Urbi et Orbi: olhar sobre o mundo

Urbi et Orbi: olhar sobre o mundo

A tradicional Bênção Urbi et Orbi do papa – que acontece na Páscoa e no Natal – é sempre uma ocasião para o pontífice trazer à tona temas de interesse mundial, e recordar outros que já perderam o imediato apelo midiático internacional. Como é o caso da questão ucraniana e do acordo de paz na Colômbia, que Francisco recordou na mensagem deste ano.

O papa também voltou a pedir a retomada do diálogo entre palestinos e israelenses, destacou a necessidade de novos acordos de paz na Líbia e no Iraque, sem contar na Síria, onde a guerra parece não ter fim. Bergoglio não esqueceu dos ataques terroristas de Paris e Beirute e nos “céus do Egito”, assim como as “atrocidades” em curso na África subsaariana.

O mais legal, contudo, da transmissão deste ano, foi a amabilidade e gentileza com as quais o papa acolheu este meu singelo pedido após a bênção:

Globo repórter 140 anos de emigração italiana ao Brasil – jornalismo zero, champanhes mil

Globo repórter 140 anos de emigração italiana ao Brasil – jornalismo zero, champanhes mil

Acordo com um link no whatsapp enviado por uma amiga que também é jornalista e vive em Roma. Ao ver a descrição, as raízes falaram mais alto e, obviamente, cliquei. Nem mesmo os 30’ de publicidade com o Faustão cortaram meu entusiasmo. Vinheta do Globo repórter: anos que não assistia.

Já na cabeça, começa o show de clichês. Sigo firme, com fé no jornalismo da emissora gaúcha de outrora. Inocente que sou, na empolgação inicial, caio até mesmo na bobagem de chamar o amigo italiano para assistir.

mogliaantonio
Antonio Moglia: genuidade preservada dos emigrantes italianos

O que Veneza tem a ver com a emigração italiana ao Brasil? Na-da.

No tempo da emigração, não existia uma identidade italiana, muito menos veneta. O que havia era uma região ainda dividida – em todos os sentidos – pelas consequências da guerra do império austro-húngaro e o temor constante de que as terras fossem invadidas. Sem contar as batalhas pela unificação da Itália, também naqueles conturbados anos.

Aí vejo as gôndolas de Veneza? Sabe quando custa um passeio de gôndola em Veneza? Pobres antepassados, fugidos da fome e da guerra, se remexem no túmulo das euforias voláteis de um pseudojornalismo de viagem que engana com belas imagens.

Os emigrantes eram p-o-b-r-e-s! Não cultivavam uvas para champanhes! Eram pequenos agricultores de subsistência.

Aqui, a ausência de um embasamento histórico denota a frágil pré-produção sem a qual nenhuma grande reportagem pode se sustentar, nem mesmo apelando para uma série desnecessária de stand-ups que “começam no nada e terminam em lugar nenhum”.

Corte seco – estou na serra gaúcha. Aliás, estou na elite da serra gaúcha. Maior produção de vinhos, etc e tal, riqueza alicerçada no trabalho. Coisa boa e justa. Toda aquela “messa in scena” de mesas ao ar livre com música e degustação de vinhos, todavia, não me convenceu.

Jornalisticamente, um vt de 1’30’’ com o pão que a senhora Scopel preparou teria sozinho explicado melhor o sentimento da “emigra-nação” ítalo-brasileira.

Na contracorrente dessa falsa glamourização da emigração está a origem de tudo: a simplicidade daqueles h-e-r-o-i-s do passado que, OBRIGADOS a deixar a terra amada, mesmo com a separação forçada de milhares de famílias, mantiveram-se unidos nos estreitos laços das tradições que deixariam uma marca profunda na identidade cultural brasileira.

Para finalizar, lhes convido a sentar ao redor do fogão à lenha, comer castanha e nozes e tomar um bom café (chimarrão e pinhão no Sul), e assistir a este rápido vídeo em que Antonio Moglia – retrato fiel, intocado e original dos emigrantes de antes – explica a emigração em uma frase.

“Por que todos foram embora? Porque era preciso, para viver. Todos no vilarejo foram embora, um motivo tinha que ter”.

Buona visione.

Fiat lux: Vaticano como nunca visto

Fiat lux: Vaticano como nunca visto

Algo histórico aconteceu na noite de 8 de dezembro – dia da abertura do Jubileu da Misericórdia convocado pelo Papa Francisco.

A fachada da Basílica de São Pedro virou uma grande tela a céu aberto sobre a qual foram projetadas fotos e imagens de nomes consagrados – Sebastião Salgado, por exemplo – com quem o blog já conversou.

Fiat lux – iluminar a nossa casa comum. O espetáculo “fez-se luz” diante de milhares de pessoas que foram até o Vaticano para testemunhar um momento único que combinou arte e conscientização.

A inspiração: os gestos concretos do Papa, ele que conclama a misericórdia contra a globalização da indiferença.