Na semana passada um grupo de mais de 25 meninos e meninas de rua acolhidos pela Casa do Menor, realizou o sonho de conhecer pessoalmente o Papa Francisco. À frente do grupo estava o padre – mais brasileiro do que italiano – Renato Chiera, fundador da instituição. Eu entrevistei padre Chiera, que nesse especial fala sobre a sua experiência nas cracolândias, “cemitério de vivos de onde sai um grito por Deus”.

Rafael Belincanta: A cracolândia é um lugar que ninguém quer ir…

Padre Renato Chiera: É, nas cracolândias todo mundo tem medo.

Padre Renato Chiera em Roma
Padre Renato Chiera em Roma

Espelho da sociedade

– A cracolândia, não queremos vê-la porque um espelho da nossa sociedade. Nós não queremos nos espelhar. Queremos nos esconder. Achar que isto é uma coisa periférica em nossa vida. Para mim, é o resultado de uma sociedade que esta se quebrando nos seus valores essenciais. O valor da família, o valor de Deus, o valor da gratuidade, o valor do amor, da doação. Estamos perdendo todos estes valores, até mesmo Deus.

Deus mágico

– Embora todo mundo diga ser religioso, esse é um Deus que virou comércio. Um deus que é mágico, que me dá, que resolve meus problemas, não é um deus que me chama a me converter e ajuda-lo a transformar.

Observatório da sociedade

– Para mim a cracolândia foi um observatório. Estes quatro anos que eu estou lá são um privilégio. Um observatório sobre a sociedade que está se quebrando. Sobre a família que não tem mais condições de criar os seus filhos e, também, sobre as políticas públicas que pensam que tem que recolher e não acolher. Ou que tem que invadir as favelas com o exército, com a polícia em vez de fazer políticas públicas (de inclusão e promoção social n.d.r).

Deus preenche o vazio

Projeto da Associated Press retrata as histórias das cracolândias
Projeto da Associated Press retrata as histórias das cracolândias

– A cracolândia também é um observatório sobre a nossa evangelização. Aí, eu questiono também a nossa Igreja. Que evangelização estamos fazendo? Nas cracolândias encontramos muitos que são evangélicos, católicos, que dizem que creem no Evangelho. Mas qual é o Evangelho que nós apresentamos? Qual é o deus que nós apresentamos? Se este deus não é o Deus do qual o Papa fala, que dá a vida, como é que ficam aqueles que acreditam em Deus mas morrem no crack? Nós devemos apresentar um Deus que preenche o vazio do ser humano. Não um deus que me leva, depois, a uma vida triste ao ponto de procurar no crack a solução para os problemas.

Cemitério de vivos

– A cracolândia é um cemitério de vivos que se consolam juntos criando família entre si e usando crack até morrer. Porém, há na cracolândia um grito: um grito por família.

Presença no inferno

– Eu escrevi um livro, Presença no Inferno, e do inferno das cracolândias há um grito por amor, um grito por família. Lá tem gente de todo o tipo, de todas as idades e de todas as condições sociais, de todas as cores e de todas as religiões. De crianças a velhos. A criança diz: eu não tenho pai nem mãe, não me querem. O velho diz: eu tinha filhos, me abandonaram. E venho aqui porque aqui somos família. Usamos crack, somos todos iguais, encontramos aqui a família que não nos quer mais ou que não temos mais.

Escravos dentro

Outro retrato do projeto da AP
Outro retrato do projeto da AP

Na cracolândia há um grito por Deus. Um menino, cearense de Sobral, que está na cracolândia da Maré, depois que eu passei uma noite lá com eles, me chamou e disse: Padre, você nos ama muito, não é? Porque passou a noite aqui conosco, não teve medo. E me falou: Escuta, você gostaria que nós saíssemos daqui mas você não vai conseguir porque nós somos escravos dentro. E gritou: Padre, nos dê Deus e a sua Palavra. E repetiu três vezes. Entendeu bem? Me dizia. Nos dê Deus e a sua Palavra ou nós não vamos conseguir sair daqui. Da ausência de Deus, porque na cracolândia parece que Deus morreu, tem uma presença e um grito por Deus. Eu senti a cracolândia como uma catedral (silêncio) …um grande Cristo crucificado que grita o abandono mas que também grita por vida e está dizendo que a nossa sociedade deve mudar se não quiser se tornar toda ela uma cracolândia.

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Um comentário sobre “Entrevista especial – Cracolândia: cemitério de vivos

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