Editorial: quem chorou hoje no mundo?

Editorial: quem chorou hoje no mundo?
  • Extraordinariamente, assinei o editorial da Rádio Vaticano justamente nesta semana em que o fotojornalismo fez-se fotojornalismo. Na redação, nos perguntamos se o Papa teria visto a imagem. A dúvida acabou no dia seguinte, quando na sua conta no Twitter, Francisco escreveu: “A guerra é a mãe de todas as pobrezas, uma grande predadora de vidas e almas”.

A imagem da fotojornalista turca Nilüfer Demir - AFP
A imagem da fotojornalista turca Nilüfer Demir – AFP

A imagem de uma criança migrante sem vida numa praia da Turquia rodou o mundo nesta semana. Aqui na Europa, também ganhou as manchetes dos principais jornais e provocou indignação nas redes sociais. Editoriais em grandes grupos de comunicação europeus argumentaram sobre a ética da publicação de tal fotografia e sobre a mensagem que ela continha em si mesma: o lado mais abjeto da guerra que se materializa no corpo inerte uma criança.

A cena da criança sem vida na praia de Bodrum une-se ao torvo retrato de uma cultura vil e insustentável que o Papa denuncia desde o início do seu Pontificado. A questão dos migrantes está no centro de seu Magistério: a primeira visita pastoral de Francisco foi à ilha italiana de Lampedusa – também local de chegada de muitos migrantes que fogem da África e do Oriente Médio em direção à Europa –, em julho de 2013.

“Adão, onde estás?”, questionou Francisco ao rezar pelas vítimas no Mediterrâneo lembrando de uma das perguntas que Deus colocou no início da história da humanidade, narrada no Gênesis. Jogando flores brancas e amarelas nas águas do Mediterrâneo contaminadas pela indiferença, um comovido Pontífice também questionou: “onde está o teu irmão?”, ao recordar outra colocação de Deus. O Papa então, ao final, acrescentou uma terceira pergunta:

“Peçamos ao Senhor a graça de chorar pela nossa indiferença, de chorar pela crueldade que há no mundo, em nós, incluindo aqueles que, no anonimato, tomam decisões socioeconômicas que abrem a estrada aos dramas como este. ‘Quem chorou hoje no mundo?’”.

As lágrimas da fotojornalista turca Nilüfer Demir petrificaram-se naquele 2 de setembro, ao ver o corpo do pequeno Aylan Kurdi que jazia na areia. Mesmo assim, naquele exato instante, decidiu apertar o botão de sua câmera.

“A única coisa que eu poderia fazer era tornar visível seu clamor. Naquele momento, acreditei que poderia fazer isso acionando o obturador da minha câmera e tirando a foto”.

Nos mais de 10 anos em que documenta a travessia dos migrantes a partir de Bodrum em direção à ilha grega de Kos, a somente 5 quilômetros, o pranto de Demir transborda dor e tristeza. Por que o jornalismo é o seu serviço!

A decisão de Demir foi o golpe de misericórdia na moribunda Europa. Este Velho Continente que não é capaz de lembrar que há 70 anos viu-se em meio a uma catástrofe humanitária gerada pela tragédia da própria guerra. Milhões de europeus foram forçados a emigrar diante da penúria do pós-guerra e buscar um porto seguro nos campos de refugiados – e também em outros países.

Naquela época, somente da Alemanha, hoje carro-chefe da economia europeia, saíram mais de 7 milhões de refugiados, sem contar os 2 milhões de franceses, 1,6 milhão de poloneses e 700 mil italianos.

Foi então que surgiram os primeiros tratados e organizações internacionais de proteção aos deslocados que, mais tarde, em 1951, estabeleceriam o Estatuto dos Refugiados. Dentre as normativas, destaque para a proteção dos migrantes e o impedimento de regressos forçados.

O Estatuto determina que seja o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) a aplicar e fiscalizar as regras para a proteção dos refugiados. Todos os Estados que tenham ratificado a Convenção de 1951 são obrigados a cooperar com as ações do ACNUR e cumprir as normas básicas vigentes. Ou seja, não discriminar por raça, sexo, religião e nação e fazer valer a regra do “non refoulement” em não mandar de volta ao país de origem quem poderá ser alvo de perseguição.

Antes da foto de Demir, a chanceler alemã Angela Merkel demonstrou “não ter esquecido” o passado recente do seu país e abriu, por assim dizer, as fronteiras. A Alemanha espera para este ano mais de 800 mil pedidos de asilo.

Ainda não sabemos qual será o efeito da imagem do menino de Bodrum em termos de abertura e aceitação dos migrantes em território da União Europeia. Tampouco sabemos se, naqueles que promovem a guerra, ainda resta uma fagulha de misericórdia ou um ímpeto de humanidade. Ou, se naqueles que servem à economia tecnocrática, há espaço para a cultura da solidariedade.

Em março deste ano, Francisco compartilhou uma importante reflexão moral para o debate da questão dos migrantes: “Pensemos nisto: todos somos migrantes a caminho da vida, nenhum de nós tem um domicílio fixo nesta terra, todos temos que ir”.

Aylan Kurdi, o menino da praia de Bodrum, teve que ir mais cedo: foi um migrante nesta terra somente por três anos.

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