Neojiba: música que transforma vidas

Neojiba: música que transforma vidas

Tem um Podcast muito especial pra inaugurar o novo layout do blog: uma série de matérias com os músicos da Neojiba gravadas em setembro, quando eles passaram por Roma em turnê. Pude, durante os ensaios, conhecer a história de alguns destes jovens fantásticos. Compartilho com vocês porque dão ânimo para sonhar com um futuro melhor em meio a tantas incertezas.

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Marcos Vinicíus, um dos jovens

“As turnês são uma oportunidade incrível”.

“Um sonho quase deixado de ser sonhado”.

“Vim pra transformar quem assiste ao concerto”.

“É uma energia só, de beleza, de arte”.

“A música abriu totalmente a minha mente”.

“A música transforma a todo momento”.

Buon ascolto!

Brasil lidera aumento de consumo de peixes de aquicultura

Brasil lidera aumento de consumo de peixes de aquicultura

O consumo mundial de peixes de aquicultura superou pela primeira vez na história a pesca natural. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (08/07), pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

O Relatório anual sobre o estado da Pesca e Aquicultura no mundo revela ainda que o Brasil está entre os 25 maiores produtores de peixes de aquicultura.

O Diretor Geral da FAO, José Graziano da Silva, afirmou que o consumo de peixes de aquicultura superou o de pesca natural no país. Atualmente, mais de 50% dos peixes consumidos no Brasil são provenientes da piscicultura.

“O Brasil está na liderança dos países que aumentaram o consumo de peixe. Há poucos países, infelizmente, que estão aumentando este tipo de consumo. Digo infelizmente porque o peixe tem se mostrado uma proteína de melhor qualidade para o consumo humano e recomendado para uma dieta saudável”, explicou.

Potencial

Graziano afirma que o Brasil detém um grande potencial de crescimento para o setor. Ele cita grandes açudes e lagos que podem ser utilizados para a piscicultura graças a uma lei que reconhece estas águas como públicas. Porém, adverte que o Governo brasileiro deve defender os pequenos aquicultores e pescadores.

“Há sempre uma tendência, uma vez estabelecida uma atividade lucrativa como é a aquicultura hoje no Brasil, que grandes empresas entrem neste mercado. Isso é parte da tendência econômica de grandes grupos econômicos que procuram alternativas para a inversão dos seus capitais. O que precisa ser feito é o que vem sendo feito, mas em maior escala: proteger os pequenos. É papel do Estado proteger os pequenos”, reiterou.

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Certificação aos países que aderiram ao Tratado

Brasil fora de tratado internacional

Às vésperas da entrada em vigor do Acordo Internacional da FAO que prevê a fiscalização de navios de bandeiras estrangeiras em portos nacionais, Graziano da Silva recordou que o Brasil ainda não está entre os países que assinaram o Acordo.

“Não é só pesca ilegal que muitas vezes estes barcos trazem. Aí está a oportunidade para o contrabando, inclusive de seres humanos, que têm sido utilizados através desta pesca ilegal em barcos sem controle”, apontou.

Os seguintes países e organização ratificaram o Acordo sobre medidas do Estado controlador do Porto (PSMA).

África do Sul, Austrália, Barbados, Chile, Costa Rica, Cuba, Dominica, Estados Unidos, União Europeia, Gabão, Guiné-Bissau, Guiana, Islândia, Ilhas Maurício, Moçambique, Myanmar, Nova Zelândia, Noruega, Omã, Palau, República da Coreia, Saint Kitts e Nevis, Seychelles, Somália, Sri Lanka, Sudão, Tailândia, Tonga, Uruguai y Vanuatu.

Entrevista especial – Cracolândia: cemitério de vivos

Entrevista especial – Cracolândia: cemitério de vivos

Na semana passada um grupo de mais de 25 meninos e meninas de rua acolhidos pela Casa do Menor, realizou o sonho de conhecer pessoalmente o Papa Francisco. À frente do grupo estava o padre – mais brasileiro do que italiano – Renato Chiera, fundador da instituição. Eu entrevistei padre Chiera, que nesse especial fala sobre a sua experiência nas cracolândias, “cemitério de vivos de onde sai um grito por Deus”.

Rafael Belincanta: A cracolândia é um lugar que ninguém quer ir…

Padre Renato Chiera: É, nas cracolândias todo mundo tem medo.

Padre Renato Chiera em Roma
Padre Renato Chiera em Roma

Espelho da sociedade

– A cracolândia, não queremos vê-la porque um espelho da nossa sociedade. Nós não queremos nos espelhar. Queremos nos esconder. Achar que isto é uma coisa periférica em nossa vida. Para mim, é o resultado de uma sociedade que esta se quebrando nos seus valores essenciais. O valor da família, o valor de Deus, o valor da gratuidade, o valor do amor, da doação. Estamos perdendo todos estes valores, até mesmo Deus.

Deus mágico

– Embora todo mundo diga ser religioso, esse é um Deus que virou comércio. Um deus que é mágico, que me dá, que resolve meus problemas, não é um deus que me chama a me converter e ajuda-lo a transformar.

Observatório da sociedade

– Para mim a cracolândia foi um observatório. Estes quatro anos que eu estou lá são um privilégio. Um observatório sobre a sociedade que está se quebrando. Sobre a família que não tem mais condições de criar os seus filhos e, também, sobre as políticas públicas que pensam que tem que recolher e não acolher. Ou que tem que invadir as favelas com o exército, com a polícia em vez de fazer políticas públicas (de inclusão e promoção social n.d.r).

Deus preenche o vazio

Projeto da Associated Press retrata as histórias das cracolândias
Projeto da Associated Press retrata as histórias das cracolândias

– A cracolândia também é um observatório sobre a nossa evangelização. Aí, eu questiono também a nossa Igreja. Que evangelização estamos fazendo? Nas cracolândias encontramos muitos que são evangélicos, católicos, que dizem que creem no Evangelho. Mas qual é o Evangelho que nós apresentamos? Qual é o deus que nós apresentamos? Se este deus não é o Deus do qual o Papa fala, que dá a vida, como é que ficam aqueles que acreditam em Deus mas morrem no crack? Nós devemos apresentar um Deus que preenche o vazio do ser humano. Não um deus que me leva, depois, a uma vida triste ao ponto de procurar no crack a solução para os problemas.

Cemitério de vivos

– A cracolândia é um cemitério de vivos que se consolam juntos criando família entre si e usando crack até morrer. Porém, há na cracolândia um grito: um grito por família.

Presença no inferno

– Eu escrevi um livro, Presença no Inferno, e do inferno das cracolândias há um grito por amor, um grito por família. Lá tem gente de todo o tipo, de todas as idades e de todas as condições sociais, de todas as cores e de todas as religiões. De crianças a velhos. A criança diz: eu não tenho pai nem mãe, não me querem. O velho diz: eu tinha filhos, me abandonaram. E venho aqui porque aqui somos família. Usamos crack, somos todos iguais, encontramos aqui a família que não nos quer mais ou que não temos mais.

Escravos dentro

Outro retrato do projeto da AP
Outro retrato do projeto da AP

Na cracolândia há um grito por Deus. Um menino, cearense de Sobral, que está na cracolândia da Maré, depois que eu passei uma noite lá com eles, me chamou e disse: Padre, você nos ama muito, não é? Porque passou a noite aqui conosco, não teve medo. E me falou: Escuta, você gostaria que nós saíssemos daqui mas você não vai conseguir porque nós somos escravos dentro. E gritou: Padre, nos dê Deus e a sua Palavra. E repetiu três vezes. Entendeu bem? Me dizia. Nos dê Deus e a sua Palavra ou nós não vamos conseguir sair daqui. Da ausência de Deus, porque na cracolândia parece que Deus morreu, tem uma presença e um grito por Deus. Eu senti a cracolândia como uma catedral (silêncio) …um grande Cristo crucificado que grita o abandono mas que também grita por vida e está dizendo que a nossa sociedade deve mudar se não quiser se tornar toda ela uma cracolândia.

Angola: paradoxos de uma frágil democracia

Angola: paradoxos de uma frágil democracia

O governo de Angola voltou a dizer que respeita a liberdade de expressão e que “se existem manifestações no País é porque há democracia”. As palavras são do Ministro da Agricultura, Afonso Pedro Canga, que na semana passada esteve em Roma para a 2ª Conferência Internacional sobre Nutrição.

Canga afirmou ainda que em Angola os direitos humanos são respeitados, apesar da críticas do Conselho dos Direitos Humanos da Onu que, no final de outubro, afirmou que “as recusas de Angola em admitir o uso de táticas repressivas colocaram em xeque a vontade do País” em aderir e implementar as  recomendações concretas do Conselho para a garantia dos direitos humanos.

Durante a revisão dos direitos humanos no País feita pelo Conselho dos Direitos Humanos, o Ministro da Justiça, Rui Mangueira disse que Angola reforça as leis que garantem a liberdade de expressão, de manifestação e de imprensa. Afirmou, também, que o governo não fechou nenhum veículo de comunicação e nem deteve nenhum jornalista.

Todavia, sabe-se que em Angola são poucos os meios de comunicação privados que não estão nas mãos do partido no poder há 35 anos e, por isso, as redes sociais e os blogs passam a ter um papel importante nas críticas contra o governo.

Neste sentido, destacam-se algumas emissoras internacionais cujo conteúdo crítico e independente ganha cada vez mais credibilidade – entre elas a Rádio Vaticano e a alemã Deutsche Welle. Para o governo de Angola, torna-se mais difícil usar lei de difamação contra estes veículos internacionais, como fez com alguns jornalistas angolanos que denunciaram a corrupção e o abuso dos direitos humanos.

Um dos principais meios de comunicação independente em Angola é a Rádio Ecclesia. Todavia, alguns críticos apontam que a rádio da Igreja católica gozaria de benefícios governamentais e que seria mera retransmissora dos conteúdos da imprensa do governo. Porém, o mesmo governo que a beneficiaria ainda restringe o sinal da emissora somente à área de Luanda.

Não é só a liberdade de imprensa que está sob a mira do governo. Neste fim de semana, a polícia voltou a impedir uma manifestação contra o governo marcada por vários grupos de ativistas que aconteceria em Luanda. O ato pediria justiça após o ativista de oposição Manuel Carvalho Ganga ter sido assassinado pela guarda presidencial há exato um ano.

Guarani-Kaiowá denuncia negligência do governo no Comitê dos Direitos Humanos

Guarani-Kaiowá denuncia negligência do governo no Comitê dos Direitos Humanos

MP3 A voz de um índio Guarani-Kaiowá ecoou na mais alta representação dos Direitos Humanos para denunciar a negligência do governo brasileiro em relação aos povos indígenas. Eliseu Lopes, professor e reconhecida liderança dos Guarani-Kaiowá, termina em Milão a sua passagem pela Europa onde teve a oportunidade de relatar as violências sofridas pelo seu povo na luta pelo reconhecimento do direito dos índios à terra.

“No Brasil já fizemos inúmeras reivindicações dos nossos direitos e denúncias, só que até hoje não recebemos nenhum resultado. Portanto, o socorro que os Guarani-Kaiowá estão pedindo agora se dirige principalmente às autoridades internacionais”, disse Eliseu à RV por telefone, em Milão.

A resposta da comunidade internacional ao apelo de Eliseu feito durante a 27ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, poderá vir por meio dos tribunais internacionais, afirma o coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul, Flávio Machado: “A iniciativa de promover a denúncia internacional e, agora, uma denúncia formal para que o Estado brasileiro seja demandado em cortes internacionais frente a essa negligência que resulta em morte dos povos indígenas”.

Cultura de preconceito e morte no Brasil

Estimativas das Nações Unidas apontam que as populações indígenas representam mais de 5% da população mundial, aproximadamente 370 milhões. No Brasil, hoje os índios estão reduzidos a 900 mil. Levantamentos da ONG inglesa Survival International detalham esse número: os índios do Brasil estão divididos em 240 tribos das quais provavelmente 77 ainda vivam isoladas.

A etnia Guarani é dividida em três grupos, que somam cerca de 60 mil indíos. A tribo mais numerosa é a Kaiowá, cujo território ancestral reivindicado encontra-se no estado de Mato Grosso do Sul. O CIMI denuncia ainda a escalada de ódio contra os índios nos últimos dez anos no Mato Grosso do Sul, onde um índio Guarani-Kaiowá é assassinado a cada 12 dias e outro comete suicídio a cada sete dias.

“Lamentavelmente os acordos políticos e ecônomicos que estão envolvidos – inclusive na eleição atual – não têm os povos indígenas como uma demanda principal a ser resolvida. O que importa são os acordos ecônomicos – o agronegócio – o desenvolvimento. Os índios são entendidos como um empecilho. Isso só se muda com uma política séria de respeito aos direitos que já existem em nossa Constituição e, acima de tudo, com o promover de um processo educacional que realmente mostre para a nossa sociedade quem são os povos indígenas”, disse o coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul.

Ativismo internacional

Há mais de 45 anos a ONG inglesa Survival International trabalha ao lado dos povos indígenas do Brasil para o reconhecimento das terras. “A Survival segue com esta campanha que pede ao governo brasileiro a demarcação imediata das terras dos Guarani evitando que mais pessoas morram”, confirma Sarah Shenker, responsável da campanha da ONG em favor dos Guarani-Kaiowá.

Legislação

O Brasil ratificou e introduziu como lei nacional a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre os direitos fundamentais dos povos indígenas e tribais. Entretanto, passados 25 anos da criação da Convenção e em meio a tantas propostas de emendas constitucionais, o Brasil, ao lado de Suriname, não aplica uma das principais recomendações e continua a ser o único país da América do Sul a não reconhecer o direito dos índios à propriedade da terra.

África continua a região mais desnutrida do mundo; Brasil vira exemplo de combate à fome

África continua a região mais desnutrida do mundo; Brasil vira exemplo de combate à fome

Nunca se produziu tanto alimento quanto em 2014. Apesar disso, 805 milhões de pessoas ainda não têm acesso à uma alimentação digna e estão subnutridas, segundo o relatório anual da ONU sobre a fome no mundo em 2014.

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Meninos na pausa para o almoço em um escola na Tanzânia, em 2013. Merenda é garantida por meio de um programa insipirado no Fome Zero do Brasil.

Foi apresentado nesta terça-feira (16.09), em Roma, na sede da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o relatório anual sobre a fome no mundo em 2014. A apresentação este ano foi antecipada para que, na próxima semana, os resultados possam ser divulgados durante a Assembleia geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Nunca se produziu tanto alimento quanto em 2014. Apesar disso, 805 milhões de pessoas ainda não têm acesso a uma alimentação digna e estão subnutridas. A situação paradoxal afeta principalmente as populações nos países em desenvolvimento, que concentram 791 milhões dos subnutridos.

África desnutrida: o caso dos PALOP

Somente na África, são 226 milhões os subnutridos, o que representa 22% da população do continente. Numa caminhada contrária ao resto do planeta, o número de pessoas famintas na África tem aumentado desde 1990.

Para se ter uma ideia, somente, Angola e Moçambique somam 11 milhões de subnutridos. Apesar de Angola ter alcançado a meta do desenvolvimento do milénio ao reduzir pela metade a proporção de pessoas subnutridas, atualmente 4 milhões de angolanos não conseguem comer com dignidade. Um sinal claro de que a desigualdade social é um fator que impede o desenvolvimento pleno do país. Em mais de 20 anos de luta contra a fome, Moçambique reduziu a proporção da população subnutrida em 50%, caminha para atingir a meta de desenvolvimento do milênio, mas continua a ser pátria de 7 milhões de subnutridos.

A redução da pobreza e da percentagem de pessoas com fome é também bastante visível outros PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Na Guiné-Bissau, a descida é menos significativa: apenas 23,5%, correspondente à redução da fome na população.

Em Cabo Verde, a redução é de 38,9%, equivalente à descida na percentagem da população com fome de 16,1% em 1990 para 9,9% este ano. Em São Tomé e Príncipe, a percentagem de pessoas malnutridas desceu de 22,9% para 6,8%.

O  diretor geral da FAO, José Graziano da Silva, traça um rápido panorama de alguns obstáculos que fazem com que África hoje, infelizmente, esteja a perder a luta contra a fome.

“Nós vemos hoje que ainda há muitas limitações estruturais para os investimentos privados na agricultura africana. Eu começaria pela instabilidade político-social, e o conflito que existe em boa parte dos países da região. Ninguém vai investir num país com instabilidade política e social. Porém, temos visto que os governos não têm dedicado recursos suficientes para prover a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento das áreas rurais. Sem infra-estrutura, também, o setor privado não vai investir na agricultura dos países africanos.”

Apesar da falta de estabilidade e infra-estrutura, alguns países africanos são modelos a ser seguidos, lembra o diretor-geral da FAO. “Eu destacaria o Gana e o Malawi, que apesar de todas essas adversidades, conseguiram dar um avanço significativo na redução dos subnutridos.

O exemplo do Brasil

As políticas públicas de combate a fome no Brasil ganharam capítulo especial. O país não somente atingiu a meta de desenvolvimento do milênio (diminuir pela metade a proporção de pessoas que passam fome até 2015) assim como o objetivo mais árduo estabelecido pelo World Food Summit em reduzir pela metade o número absoluto de pessoas que passam fome.

“Particularmente, no caso do Brasil isso chama muito a atenção. O Brasil, por ter 200 milhões de habitantes, puxa os números [da América Latina] e o que nós vimos no Brasil durante toda a década passada, a partir do ano 2000, foi um forte decréscimo no número de pessoas subnutridas. Se tomarmos os triênios a partir de 2002, o decréscimo é de -1,7%, em 2005-2007, passa a -5%, mantém-se em -5% em 2009-2012 e aumenta para -5,1% no período recente, de 2011-2013”, finalizou o diretor geral da FAO, José Graziano da Silva.

Links originais: DW e RV

Médica que anunciou morte de Senna relembra últimos momentos

Médica que anunciou morte de Senna relembra últimos momentos

(Notícia publicada em maio de 2014 por ocasião dos 20 anos da morte de Senna. Decidi traduzir os trechos da entrevista original que mais me chamaram a atenção)

A médica Maria Teresa Fiandri durante o anúncio da morte de Ayrton Senna.
A médica Maria Teresa Fiandri durante o anúncio da morte de Ayrton Senna.

São 18h40 de 1° de maio de 1994. Em meio aos microfones, telecâmeras e rostos marcados pelas lágrimas, pela tensão, pela oração, cabe à médica Maria Teresa Fiandri, responsável do departamento de reanimação do Hospital Maior de Bolonha, anunciar ao mundo – ao vivo – que Ayrton Senna morreu após o terrível acidente em Ímola. Passados vinte anos, aquela mesma voz calma e decidida, relembra, em uma entrevista concedida ao jornal italiano Libero Quotidiano, o dia no qual “o garoto que falava com os olhos”, fechou-os para sempre.

Doutora, onde estava às 14h17 daquele domingo? “Em casa. Assistia o Gp pela tv com meus filhos, apaixonados por F1. Não estava de sobreaviso mas estava à disposição. No mesmo momento soube que se tratava de um acidente grave, me troquei e entrei no carro. Não esperei que me chamassem, o bip tocou quando já estava a caminho. Cheguei no hospital ao mesmo tempo que o helicóptero”.

Vinte e oito minutos depois do acidente, Ayton foi entregue em suas mãos. “Estava em coma muito profundo, mas apresentava batimentos cardíacos e antes de analisar a tomografia não se podia saber quais eram as esperanças reais. Que era muito grave tínhamos percebido imediatamente, o quadro já era claro ao doutor Gordini e aos médicos que o haviam socorrido na pista”.

Aquele movimento com a cabeça que para as pessoas em casa era um sinal de esperança… “Infelizmente, era um sinal de extrema gravidade. Após analisar a tomografia vimos que as lesões eram enormes e não-operáveis. O cérebro sofreu muitos danos…”.

No decorrer das investigações e do controverso processo, foi apurado que na batida contra o muro a suspensão direita da Williams se soltou, carregando consigo o pneu que atingiu a cabeça de Senna, enquanto o braço da suspensão atravessou a viseira e trespassou a região do lobo frontal direito. “Não sei se foi o golpe direto ou o contra-golpe a causar mais danos. O braço da suspensão havia provocado um corte profundo, era o que se percebia imediatamente; depois vimos as fraturas no crânio e a partir daí decidimos realizar um eletroencefalograma para saber se existia ou não atividade cerebral”.

A telemetria demonstrou que nos dois segundos entre a quebra da barra de direção e a batida Senna reagiu, freiou e diminuiu as marchas, passando dos 310 km/h aos 211 km/h. Se não tivessem acontecido os impactos do pneu e do braço da suspensão, como teria sido? “O restante do corpo de Senna estava íntegro, não haviam outras lesões importantes, Ayrton teve uma grande infelicidade. Bastaria um palmo a mais à direita: não posso dizer que nada teria acontecido, mas certamente outros danos significativos no corpo não exisitiam”.

Como Senna estava quando chegou ao hospital? “Estava belo e sereno, aquela é a impressão que tive. Obviamente, o rosto estava um pouco inchado devido ao trauma, mas recordo que tinha uma pessoa perto de mim e ela também exclamou: ‘Como é belo…’”.

Havia algo no destino de Ayrton… “Talvez sim, também aquilo que li sobre ele depois, naquele dia, me deu esta impressão: um destino no final infeliz, como se ele no fundo tivesse sempre sabido que teria morrido jovem”.

Após os inúteis tratamentos que vocês tentaram, chegou o momento do anúncio. “Sim, mas não havíamos nenhum plano do trabalho que deveria ser feito junto aos meios de comunicação, como alguns escreveram, assim como não é verdade que fizemos 18 transfusões em Senna. Acredito ter dado a notícia duas ou três vezes, uma delas, sem dúvidas, quando vimos o eletroencefalograma que não demonstrava atividade, algo que hoje nos daria a permissão para declarar a morte, mas à época não podíamos fazê-lo porque para a lei italiana a morte coincidia com a parada dos batimentos cardíacos: e até que o coração de Ayrton não parou, nós não podíamos constatar o decesso.

O que sente hoje quando vê Senna na tv ou nos jornais? “Uma sensação estranha, afeto, como se existisse uma ligação. Porém, não olho nunca suas fotos, porque a recordação daquele dia ainda hoje me deixa muito emocionada”.