Neste fim de semana a Marinha e Guarda Costeira italianas salvaram mais de 7 mil imigrantes à deriva no Mar Mediterrâneo. A odisseia dos imigrantes que tentam atravessar o Mediterrâneo para chegar à Europa tem um rosto não muito conhecido: o dos menores de idade.

A realidade de um abrigo de emergência somente para os menores imigrantes, não aparece nas manchetes dos jornais.

Menor descansa num abrigo emergencial no sul da Itália
Menor descansa num abrigo emergencial no sul da Itália

Meninos de 10, 11 anos jogam bola no pátio de uma creche em Reggio Calábria, no sul da Itália, que virou um centro de acolhimento de emergência somente para os menores imigrantes. Algo trivial se eles não fossem sobreviventes dos recentes naufrágios no Mediterrâneo.

Um voluntário italiano confirma que muitos deles foram resgatados da embarcação em que mais de 700 pessoas morreram afogadas por estarem trancadas no porão do barco. O atravessador as teria trancado embaixo para que não ocupassem o lugar de quem pagou mais para poder atravessar o Mediterrâneo ao ar livre.

A maior parte dos recém-desembarcados é da Somália, Etiópia e Eritreia. Países em conflito entre si por questões territoriais e étnicas. Apesar disso, tiveram que dividir o mesmo barco. Mas no abrigo as diferenças se acentuam: alguns episódios de violência entre os menores precisaram ser apartados por voluntários, médicos e policiais.

A grande maioria chegou ao abrigo doente, padeciam de sarna e piolhos. As marcas brancas na pele escura revelam que muitos ainda precisam ser curados para, depois, seguir viagem.

Futuro incerto

Said, da Eritreia, fala um pouco de inglês. Disse que quer chegar a Roma e, da capital italiana, seguir viagem para a Suécia, aonde teria familiares à sua espera.

Abi, também eritreu, por sua vez foi identificado e pediu asilo como refugiado. Em inglês, contou querer ir a Roma onde aguardará o resultado dos documentos. Não conhece ninguém lá, mas tem o sonho de concluir os estudos.

Abi é minoria no abrigo. Quase a totalidade dos menores se negou a ser identificada pela imigração italiana já que tem, assim mesmo, a proteção das leis internacionais até completar 18 anos. Outros querem evitar ser registrados na Itália pois pretendem chegar a outros países da União Europeia.

Despero

O clima é de tensão. Um ônibus do Ministério da Imigração italiano aguarda do lado de fora: deveria seguir viagem com ao menos 40 menores. Destino: centros de educação sociais na Itália. Muitos não aceitam, não querem a separação ou mistura dos grupos étnicos.

Na noite anterior, um grupo de exatamente 40 menores fugiu do abrigo. Saíram sem rumo. Foram encontrados em uma igreja, famintos. Antes, ainda, outra forma de protesto: fizeram greve de fome para não serem registrados.

Sinto esse medo de serem reconhecidos. Evitam conversar comigo, viram o rosto diante da máquina fotográfica. São mais de 150 menores entre meninos e meninas que, sem documentos, são apenas números. Números de uma suposta rede internacional de tráfico de pessoas que ninguém afirmou existir, mas que se faz perceber pelos ‘olheiros’ entre os menores.

Ação missionária

A missionária italiana Lina Guzzo estava lá. Para ela, a presença destes ‘olheiros’ que controlam todos os passos dos menores é um sinal claro desta rede.

“Deu a entender que eles têm domínio sobre os pequenos. Uma vez que eles estão fora, eu não sei o que vai acontecer com estes pequenos. Ou eles se tornam como aqueles, opressores, ou eles acabam mortos, desaparecem”, declarou irmã Lina, da Congregação de Scalabrini.

Na linha de frente da acolhida aos imigrantes está a missionária brasileira Maria Helena Aparecida. Com mais de 40 anos de experiência na missão com imigrantes, não hesita ao afirmar que hoje o tráfico de seres humanos é mais rentável que o de drogas e armas. “Se algo não for feito na origem, será uma catástrofe”, disse a religiosa scalabriniana.

Com o verão às portas e as condições meteorológicas favoráveis, as preocupações aumentam na Itália. Inevitavelmente, novos barcos de imigrantes zarparão da costa do norte da África em direção à Europa. “E nós estaremos aqui, esperando por eles”, afirmou a missionária brasileira.

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2 comentários sobre “Menores imigrantes na Europa: à margem da lei

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