Leão de Ouro à carreira de Paulo Mendes da Rocha: Brasília, tropeço histórico

Leão de Ouro à carreira de Paulo Mendes da Rocha: Brasília, tropeço histórico

Matéria especial para o Camarote21

***

“Um provocador inconformado cuja obra resiste ao tempo, tanto do ponto de vista estilístico como físico”.

Foi assim que o júri da Bienal de Veneza, o evento mais importante da arquitetura mundial, justificou a entrega do Leão de Ouro a Paulo Mendes da Rocha.

“Para qualquer arquiteto, uma extraordinária homenagem receber o prêmio, o Leão de Ouro. É o mais sedutor, o mais erótico prêmio de arquitetura que possa existir. Porque Veneza é o exemplo supremo da cidade feita por vontade e desejos humanos. Um lugar impróprio, uma laguna impossível, e tudo foi feito por desejos humanos. Essa é a primeira grande lição quanto a ideia da arquitetura fundamentalmente, que é transformar o planeta num habitat humano, porque a natureza por si, não é.”

O que o senhor diz para quem está na faculdade e sonha em ser um grande arquiteto?

“Eu indico, antes de mais nada, que eles considerem esta questão da realização de necessidades e desejos humanos para tornar o planeta habitável, a construção do habitat humano, e Veneza é exemplar de tudo isso: Do ponto de vista da mecânica do solo, do ponto de vista mecânica da construção, do ponto de vista do que é realmente arquitetura, a realização das altas aspirações humanas.”

A aspiração humana no centro dos projetos. Para Mendes da Rocha, o desenvolvimento sustentável não é obstáculo para a arquitetura.

“Sustentabilidade deve ser entendida não como a intocabilidade, mas ao contrário, numa transformação virtuosa, digamos — para lembrar logo: o Tâmisa em Londres não é o rio original, o Sena em Paris não é rio original. É transformado para frequentar o espaço da cidade como uma invenção humana.”

Mendes da Rocha defende uma arquitetura simples e social. Mas como atingir essa meta?

“Trabalhando. Fazendo força para que seja assim. O que faz concluir que a grande questão da arquitetura e da cidade contemporânea é política.”

O senhor fala de política: Se pudesse reconstruir Brasília, o que faria lá?

(Silêncio. Pensa)

“Não teria feito Brasília. Porque, construir uma nova capital numa posição colonialista: a navegação da grande rede hidroviária do Brasil, ligações inexoráveis, necessárias, fáceis de imaginar, entre o Atlântico e o Pacifico, obrigariam a construção de inúmeras cidades como utilidade mais interessante, do que aquilo que já estava feito que era a capital no Rio de Janeiro. Porque, antes de mais nada, você dizer a uma cidade como o Rio de Janeiro, que aqui não é mais a capital, me parece um erro muito forte do ponto de vista político. É como se na Itália dissessem: agora Roma não é mais a capital. Não faz nenhum sentido. É uma visão de tropeço histórico.”

– Um tropeço histórico que o senhor não repetiria?

“Eu não repetiria é pouco: eu se pudesse teria evitado. Não tem nada que ver com a obra do Niemayer que é altamente criativa. É a decisão política que na minha opinião é errática.”

Como está no Brasil a arquitetura hoje?

“Está na mesma situação que está Bienal anunciou: precisando de boas notícias do front.”

Quais seriam?

“Você tem que inventar “.

Criatividade não falta no pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza. Nesta edição do evento, destaque para os projetos sociais. De norte a sul, uma arquitetura que se inspira nas necessidades específicas de cada região do país.

Mas foi a Espanha que levou o Leão de Ouro pela melhor participação nacional. Os espanhóis não apresentaram UM projeto revolucionário: não, eles tinham centenas deles – todos inacabados devido à crise econômica.

Agora, com o prêmio, muitos deles poderão ser concluídos e – finalmente –  habitados.

“Temos 55 estúdios de arquitetura que nos ofereceram estratégias diversas, extremamente inteligentes, todas economicamente viáveis, e também arquitetos mais jovens que participaram de um concurso de ideias. Este projeto chamamos “Unfinished” –  inacabado, em português. O objetivo aqui não é denunciar ou buscar culpados, mas encontrar oportunidades a partir do que já temos”, disse o curador do Pavilhão da Espanha, Iñaqui Carnicero.

A 15º edição da Bienal de Arquitetura de Veneza fica em exibição até 27 de novembro.