Berlusconi é absolvido em processo de prostituição de menores

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18/07/2014

A justiça da Itália absolveu nesta sexta-feira (18/07) Silvio Berlusconi no processo de prostituição de menores que ficou conhecido como “Rubygate”. A Corte de Apelação de Milão, que havia condenado o ex-chefe do governo italiano, mudou o veredicto, mas ainda não justificou sua decisão.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI em Roma

A Corte de Apelação de Milão, que em primeira instância havia condenado Berlusconi a sete anos de prisão pelos crimes de concussão e prostituição de menores, mudou o discurso e disse que os crimes não aconteceram. Contudo, somente dentro de 90 dias os juízes apresentarão as motivações da absolvição.

A justiça considerou que não houve crime de concussão (quando um funcionário público exige vantagens em razão de seu cargo). Berlusconi era acusado de ter usado seu prestígio de chefe do governo para tirar Karima El Mahroug de uma delegacia em janeiro de 2011, após a jovem ter sido acusada de furto. O ex-líder italiano teria alegado que Ruby, como era conhecida, seria sobrinha do ex-presidente do Egito, Hosni Mubarak, e que sua prisão poderia provocar um incidente diplomático.

Em relação ao crime de prostituição de menores, nas festas na mansão de Berlusconi em Arcori, que ficaram conhecidas por “bunga, bunga”, os juízes disseram que o ato “não constitui reato”. Sílvio Berlusconi recebeu a notícia na cidadezinha de Cesano Bosconi, onde presta serviço social junto a pacientes com Alzheimer. A pena foi uma alternativa a condenação do ex-primeiro-ministro a quatro anos de prisão no processo Mediaset por apropriação indébita e fraude fiscal.

Em reta final de campanha, Berlusconi promete devolver impostos

Silvio Berlusconi volta à cena na Itália. Dessa vez, o ex-premiê pegou de surpresa até mesmo os correligionários ao prometer devolver impostos aos italianos. A menos de 20 dias da eleição, a estratégia de Berlusconi atraiu a atenção da imprensa. Mas a oposição acusa Berlusconi de lançar apenas um factóide. O atual primeiro-ministro, Mario Monti, que também é candidato, disse nesta segunda-feira que essa promessa do ex-premiê era uma “simpática” tentativa de compra de votos. O correspondente da RFI na Itália, Rafael Belincanta, explica essa nova estratégia de Berlusconi.

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milanoberlusconi“Berlusconi tinha um ar de deboche no último domingo, em Milão, quando anunciou que – se voltasse a ser primeiro-ministro – sua primeira deliberação seria a abolição e restituição do IMU relativo a 2012, imposto semelhante ao IPTU no Brasil. A menos de 20 dias da eleição, a estratégia de Berlusconi rendeu minutos valiosos nos principais telejornais enquanto a oposição criticava a proposta. O primeiro-ministro Mario Monti, que também é candidato, disse nesta segunda-feira em uma Rádio de Roma que a proposta de Berlusconi poderia ser encarada como uma “simpática” tentativa de corrupção ao comprar o voto com o dinheiro dos próprios cidadãos.

Berlusconi e seu partido demonstram  desespero e partem para o tudo ou nada para tentar subir nas pesquisas de intenção de voto.  Chegou a dizer que removeria um outro imposto regional, não aumentaria o IVA, relativo ao ICMS brasileiro, e que para cumprir a promessa da restituição do IMU tributaria os cidadãos italianos que vivem na Suíça. Promessas eleitoreiras na visão da coalizão de centro-esquerda encabeçada pelo Partido Democrático, líder nas pesquisas, logo acima do Popolo della Libertà de Berlusconi. Ele que, aos 76 anos, afirmou que essa será sua “grande e última batalha eleitoral”.

Letícia, as urnas estarão abertas nos dias 23 e 24 de fevereiro. Aqui na Itália o voto não é obrigatório e os cidadãos devem votar nas cidades onde está registrada a residência. Em outras palavras, se um cidadão mora me Roma mas tem a residência em Milão, deve ir até Milão para votar. Esse fator deve fazer com que muitos votos em potencial deixem de ser contabilizados. Entretanto, principalmente entre os mais jovens, faixa etária que registra os maiores índices de desocupação, a adesão ao voto deve ser elevada.

Berlusconi aparece em segundo lugar, atrás de Bersani, de centro-esquerda. Logo abaixo, vem o primeiro-ministro Monti. Entretanto, o Movimento 5 Estrelas, de extrema esquerda, deve surpreender. Beppe Grillo, um dos fundadores do Movimento é um cômico que tem reunido multidões por onde passa na Itália na chamada Tsunami Tour. Grillo recentemente criticou um dos principais telejornais da Itália por não ter citado o candidato do Movimento nas eleições regionais. Grillo e seu movimento já tiveram importantes vitórias em outras eleições regionais e agora, pela primeira vez, vão poder medir a força de seus cabo-eleitorais em toda Itália”.

Defesa de Berlusconi irrita Tribunal; ex-premiê é alvo de críticas ao enaltecer ditador fascista.

Ao vivo na RFI esta manhã  a partir de 8’14”
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Um outro capítulo sem desfecho no caso Ruby na manhã desta segunda-feira (28.01) no Tribunal de Milão. A previsão era que os advogados de Silvio Berlusconi, acusado de concussão e prostituição de menores, apresentassem a mãe de Karima el Mahroug como testemunha de defesa. Entretanto, Yazhili Zhara, que vive na Sicília, enviou um fax ao Tribunal no qual explicava que os advogados não haviam autorizado a compra da passagem aérea. Apesar da ausência, Zhara confirmou que está disponível a testemunhar.

Há uma semana, Ruby chegou a ser arrolada como testemunha pela defesa de Berlusconi, foi até o Tribunal mas não foi ouvida sendo dispensada poucos minutos antes. Os juízes, por sua vez, se retiraram do plenário quando a advogada de defesa solicitou que a mãe de Ruby fosse chamada para a próxima audiência. A promotora Ilda Bocassini se opôs à solicitação dizendo que “se houvesse real intenção de ouvir Zhara, os bilhetes aéreos poderiam ter sido comprados online”. E mesmo com as tentativas da defesa em postergar o processo, as datas para a conclusão do mesmo foi definida pelo Palácio da Justiça: 4 e 11 de março, logo após as eleições marcadas para 23 e 24 de fevereiro.

Berlusconi, por sua vez, foi alvo de críticas não só na Itália ao enaltecer o ditador fascista Benito Mussolini, neste domingo, em Milão, durante a inauguração de um memorial ao Holocausto na Estação Central da cidade. Berlusconi disse que a Itália de Mussolini no início não era consciente da aliança com a Alemanha nazista e que tornou-se aliada para evitar a invasão alemã.

Berlusconi dorme durante inauguração de memorial do Holocausto em Milão
Berlusconi dorme durante inauguração de memorial do Holocausto em Milão

 

Ainda nas comemorações pela memória do holocausto no “Binario 21”, ou Plataforma 21, em Milão, de onde os judeus milaneses foram extraditados para os campos de concentração, fotógrafos flagraram Berlusconi dormindo durante os discursos de inauguração.

Política italiana: compreender o incompreensível

Áudio do comentário na RFI Português em 04.01.13

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A questão eleitoral aqui na Itália já é, por natureza, difícil de entender. E para quem está acostumado com o “voto direto” do presidencialismo de coalisão do Brasil,  fica ainda mais complicada. O sistema de governo na Itália é o parlamentarismo. Pela Constituição, os cidadãos tem o dever de votar, entretanto, para quem não vota as sanções nem sempre vêm aplicadas. Além da figura do Primeiro Ministro, nomeadamente Presidente do Conselho dos Ministros, existe também o Presidente da República Italiana, atualmente Giorgio Napolitano, que é escolhido pelo Parlamento, ou seja, a Câmara dos Deputados e o Senado.

Napolitano dissolveu o Parlamento em 22.12.12 quando o representante do partido de Berlusconi na Câmara dos Deputados, Angelino Alfano, disse que o Parlamento já não teria como dar a fiducia, ou seja, a confiança ao governo técnico de Monti – indicado por Napolitano um ano atrás – no auge da crise financeira italiana. Mario Monti, por sua vez, considerou o gesto um voto de desconfiança e pediu demissão. Contudo, Monti ainda é o Primeiro Ministro italiano, mas considerado como uscente, em saída.

Lista com os nomes e partidos durante as eleições.
Lista com os nomes e partidos durante as eleições.

Itália à deriva?

Seja Mario Monti, demissionário, que não foi eleito mas nomeado pelo Presidente para superar a crise financeira por meio de um governo técnico, seja a Câmara e o Senado dissolvidos, continuam a “governar” o País. É uma administração ordinária. Durante esse período não se aprovam novas leis. As decisões mais urgentes são tomadas somente  por meio de atos administrativos.

Eleições à vista

As próximas eleições estão marcadas para 24 e 25 de fevereiro. Essa data será, para mim, um marco pessoal. Pela primeira vez poderei votar como cidadão italiano. Ainda estou procurando entender se devo votar num partido, numa coalisão ou, simplesmente, não votar. Isso porque, apesar das urnas, é o Presidente que decide, com base na maioria eleita no Parlamento, quem será o Primeiro Ministro. O ato é para promover a governabilidade. Em síntese, o nome que encabeça o partido ou a coalisão mais votados pode vir a não ser o Primeiro Ministro.

Para além das minhas dúvidas e experiências pessoais, acredito que 2013 deva ser um marco histórico também para o País, que terá que decidir se se detém a velhas figuras ou dará chance a novos nomes, apesar do vácuo existente no cenário político italiano, carente de novos ímpetos. O Movimento Cinque Stelle (M5s), Movimento Cinco Estrelas, nasceu em 2009 e tem como mentor o cômico Beppe Grillo. Grillo – conhecido por não ter papas na língua – e seu novo movimento político conseguiram importantes vitórias em eleições municipais, principalmente na Sicília e na região da Emilia Romagna. Todavia, ainda está longe de cair nas graças do povo italiano.

A volta do nano

Daqui até as eleições viveremos um momento especulativo. Berlusconi retingiu os cabelos e voltou com tudo à cena política nos últimos dias. Participou de programas de rádio e tv. Não oficialmente, está também no Twitter. O ex-Primeiro Ministro disse que investir na rede social não foi uma iniciativa dele e sim de voluntários que apóiam a sua volta ao Palácio Chigi.

No cenário internacional essa reaparição de Berlusconi pode soar estranha, mas aqui na Itália não surpreende. Berlusconi ficou no poder por 20 anos e os reflexos desse período ainda podem ser sentidos, principalmente a influência que exerce por meio de seus canais de televisão, distribuidora de filmes, além de outra série de empreendimentos como, por exemplo, o Milan Futebol Clube, do qual é dono.

Dessa forma, apesar de todos os escândalos, Berlusconi parece ainda estar em jogo. E agora partiu para o ataque. O alvo: Mario Monti. Il nano diz que Mario Monti não pode ser candidato nas eleições por já ser senador vitalício. Monti, por sua vez, disse que deixa seu nome à disposição do futuro governo.

Como diz o célebre  Roberto Benigni,  “quando a Constituição entrar em vigor, ela será ótima”.

 

*update

Parece que Mario Monti vai mesmo concorrer. Acaba de chegar a informação de que apresentará seu novo partido nesta sexta-feira 04.01.13