Um ano após renunciar ao papado, Bento XVI vive isolado

Um ano após renunciar ao papado, Bento XVI vive isolado
Rafael Belincanta
Direto de Cidade do Vaticano

Por volta das 16h algumas ruas da Cidade do Vaticano começam a ser fechadas ao tráfego e à passagem de pedestres, sobretudo aquela que leva ao Mosteiro Mater Ecclesiae, residência do papa emérito. Se desde 28 de fevereiro de 2013 Bento XVI não é mais o chefe da Igreja Católica, ao menos um dos seus compromissos de quando era pontífice continua sendo cumprido à regra: recolher-se em oração na gruta de Nossa Senhora de Lourdes, que recria com fidelidade aquela francesa em pleno coração dos Jardins do Vaticano.

Assim, isolado do mundo e longe das preocupações do Palácio Apostólico, a contribuição de Joseph Ratzinger à Igreja Católica hoje é, principalmente, espiritual. O porta voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, que acompanhou Bento XVI ao longo de seus 8 anos de pontificado, afirmou à Rádio Vaticano que a decisão de renunciar não foi prematura, ao contrário:

“Fazia séculos que um papa não renunciava. Portanto, para a maioria das pessoas, tratava-se de um gesto inusitado e surpreendente. Contudo, quem estava mais próximo a Bento XVI sabia que existia essa possibilidade, e Ratzinger já havia dito isso, muito tempo antes e com todas as palavras, a Peter Seewald”, (que publicou o livro “Luce del Mondo”, resultado de uma série de encontros com o papa emérito).

Padre Lombardi talvez esteja entre os poucos a não terem sido pegos de surpresa naquele 11 de fevereiro de 2013 quando, durante um consistório para a criação de novos cardeais, Bento XVI, em latim, anunciava seu afastamento:

23 de dezembro de 2013: Papa Emérito Bento XVI recebe o Papa Francisco e os dois trocam saudações de Natal, no Vaticano Foto: AP
“Bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice”.

O papa emérito concluiu sua mensagem de renúncia afirmando que manteria uma vida consagrada à oração e assim tem sido nesse período histórico no qual a Igreja Católica tem dois papas. Era justamente nesse ponto que a imprensa internacional e os próprios vaticanistas acostumados com os corredores da Santa Sé se concentravam: o que acontecerá à Igreja com dois papas?

Padre Lombardi estava tranquilo também em relação a esta questão: “O papado é um serviço e não um poder. Se se vivem os problemas no contexto do poder, é claro que duas pessoas podem ter dificuldades de convívio porque pode ser difícil o fato de renunciar a um poder e conviver com o sucessor. Porém, se se vive tudo isso exclusivamente como serviço, esse problema não existe”.

23 de março de 2013: Papa Francisco abraça o Papa Emérito Bento XVI quando ele chega à residência de verão Castelo Gandolfo Foto: Reuters
O fato é que após a renúncia de Ratzinger e a eleição de Bergoglio, papa Francisco e o papa emérito encontraram-se, oficialmente, três vezes. “É como ter um avô em casa, mas um avô sábio”, declarou papa Francisco aos jornalistas quando perguntaram como ele se sentia com dois papas vivendo no Vaticano. “Sempre o quis muito bem, fiquei feliz quando foi eleito e o mesmo senti quando renunciou: um exemplo de grandeza. Somente um grande homem seria capaz de tal gesto”, reiterou papa Francisco aos jornalistas durante o voo de retorno do Rio de Janeiro, no ano passado.

Entretanto, a renúncia de Bento XVI não cortou o elo com quem sempre admirou o teólogo Ratzinger antes, e também depois, já como pontífice. As visitas ao Mater Ecclesiae apesar de possíveis não são frequentes. Os pedidos para uma audiência com o papa emérito são muito bem analisados antes de serem aprovados. Nada de compromissos oficiais ou oficiosos: encontrar Bento XVI significa acompanhá-lo nas orações e, talvez, manter uma rápida conversa.

Prestes a completar 87 anos, em 17 de abril próximo, a figura do papa emérito torna-se cada vez mais etérea. Longe das atenções, o papa alemão já não ocupa os lugares de destaque nem ao menos nas bancas e lojas em torno ao Vaticano, dominadas pelas imagens de um sorridente papa Francisco e do onipresente papa João Paulo II. Talvez tenha sido essa ideia de ausência física e presença espiritual que Bento XVI havia amadurecido muito tempo antes da renúncia. Após um pontificado marcado pelas duras críticas à Igreja por sua conduta diante dos crimes de abuso de menores e do vazamento de informações sigilosas, a saída de cena de Joseph Ratzinger é como se fosse um retorno às suas origens.

“Bento XVI certamente sempre foi um homem de oração, durante toda sua vida, e desejava – provavelmente – ter um tempo no qual pudesse viver essa dimensão da oração com mais espaço, totalidade e profundidade. E este agora é o seu tempo”, conclui padre Lombardi.

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Começa o Conclave

Ouça a partir de 5’40”

Esta segunda-feira, 11 de março, marcou 1 mês exato do anúncio de Joseph Ratzinger e que renunciaria à Cátedra de Pedro. Desde então, as atenções do mundo católico, e não somente, se voltaram ao Vaticano.

A Praça São Pedro foi rapidamente tomada por jornalistas do mundo inteiro, surpreendidos pela renúncia do agora Papa emérito, algo que não acontecia há 700 anos. O Papa alemão entrou assim para a história e, de seu retiro em Castel Gandolfo, deve acompanhar as notícias do Conclave, marcado para começar na tarde desta terça-feira.

Capela Sistina, sob a "Criação" de Michelangelo os cardeais escolhem o próximo papa
Capela Sistina, sob a “Criação” de Michelangelo os cardeais escolhem o próximo papa AP/L’Osservatore Romano

Que influência a decisão de Bento XVI poderia ter na eleição do próximo Papa? Ratzinger afirmou que a sua decisão foi tomada por não ter mais forças para exercer a tarefa de conduzir os rumos da Igreja Católica. Diretamente, o Papa emérito não poderá ter influência na decisão dos votos dos 115 cardeais que na tarde desta terça-feira entrarão na Capela Sistina para o Conclave. Mas a mensagem de que a Igreja precisa de um Papa com vigor físico e espiritual pode ser lida nas entrelinhas e deve orientar o voto dos cardeais.

Nestes dias de silêncio dos cardeais, a imprensa internacional faz a lista dos “candidatos com mais chances”. Mas até que ponto as apostas da imprensa chegam à Capela Sistina? Vaticanistas com experiências em outros Conclaves dizem que existe a eleição da imprensa e aquela que acontece dentro dos muros vaticanos, na clausura da Capela Sistina. Mas os mesmos especialistas, e também o alguns cardeais, dizem que se a imprensa cita nomes específicos é porque algum fundo de verdade pode existir nessas listas dos “papáveis”.

A poucas horas do início do Conclave, entram na Capela Sistina como favoritos dois cardeais: Angelo Scola, arcebispo de Milão, representante do movimento eclesial italiano Comunione e Liberazione, ou Comunhão e Liberação, surgido nos anos de 1950 na Itália  para promover  a educação cristã em todos setores da sociedade, na política inclusive conta com representantes na Câmara e no Senado italianos.

Outro que aponta como favorito é o arcebispo de São Paulo, “candidato” da situação, conta com o voto do ex-secretário de Estado de Bento XVI, Tarcisio Bertone, atual Camerlengo e figura obscura da Cúria. Scherer é apoiado ainda por outros cardeais mas entre os colegas brasileiros não é unanimidade. A novidade de Scherer, brasileiro de sobrenome alemão, criado cardeal por Bento XVI, ganha mais força quando se pensa em renovação. Seria algo ainda mais inédito do que a renúncia de Ratzinger ter um cardeal sul americano eleito Sumo Pontífice.

Nas intermináveis especulações da imprensa durante este mês de mudanças no

Capela Sistina pronta para o início do Conclave / L'Osservatore Romano
Capela Sistina pronta para o início do Conclave / L’Osservatore Romano

Vaticano, surgiram outros nomes como fortes candidatos: Marc Ouellet, canadense, com trânsito livre na Cúria Romana; Luis Antonio Tagle, bispo de Manila, nas Filipinas, o segundo cardeal mais jovem do Colégio, carismático e popular; e, por fim, o arcebispo de Nova Iorque, Timothy Dolan, de 63 anos.

Entretanto, não passam de probabilidades. O Conclave de 2013 é em tudo diferente daquele que elegeu Joseph Ratzinger em 2005. É, em si, uma grande novidade, apesar de ortodoxo, suntoso e hermético. O que a Igreja busca é exatamente isso, anunciar a novidade de uma nova maneira. Foi o legado que deixou o Papa alemão e sua nova evangelização com 2 mil anos de tradição. A partir desta terça-feira, podemos esperar a fumaça branca que colocará fim às especulações da mídia ou confirmará as hipóteses da imprensa internacional.

Por dentro do Vaticano

raioxvaticano

Encravado em Roma, o Vaticano é considerado o menor Estado do mundo, com uma área de 0,439 km2, cerca de 44 hectares. Mas quando se fala nele, é preciso distinguir a Santa Sé do Estado da Cidade do Vaticano. Enquanto a primeira é a autoridade suprema da Igreja na figura do papa enquanto Bispo de Roma e chefe do Colégio dos Bispos, o segundo foi reconhecido pelo Tratado de Latrão, firmado entre a Itália e a Santa Sé, em 11 de fevereiro de 1929. Continue lendo

“O Senhor me chama a subir ao monte”, diz Papa em última bênção

“O Senhor me chama a subir ao monte”, diz Papa em última bênção

Domingo histórico na Praça São Pedro. Ao meio-dia em ponto (horário local) Bento XVI saudou o público naquela que foi a última oração do Ângelus de seu pontificado. Desde cedo, muitos fiéis já aguardavam o Papa, entre eles representantes da comunidade brasileira em Roma e na Itália.

Com a voz marcada pela emoção e interrompido pelos aplausos, o Papa declarou: “Neste momento de minha vida sinto que a palavra de Deus está dirigida a mim. O Senhor me chama a subir ao monte, a dedicar-me ainda mais à oração e à meditação”.

Neste momento de minha vida sinto que a palavra de Deus está dirigida a mim. O Senhor me chama a subir ao monte, a dedicar-me ainda mais à oração e à meditação

Bento XVI

“É mais, se Deus me pede isso, é porque eu poderei continuar servindo com as mesmas condições e o mesmo amor com o qual o fiz até agora, mas de um modo mais adequado à minha idade e às minhas forças”, afirmou. O Papa foi interrompido várias vezes por aplausos da multidão durante sua mensagem aos fiéis.

Brasileiros acompanharam despedida
Germânia da Silva mora em Roma desde 1985. Acompanhou de perto o pontificado de João Paulo II e de Bento XVI. Ela se diz preocupada com o futuro da Igreja. “Esse período de sucessão é difícil, não se sabe como será. (O novo papa) terá que ter pulso firme”, disse.

Casal de Videira (SC) acompanha o Ângelus Foto: Rafael Belicanta / Especial para Terra
Casal de Videira (SC) acompanha o Ângelus
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Uma grande faixa chamava a atenção em meio à multidão. “Obrigado Santo Padre”, escrito em italiano. Essa foi a forma que a Comunidade Shalom encontrou para agradecer Bento XVI. Aliás, foi ele que, no ano passado, assinou o reconhecimento pontifício da Comunidade Shalom, nascida em Fortaleza (CE).

“Bento XVI representa muito para a Shalom, ele confirmou a comunidade que nasceu com João Paulo II”, reiterou Padre João Chagas, coordenador do escritório internacional da Shalom.

Por outro lado, há quem esteja em Roma de passagem e aproveita para saudar Bento XVI ou, ao menos, participar do momento histórico, como disse o casal Carla Barnabé e Valmir Fuck, de Jaraguá do Sul (SC). “Prolongamos nossa estadia em Roma para participar dessa celebração. Esperamos que o próximo papa seja mais carismático”, contou ao Terra.

De Santa Catarina também veio o casal Marco Aurélio Farias e Cristina Mengato. Turistas, viram na televisão que neste domingo o papa conduziria o seu último Ângelus. “Soubemos ontem e viemos. Nunca imaginamos estar aqui hoje. Esperamos que o novo papa traga renovação e resolva os problemas da Igreja”, ressaltou Marco Aurélio.

Este domingo marca o início de uma semana intensa. Na quarta-feira, Bento XVI fará sua última aparição pública na Praça São Pedro durante a audiência geral. É previsto, como normalmente acontece, um passeio entre os fiéis com o papa-móvel.

No último Ângelus, Papa deixa mensagem em português
No último Ângelus, Papa deixa mensagem em português

Renúncia
Na quinta-feira, o Papa se reúne com os cardeais pela manhã e, às 17h, parte de helicóptero para Castel Gandolfo, onde fica a residência de verão dos papas. Bento XVI deve permanecer ali por cerca de dois meses antes de voltar ao Vaticano para viver no monastério que está sendo reformado para ele. Ainda na quinta-feira, às 20h locais tem início a Sé Vacante.

De acordo com a Santa Sé, quase 200 mil pessoas eram esperadas à última audiência dominical, durante a qual Bento XVI rezou o Ângelus na janela de seus aposentos no palácio apostólico. As autoridades de Roma aprovaram um sistema especial de vigilância na praça e mobilizaram milhares de policiais. Além disso, atiradores foram posicionados em locais chaves.

Especial: Entrevista com John Thavis, autor de “The Vatican Diaries”

In bocca al lupo entrevistou John Thavis, vaticanista por 30 anos. Editor aposentado do Catholic National Service (CNS), a agência católica de notícias dos Estados Unidos, seu mais recente trabalho acaba de ser publicado. O livro The Vatican Diaries coincide com a renúncia de Bento XVI. Coincidência?

Por enquanto, em inglês.
Por enquanto, em inglês.

Sexta-feira, 22 de fevereiro. No Vaticano, comemora-se a Solenidade da Cátedra de São Pedro. Esta que, a partir do dia 28, ficará vacante à espera do novo Bispo de Roma. O encontro com John Thavis acontece na Sala de Imprensa da Santa Sé, na atribulada Via da Conciliação. Lá chegando, vejo Thavis sentado, com seu Ipad. “Estou checando minha lista dos papáveis, acrescentando as idades”, diz.

Quando chegou à Itália, em 1977, Thavis veio estudar arqueologia. Mas foi um acontecimento em 1978 que fez com que ele enveredasse pelas vias do jornalismo: o sequesto do primeiro-ministro italiano, à época Aldo Moro, pelas Brigadas Vermelhas. Thavis conseguiu uma posição no Rome Daily American e naquele ano, acompanhara dois conclaves: os que elegeram João Paulo I e João Paulo II.

De volta – em definitivo – a Roma em 1982, um ano mais tarde começou a trabalhar para a agência católica dos EUA e, desde então, acompanhou os papas João Paulo II e Bento XVI em mais de 60 viagens. Em 2012, anunciou sua aposentadoria “um pouco antecipada” do cargo de chefe do escritório da CNS em Roma e voltou aos Estados Unidos para se dedicar ao seu novo livro. Com a renúncia do Papa, voltou a sua antiga base.

 In boccal al lupo: Quanto tempo o senhor demorou para escrever The Vatican Diaries?

John Thavis: Foram muitos anos de anotações. Depois, levei um ano para escrevê-lo. Quis seguir o pontificado de Bento XVI, sobretudo os bastidores, com muitos detalhes, para poder dar uma visão da Cúria e do Vaticano que fosse além das manchetes normais. Quis desvelar esses bastidores e cenários que, para mim, são muito mais interessantes do que as manchetes sensacionalistas. Sabemos que a visão do Vaticano frequentemente se transforma em uma caricatura. Eu, particularmente, encontro aqui um mundo muito humano. Falível, sim. Mas que trabalha para o bem, aliás, que ao menos procura trabalhar para o bem, muitas vezes sem sucesso. É um mundo muito mais interessante do que aquilo que se lê nos jornais. A ideia central do livro era essa de desvelar um mundo que o grande público não conhece. Depois que terminei de escrever, por sorte, vendi imediatamente para uma grande editora dos EUA. Como eles não trabalham com instant books, tivemos muito tempo de trabalho e decidiram de publicar somente em fevereiro deste ano, justamente quando o papa renunciou. Para eles, é ótimo, porque agora o interesse pelas coisas do Vaticano aumentou muito.

IBAL: O que há por detrás dos muros vaticanos?

John durante a entrevista ao blog
John durante a entrevista ao blog

JT: É preciso entrar no Vaticano e não somente ver o papa ou os cardeais quando de suas aparições públicas. Uma das coisas mais surpreendentes – e  também uma das mais contraditórias – é que o Vaticano, com sua estrutura hierárquica rígida, abriga pessoas que são livres para pensar e falar. Por exemplo: o pregador da Casa Pontífica (Frei Raniero Cantalamessa). Ele quando chega para suas homílias, “abre a boca”, diz aquilo que ele quer sem que nenhum tenha sabido antes. De improviso. Esta é uma grande liberdade. Claro que algumas vezes há uma censura, mas essa liberdade existe também em grandes níveis aqui no Vaticano.

IBAL: O senhor estava em Roma no dia da renúncia de Bento XVI.

JT: Cheguei no domingo. Na segunda-feira, ao chegar aqui (na Sala de Imprensa), ouvi imediatamente as notícias sobre a renúncia do papa. Como todos, fiquei surpreso. Entretanto, já havia pensado nessa possibilidade, ou melhor, já tinha previsto que isso pudesse acontecer em fevereiro, especificamente no dia 22. Mas vendo o calendário das atividades do papa um pouco vazio e, somado a isso, a imagem frágil do papa durante as celebrações de Natal e o fato de Bento XVI ter criado novos 6 cardeais no final do ano, tudo isso me pareciam sinais de que ele – que já havia falado sobre a possibilidade de renunciar – estivesse realmente pronto para abdicar.

 IBAL: O que o senhor pensa a respeito do trabalho da imprensa nestes dias?

JT: Acredito que um jornalista deva sempre fazer uma auto-crítica e, nestes dias, há muito a ser criticado.  Muitos jornalistas preenchem o vazio porque, de fato, os cardeais são reticentes a dizer o nome de “papáveis”. Além disso, conforme os cardeais chegam a Roma e se aproximam as Congregações Gerais, eles se tornam ainda mais reservados. Em síntese, é um processo no todo fechado e deixa o jornalista de fora. E o que faz o jornalista? Entrevista outros jornalistas, cria cenários. Sim, é um defeito, devemos admitir. Alguns jornalistas querem até mesmo eleger o novo papa. Fazem campanhas – sutis e menos sutis. Um vaticanista, neste período de pré-conclave, deve estar mais em silêncio e escutar mais porque certamente os sinais existem. É preciso prestar muita atenção aquilo que dizem os cardeais.

IBAL: Mas conseguir uma entrevista com um cardeal é uma tarefa quase impossível…

JT: É sempre difícil no Vaticano. Por trinta anos eu escutei: é impossível ter uma posição oficial do Vaticano. Mas não é. É preciso trabalhar muito e, ao final, trabalhando bem, com as fontes se consegue saber, mas é preciso tempo também.

IBAL: Se o senhor pudesse dar um conselho ao novo papa, qual seria?

JT: Dar um conselho ao papa? (Risos). Bem, vimos que Bento XVI sofreu muito com a desorganização na Cúria Romana e também as divisões das quais ele mesmo falou muitas vezes. Penso que o novo papa deva estar apto a controlar a Cúria Romana e colocar a casa em ordem. Ou, ainda, ter um assistente para isso. Porque é verdade que um papa que se dedica muito tempo ao managment perde algumas oportunidades já que gerir a Cúria Romana é uma tarefa enorme. Mas (o futuro papa) deve escolher bem seu assistente.Talvez novos rostos, gente de fora, sem fixar-se muito às velhas figuras.

IBAL: O senhor é leigo. Qual deve ser o papel dos leigos no Vaticano?

JT: Acredito que o Vaticano deveria conceder muito mais espaço aos leigos. É muito clerical, honestamente, e por isso não reflete a população da Igreja, o povo de Deus. Sabemos bem que esta não é uma democracia, que a Cúria Romana não é um parlamento. Todavia, ao mesmo tempo, um católico, no Brasil ou em qualquer outro lugar, deve se reconhecer no Vaticano. Não existem regras sobre a participação dos leigos. Eles deveriam estar em toda a Cúria. Penso que esse deveria ser um tema do qual os cardeais deverão falar antes de se fecharem no Conclave.

IBAL: Em 2013 se repete o que aconteceu em 2005, quando João Paulo II morreu e seu sucessor, como primeira viagem internacional, participou da Jornada Mundial da Juventude. O que o novo papa vai encontrar no Brasil?

JT: Será uma grande oportunidade para o novo papa. A data não pode ser cancelada, existem muitas expectativas. O novo papa irá diretamente ao Brasil – que é o maior país católico do mundo – e, quem sabe, um papa brasileiro. Seria muito bom. A mensagem será forte, seja para a América Latina, seja para os jovens. Veremos se este novo papa conseguirá se comunicar com essa nova geração.

IBAL: No pontificado de Bento XVI vimos o Vaticano entrar mais do que nunca no mundo virtual. Foi uma iniciativa do próprio papa?

JT: Não creio. Acredito que alguém tenha motivado o papa a fazer isso. Até porque ele, ainda hoje, faz suas reflexões com papel e caneta, então não vejo o papa “tuitando”. Mas essa iniciativa reflete um movimento aqui no Vaticano de estar mais presente nas mídias sociais. Creio que este será outro ponto de debate quando os cardeais chegarem porque nem todos apreciam esta iniciativa. Até porque eles temem que haja uma superexposição do papa a comentários na rede. De qualquer maneira, acredito que a Igreja irá adiante com sua presença nas mídias sociais, até porque, para a Igreja, o jornalismo é um filtro não tão confiável, então eles devem investir nestes novos canais para chegar diretamente aos católicos.

IBAL: Precisamos de um papa 2.0?

JT: Sim. É desejável.

Brasileiros acompanham penúltimo Angelus de Bento XVI

Brasileiros acompanham penúltimo Angelus de Bento XVI
  • Rafael Belincanta
  • Direto do Vaticano

A Praça São Pedro fez lembrar neste domingo os grandes acontecimentos da Igreja Católica no Vaticano: fiéis do mundo inteiro reunidos diante da janela do apartamento pontíficio de onde, ao meio-dia, o Papa – pela penúltima vez -, recitou o Ângelus como Sumo Pontífice. A versão digital do Corriere della Sera fala em 50 mil pessoas na Praça neste domingo.

Maria Madalena Inácio, pernambucana de Garunhuns, mas que há 26 anos mora na Itália. Ela acompanhou em 2005 a eleição de Joseph Ratzinger e veio à Praça neste domingo por considerar o momento histórico Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Maria Madalena Inácio, pernambucana de Garunhuns, mas que há 26 anos mora na Itália. Ela acompanhou em 2005 a eleição de Joseph Ratzinger e veio à Praça neste domingo por considerar o momento histórico
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Entre elas, muitos brasileiros. O Terra conversou com Maria Madalena Inácio, pernambucana de Garunhuns, mas que há 26 anos mora na Itália. Ela acompanhou em 2005 a eleição de Joseph Ratzinger e veio à Praça neste domingo por considerar o momento histórico.

“Sempre que posso, venho aqui ouvir o Papa aos domingos. Hoje trouxe minha bandeira com a qual já estive em muitos lugares, para que o Papa veja que pode contar com meu apoio e de muitos brasileiros”, disse Maria.

Na verdade, Maria e sua bandeira conseguiram criar uma pequena representação do Brasil na Praça São Pedro. Por ali também estavam devidamente identificadas por outra bandeira Isabel Peterle Modolo e Lorena Peterle Modolo Braz, do Espírito Santo. Lorena, que mora em Roma há um ano, trouxe sua mãe para acompanhar as palavras do Papa. “Não esperávamos uma reviravolta tão grande na Igreja”, disseram ao Terra.

Isabel Peterle Modolo e Lorena Peterle Modolo Braz, do Espírito Santo. Não esperávamos uma reviravolta tão grande na Igreja, disseram Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Isabel Peterle Modolo e Lorena Peterle Modolo Braz, do Espírito Santo. Não esperávamos uma reviravolta tão grande na Igreja, disseram
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Carlos André da Silva, natural de Fortaleza, mas que mora em Bréscia, no Norte da Itália, há oito anos, veio a Roma especialmente para acompanhar o Ângelus. “Vim agradecer ao Papa pelos sete anos que ele esteve à frente da Igreja. A renúncia foi um grande ato de humildade e desprendimento”.

A notícia da renúncia, na última segunda-feira, pegou de surpresa um grupo de São Paulo que estava em Lisboa. “Decidimos mudar nosso itinerário somente para acompanhar esse acontecimento histórico”, disse Edivaldo Negrelli. Sua esposa, Ariete Negrelli, disse que a renúncia “significa uma esperança de mudança na Igreja e que torçe para que o próximo papa seja mais carismático”.

Edivaldo Negrelli e sua esposa, Ariete Negrelli Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Edivaldo Negrelli e sua esposa, Ariete Negrelli
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Em seu Twitter, logo após o Angelus, Bento XVI publicou a seguinte frase. “A Quaresma é um tempo favorável para redescobrirmos a fé em Deus como base da nossa vida e da vida da Igreja”.

Neste domingo, às 18h de Roma, têm início os Exercícios Espirituais do Papa pela Quaresma. Até o próximo sábado, junto com a Cúria Romana, o Papa ficará recluso em oração na Capela Redemptoris Mater, no Palácio Apostólico.

No próximo sábado está previsto um encontro com o presidente da Itália, Giorgio Napolitano. O Vaticano ainda não confirmou se o encontro será privado ou público. No domingo, o Papa volta a conduzir o Ângelus, na Praça São Pedro. A despedida pública oficial do Papa será na quarta-feira, dia 27, durante a audiência geral, também na Praça São Pedro.

No dia 28, o Papa encontra os cardeais antes de partir para Castel Gandolfo, às 17h. A partir das 20h, a Santa Sé fica em vacância.