Relatório da fome no mundo 2014

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Meninos na pausa para o almoço em um escola na Tanzânia, em 2013. Merenda é garantida por meio de um programa inspirado no Fome Zero do Brasil.

 Foi apresentado nesta terça-feira (16.09), em Roma, na sede da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o Relatório anual sobre a Fome no mundo em 2014. A apresentação este ano foi antecipada para que, na próxima semana, os resultados possam ser divulgados durante a Assembleia geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Nunca se produziu tanto alimento quanto em 2014. Apesar disso, 805 milhões de pessoas ainda não têm acesso a uma alimentação digna e estão subnutridas. A situação paradoxal afeta principalmente as populações nos países em desenvolvimento, que concentram 791 milhões dos subnutridos.

África desnutrida: o caso dos PALOP

Somente na África, são 226 milhões os subnutridos, o que representa 22% da população do continente. Numa caminhada contrária ao resto do planeta, o número de pessoas famintas na África tem aumentado desde 1990.

Para se ter uma ideia, somente, Angola e Moçambique somam 11 milhões de subnutridos. Apesar de Angola ter alcançado a meta do desenvolvimento do milénio ao reduzir pela metade a proporção de pessoas subnutridas, atualmente 4 milhões de angolanos não conseguem comer com dignidade. Um sinal claro de que a desigualdade social é um fator que impede o desenvolvimento pleno do país. Em mais de 20 anos de luta contra a fome, Moçambique reduziu a proporção da população subnutrida em 50%, caminha para atingir a meta de desenvolvimento do milênio, mas continua a ser pátria de 7 milhões de subnutridos.

A redução da pobreza e da percentagem de pessoas com fome é também bastante visível outros PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Na Guiné-Bissau, a descida é menos significativa: apenas 23,5%, correspondente à redução da fome na população.

Em Cabo Verde, a redução é de 38,9%, equivalente à descida na percentagem da população com fome de 16,1% em 1990 para 9,9% este ano. Em São Tomé e Príncipe, a percentagem de pessoas mal-nutridas desceu de 22,9% para 6,8%.

O  diretor geral da FAO, José Graziano da Silva, traça um rápido panorama de alguns obstáculos que fazem com que África hoje, infelizmente, esteja a perder a luta contra a fome.

“Nós vemos hoje que ainda há muitas limitações estruturais para os investimentos privados na agricultura africana. Eu começaria pela instabilidade político-social, e o conflito que existe em boa parte dos países da região. Ninguém vai investir num país com instabilidade política e social. Porém, temos visto que os governos não têm dedicado recursos suficientes para prover a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento das áreas rurais. Sem infra-estrutura, também, o setor privado não vai investir na agricultura dos países africanos.”

Apesar da falta de estabilidade e infra-estrutura, alguns países africanos são modelos a ser seguidos, lembra o diretor-geral da FAO. “Eu destacaria o Gana e o Malawi, que apesar de todas essas adversidades, conseguiram dar um avanço significativo na redução dos subnutridos.

O exemplo do Brasil

As políticas públicas de combate a fome no Brasil ganharam capítulo especial. O país não somente atingiu a meta de desenvolvimento do milênio (diminuir pela metade a proporção de pessoas que passam fome até 2015) assim como o objetivo mais árduo estabelecido pelo World Food Summit em reduzir pela metade o número absoluto de pessoas que passam fome.

“Particularmente, no caso do Brasil isso chama muito a atenção. O Brasil, por ter 200 milhões de habitantes, puxa os números [da América Latina] e o que nós vimos no Brasil durante toda a década passada, a partir do ano 2000, foi um forte decréscimo no número de pessoas subnutridas. Se tomarmos os triênios a partir de 2002, o decréscimo é de -1,7%, em 2005-2007, passa a -5%, mantém-se em -5% em 2009-2012 e aumenta para -5,1% no período recente, de 2011-2013”, finalizou o diretor geral da FAO, José Graziano da Silva.

Links originais: DW e RV

África parte 1: Tanzânia

Publicado em janeiro 26, 2013

Recentemente, de novo me aventurei em terras africanas. Desta vez o destino foi a Tanzânia e o Malauí. Antes mesmo da minha primeira ida à África em 2012, sempre tive o desejo de aterrissar por lá. Talvez seja uma marca que restou em meu DNA , herança de meu avô negro, ou talvez seja o destino que impulsiona. Unidas as possibilidades, o caminho se desenha perfeitamente. E também paradoxalmente.

Tanzânia

A viagem é fruto de meu trabalho como correspondente para a DW aqui em Roma (lá se vão dois anos já!). Cobrir as três agências da ONU voltadas à alimentação e agricultura, nomeadamente FAO, WFP e IFAD renderam belas histórias e muitas descobertas. O convite partiu da Missão dos EUA nas Agências da ONU aqui em Roma. A proposta era acompanhar o novo embaixador numa missão de reconhecimento de alguns projetos em andamento naqueles dois países.

A agenda era muito apertada. Compromissos alla horário do metrô russo: 9h17, 10h23, etc impediam uma dedicação mais a fundo diante de tantas histórias e do tal conceito multimídia, nova (velha) espécie de jornalista que surgiu com a internet. Processar tantas informações e, ao mesmo tempo, decidir se aquilo vale um vídeo, uma sonora para rádio, uma foto ou um texto ou todos juntos nem sempre é fácil.

Contudo, a corrida contra o tempo é fantástica e intuicional. É a engrenagem que faz a máquina funcionar e que impulsiona o jornalista a produzir o máximo de conteúdo – mesmo que privo de um aprofundamento. Desde que isso não comprometa o trabalho final que deve ter devida contextualização das informações adicionadas posteriormente.

Fortunate, pequena rizicultora beneficiada pelos programas de ajuda internacional.
Fortunate, pequena rizicultora beneficiada pelos programas de ajuda internacional.

A primeira história que me despertou a atenção foi a de Fortunate Michel. Uma jovem rizicultora, divorciada, mãe de três filhos que vive também com a mãe e, às vezes, dá de comer também para o novo namorado. É o tal empoderamento da mulher que também chega à África. Com a ajuda dos programas de irrigação financiados pelo USAID (United States Agency for International Development) e o know-how do WFP, na Tanzânia dirigido pelo estadunidense que já viveu na Coreia do Norte, Richard Ragan, Fortunate viu sua produção de arroz aumentar e, finalmente, conseguiu comprar o seu próprio pedaço de terra.

Como repetidas vezes disse o embaixador David Lane durante seus speechs, é fundamental ir a campo para saber o que acontece com as decisões tomadas atrás de uma mesa. De fato, entender o porquê da agricultura ser a melhor saída para combater a fome e a pobreza ali onde ela está é radicalmente o oposto do entendimento que vem com as explicações dos relatórios oficiais – sem, de forma nenhuma, desmerecê-los.

Flora: da lavoura à universidade
Flora: da lavoura à universidade.

Ainda curvado diante da imponência do Kilimanjaro e do Monte Meru, conheci um exemplo que até então só tinha lido nos tais relatórios. Ela é uma filha dentre numerosos irmãos. Flora Laanyuni por muito tempo trabalhou na lavoura de milho com o pai e o restante da família. A ajuda internacional trouxe a eles conhecimento técnico para expandir a produção e enveredar novos rumos para diversificar o plantio. A antiga lavoura de milho agora também é lavoura de tomate, pimenta e cebola. A produção cresceu assim como os rendimentos. A soma desses fatores permitiu que Flora se tornasse a primeira integrante da família a obter um diploma universitário adivinhem em que? Jornalismo! Flora hoje é repórter do Tanzanian Daima.

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Extra: no final de uma das cerimônias de boas-vindas à equipe na Tanzânia, me deparei com esta iguaria: uma cabra inteira assada.

 

Abaixo, uma história do Malauí.

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Histórias verdadeiras da África – 1

Publicado em setembro 4, 2012

Caminhando ao longo da praia de Jacaranda (qualquer semelhança não é mera coincidência) em Malindi, Quênia, entre as palhoças dos artesãos, ao fundo, como se houvesse um imã que atraísse a minha lente, vejo uma mulher que ajuda uma criança a vestir-se.

Mary e sua filha

Era Mary Asimiísipayo e sua filha – e suas histórias. Pergunto se posso fotografá-las. Diante da resposta positiva, primeiro ela pergunta de onde sou e porque falo tão bem inglês. Respondi ser brasileiro e ter estudado a língua desde pequeno. Perguntei porque ela estava ali na praia. Abriu-me uma pequena trouxa com seus itens de artesanato. No mesmo momento, sua feição mudou. Sem condições de construir um negócio próprio na praia frequentadíssima por turistas italianos, ingleses e alemães, ela tenta vender os colares e pulseiras e outros artigos típicos de forma improvisada, porém muito dignamente. Não me ofereceu nada além de suas palavras e alma.

Criticou os beach boys por não darem espaço e por usarem o dinheiro que recebem dos turistas para comprar drogas e bebidas. Falou de mulheres como ela que, diante do beco sem saída, se prostituem. “Minha filha pode estar sem comida, mas meu corpo jamais venderei”, disse. Confio em Deus, disse-me ainda, e encontro forças porque sei que “tomorrow the sun will comes again“.

Agradeço, me afasto. Mais a frente, sento em um tronco trabalhado pelo mar enquanto pássaros negros sobrevoam uma carcaça. Choro.

Ubuntu – Esse é o espírito africano, todos somos irmãos e irmãs. I am ‘cos we are.

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