto prevê instaurar uma união registrada em cartório entre pessoas do mesmo sexo, que se comprometem a ter uma vida comum fiel e a dar assistência moral e material recíproca

Os senadores terão trabalho. São centenas de propostas de emendas ao projeto de lei, outras tantas de anulação de artigos e parágrafos. Um dos pontos mais polêmicos é a adoção, que deverá enfrentar grandes investidas contrárias.

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Senado italiano começa hoje debate sobre lei que autoriza a união gay no país. REUTERS/Remo Casilli

Reações machistas e conservadoras

Na verdade, a lei Cirinnà, de um ponto de vista social e antropológico, mexe com ultrapassados, mas arraigados arquétipos de uma Itália machista e pseudo-laica que, a todo custo, quer manter acorrentadas e amordaçadas as opiniões contrárias.

Nesta segunda-feira (1), porém, a juíza da Corte Constitucional italiana, Melita Cavallo, antes de anunciar sua aposentadoria, colocou em xeque aqueles que defendem a inconstitucionalidade da futura lei.

A juíza está convencida de que as uniões de fato precisam de uma disciplina, até “porque isso não retira nada aos direitos dos outros, que escolhem se casar”, declarou.

Por sua vez, o representante na Câmara do Partido Democrático, o partido do premiê Matteo Renzi e da senadora Monica Cirinnà, declarou que respeita as posições contrárias, porém “grande é a consciência do papel do Parlamento. Faremos uma boa lei, com o respeito do direito de todos”.

Globo repórter 140 anos de emigração italiana ao Brasil – jornalismo zero, champanhes mil

Globo repórter 140 anos de emigração italiana ao Brasil – jornalismo zero, champanhes mil

Acordo com um link no whatsapp enviado por uma amiga que também é jornalista e vive em Roma. Ao ver a descrição, as raízes falaram mais alto e, obviamente, cliquei. Nem mesmo os 30’ de publicidade com o Faustão cortaram meu entusiasmo. Vinheta do Globo repórter: anos que não assistia.

Já na cabeça, começa o show de clichês. Sigo firme, com fé no jornalismo da emissora gaúcha de outrora. Inocente que sou, na empolgação inicial, caio até mesmo na bobagem de chamar o amigo italiano para assistir.

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Antonio Moglia: genuidade preservada dos emigrantes italianos

O que Veneza tem a ver com a emigração italiana ao Brasil? Na-da.

No tempo da emigração, não existia uma identidade italiana, muito menos veneta. O que havia era uma região ainda dividida – em todos os sentidos – pelas consequências da guerra do império austro-húngaro e o temor constante de que as terras fossem invadidas. Sem contar as batalhas pela unificação da Itália, também naqueles conturbados anos.

Aí vejo as gôndolas de Veneza? Sabe quando custa um passeio de gôndola em Veneza? Pobres antepassados, fugidos da fome e da guerra, se remexem no túmulo das euforias voláteis de um pseudojornalismo de viagem que engana com belas imagens.

Os emigrantes eram p-o-b-r-e-s! Não cultivavam uvas para champanhes! Eram pequenos agricultores de subsistência.

Aqui, a ausência de um embasamento histórico denota a frágil pré-produção sem a qual nenhuma grande reportagem pode se sustentar, nem mesmo apelando para uma série desnecessária de stand-ups que “começam no nada e terminam em lugar nenhum”.

Corte seco – estou na serra gaúcha. Aliás, estou na elite da serra gaúcha. Maior produção de vinhos, etc e tal, riqueza alicerçada no trabalho. Coisa boa e justa. Toda aquela “messa in scena” de mesas ao ar livre com música e degustação de vinhos, todavia, não me convenceu.

Jornalisticamente, um vt de 1’30’’ com o pão que a senhora Scopel preparou teria sozinho explicado melhor o sentimento da “emigra-nação” ítalo-brasileira.

Na contracorrente dessa falsa glamourização da emigração está a origem de tudo: a simplicidade daqueles h-e-r-o-i-s do passado que, OBRIGADOS a deixar a terra amada, mesmo com a separação forçada de milhares de famílias, mantiveram-se unidos nos estreitos laços das tradições que deixariam uma marca profunda na identidade cultural brasileira.

Para finalizar, lhes convido a sentar ao redor do fogão à lenha, comer castanha e nozes e tomar um bom café (chimarrão e pinhão no Sul), e assistir a este rápido vídeo em que Antonio Moglia – retrato fiel, intocado e original dos emigrantes de antes – explica a emigração em uma frase.

“Por que todos foram embora? Porque era preciso, para viver. Todos no vilarejo foram embora, um motivo tinha que ter”.

Buona visione.