A “desumanização” dos refugiados do norte de África

A “desumanização” dos refugiados do norte de África

O drama dos migrantes que tentam atravessar o Mediterrâneo para chegar à Europa atinge níveis assustadores. Além da tragédia dos mortos, a Itália precisa cuidar dos sobreviventes, muitos deles doentes e crianças.

Refugiados rezam em abrigo no sul da Itália
Refugiados rezam em abrigo no sul da Itália

O mar está calmo. Madhi Isaac, porém, olha para o Mediterrâneo com perplexidade. Não acredita que sobreviveu à travessia: “Não é algo que um ser humano possa enfrentar. Estamos a arriscar a nossa vida”.

Madhi tem 40 anos. Saiu do Benin há 7 meses. Atravessou a pé e à boleia o Níger e o deserto da Líbia até chegar a Trípoli. “Paguei duas vezes. Paguei aos passadores 1,4 mil dinares (cerca de mil euros) para vir de Trípoli até aqui e depois paguei para que não me empurrassem para fora do barco”.

O refugiado conta como chegou à Itália: “Fomos colocados num barco pequeno em Trípoli. Agradecemos a Deus. Quando entramos no barco, cristãos e muçulmanos, começamos a rezar para que chegássemos vivos ao destino. Deus ouviu as nossas preces e conseguimos chegar”.

A perigosa travessia da Líbia para a Itália demorou quinze horas. Madhi foi resgatado em alto mar juntamente com outros 60 migrantes. E explica todo este sacrifício mesmo arriscando a própria vida.

“Foi por causa do meu futuro que vim. Se tivesse um futuro no meu país eu não sairia de lá. Teria ficado no meu país para construir o meu futuro. Mas no Benin não há futuro. Eu tive que encontrar uma solução fora do Benin. É por isso que vim para a Itália”.

Condições degrandantes

Outro sobrevivente, Gibrail Sowe, de 22 anos, oriundo da Gâmbia, também justifica a travessia perigosa: “Não é fácil. A vida é colocada permanentemente em risco. Tudo se resume à pobreza. Você não vai conseguir nada ao ficar lá”.

Madhi e Gibrail estão atualmente num abrigo improvisado num ginásio para onde os sobreviventes da travessia foram encaminhados. Estão com sarna e piolhos e não podem seguir viagem até que estejam completamente curados.

Lá também está Nahom Aron, de 21 anos, da Eritréia. Depois de ser resgatado, permaneceu dois dias a bordo de um navio da marinha italiana. Durante a travessia, ficou a maior parte do tempo no porão do barco.

Aron recorda esse período: “Faltava ar, era muito quente. Vomitaram em cima de mim, para dentro das minhas roupas. É muito difícil recordar isso”.

O eritreu sonha em ir para a Suíça, onde teria amigos e parentes. Quando lhe foi perguntado quanto pagou aos passadores, uma vez que havia dito que não tinha dinheiro, Aron disse que se tratava de “blood money, black market” , ou seja, dinheiro de sangue, mercado negro, e se afastou do repórter da DW África.

Padre Bruno Mioli fala aos refugiados

Crianças protegidas

Noutro abrigo, meninos de 10 e 11 anos jogam a bola no pátio. Algo trivial se estes meninos não fossem sobreviventes dos recentes naufrágios no Mediterrâneo. Uma creche em Reggio Calábria, no sul da Itália, foi transformada num centro de acolhimento de emergência sómente para os migrantes menores.

Eles negaram-se a ser identificados pelos serviços italianos da imigração. E por serem menores, têm assim mesmo a proteção do Estado italiano até completarem 18 anos de idade. Mas também querem evitar serem registados na Itália, já que muitos deles pretendem chegar a outros países da União Europeia.

O clima é de tensão. Um autocarro do ministério da Imigração italiano aguarda do lado de fora: deveria seguir viagem com pelo menos quarenta menores em direção aos centros de educação sociais na Itália. Mas muitos deles não aceitam, não querem que o grupo se divide.

Evitam conversar com o correspondente da DW África, escondem o rosto diante da máquina fotográfica. São mais de 150 menores, entre meninos e meninas, que, sem documentos, são apenas números.

Números de uma suposta rede internacional de tráfico de pessoas que ninguém afirmou existir, mas que se faz perceber pelos ‘olheiros’ entre os menores.

A missionária italiana Lina Guzzo estava lá. Para ela, a presença destes ‘olheiros’ que controlam todos os passos dos menores é um sinal claro desta rede de traficantes. “Para mim, esta atitude dá a entender que eles têm domínio sobre os pequenos. Uma vez fora dos centros de educação sociais, não sei o que irá acontecer a estes menores. Ou tornam-se como estes aqui, opressores, ou acabam mortos, desaparecem.”

 

Ações da UE são ajustadas ao caso?

Junto com Madhi, Gibrail e Mahon está o padre Bruno Mioli, de 86 anos, que leva esperança aos migrantes que chegam à Itália. Empresta o telemóvel, com consentimento da polícia, para que possam entrar em contato com parentes e amigos na Europa. O telefone é monitorado pela Interpol.

Padre Bruno levanta a voz contra Estrasburgo. Diz que a ajuda financeira à operação Triton veio tarde e destaca que é preciso atacar o problema pela raiz.

Refugiado descansa nas camas improvisadas

Especial: “Custa mais matar do que salvar”

Especial: “Custa mais matar do que salvar”

Nesta terceira e última matéria especial sobre a Casa do Menor, instituição fundada pelo padre italiano Renato Chiera na periferia do Rio de Janeiro, ele reflete sobre o porquê da sociedade brasileira querer investir na violência e o que ele espera que aconteça com a Casa do Menor quando ele não estiver mais por aqui.

Em contraposição a essa realidade, ouviremos também os testemunhos de dois jovens recuperados na Casa do Menor. Padre Chiera e o grupo de 25 menores vieram a Itália para uma turnê musical. Conheceram o Papa no início de abril e agora volta ao Brasil com a esperança de um Brasil menos desigual.

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Como é que a Casa do Menor se mantém hoje?

Padre Renato Chiera: Hoje nós temos muitas dificuldades. O governo ajuda pouco, muito pouco. A sociedade brasileira está crescendo um pouquinho mais na solidariedade mas aquele que poderia mais ajudar ainda não ajuda. Então, nós devemos chamar a sociedade a esta responsabilidade.

Custa mais matar do que salvar

Para nós não tem nem 500 reais. 500 reais para salvar, 4,5 mil para matar. Nós queremos investir na violência. Estamos investindo na violência. Isso custa até em nível econômico. Custa mais matar do que salvar. Isso é uma loucura!

Como gostaria de ver o trabalho da Casa do Menor ir avante quando o senhor não estiver mais aqui?

Eu estou virando velho. Então eu tenho que preparar o futuro. Eu, gostaria, primeiro, que continuasse. Segundo, que se espalhasse e crescesse.  E, terceiro, que nós pudéssemos manter esta alma, esta mística. Nós fazemos isso para os meninos porque eles são Jesus. Porque se não tivermos esta mística nos perdemos o entusiasmo, perdemos a gasolina, então perdemos aquilo que é nosso diferencial. Eu não gostaria que amanhã a Casa do Menor fosse uma ONG como tantas as outras. Mas a coisa mais séria é pessoas: pessoas vocacionadas. O amor não é uma profissão. O amor é uma vocação.

Drama atual

Hoje a realidade dos meninos não é mais tão visível como antes na rua, mas é mais dramática. Queria pedir aos padres nas paróquias de estarem atentos ao grito destes meninos que não vêm à Igreja, nós irmos procurá-los lá onde tem o narcotráfico, onde o tráfico está adotando estes nossos meninos, não ter medo, ir  até eles. Eu digo: não cadeia neles, família neles, amor neles, escola, casa, profissão, futuro. Aí que teremos um Brasil melhor.

Vida nova

Juan de Barros, 17 anos

Eu cheguei no dia 22 de abril de 2013 na Casa do Menor. Cheguei com o propósito de me recuperar… sair da vida errada em que eu estava. Minha vida era muito “correria”. Minha vida não era nada mais, nada menos, que aquela realidade que nós vemos aí na cidade, que é a agressividade, é o roubo, que é a prostituição, que é o tráfico. Então, a minha vida era baseada dentro disso. Eu vivia na ilusão.

Como é que foi a sua acolhida na Casa do Menor?

Quando eu cheguei, o propósito era de ficar três meses e sair. Tinha colocado no meu coração de ficar só três meses. Mas, conforme o cotidiano, o amor que eles passaram para mim, o carinho, a compreensão. Hoje eu falo isso com muita emoção que a Casa do Menor me ajudou muito. Fico e me sinto muito grato pelo o que eu tenho hoje,  o que eu sou: eu devo muito a eles.

Como é que você pretende passar isso que você recebeu adiante?

Pretendo passar da maneira que me passaram.  Por meio do amor, do carinho, da conversa, do diálogo. Não com violência, como está sendo hoje em dia no mundo. Lá fora, como existem muitas pessoas ruins, existem também muitas pessoas boas.

Rosana Agrícola da Silva, 29 anos

Três anos atrás, como era sua vida?

A minha vida sempre foi muito difícil. Nós vivemos numa área carente e desde quando eu nasci, minha mãe sempre foi alcoólatra. Eu sempre fui criada… não exatamente criada, mas vivendo com a proteção de Deus, cuidando dela, até que ela faleceu. Eu vivi uma vida meio complicada em casa com parentes, com drogas… Então, eu encontrei a Casa do Menor, que tem amigos, tem pessoas unidas, tem pessoas que falam sobre a mudança, o que a gente pode fazer pra mudar. Para mim foi inspirador e aí eu tive que entrar.

Especial: “Lixo se recolhe. Pessoas, se acolhe”

Especial: “Lixo se recolhe. Pessoas, se acolhe”

Nesta segunda matéria especial sobre a Casa do Menor, o fundador da instituição que trabalha com meninos e meninas de rua, lembra do trágico episódio que deu origem à Casa do Menor e como é possível sim recuperar um menino abandonado.

Padre Renato Chiera esteve no Vaticano no início de abril onde encontrou o Papa Francisco, junto com um grupo da Casa do Menor que está em turnê pela Itália com o espetáculo “Deixem-me sonhar”.

Rafael Belincanta: O senhor, provavelmente, já deve ter sido ameaçado de morte também…

Padre Renato Chiera: Eu já recebi muita ameaça de morte, sim. Agora, menos. Os meninos morrem… se “a gente” também tivesse que morrer para salvar a eles, eu acho que seria até um privilégio. O martírio maior para nós hoje é continuar amar estes meninos. É continuar ir contracorrente, porque nós somos cercados por toda uma sociedade que quer botar para a cadeia, que quer violência.

Lacuna do abandono

O grande problema dos meninos é o abandono. O grande problema dos meninos é a falta de amor. É a rejeição. Nós estamos com muita raiva dos meninos hoje no Brasil. Nós queremos penalizá-los, nós queremos criminalizá-los. Chamamos nossos meninos de monstros.

Eles não são monstros. Eles são filhos de Deus feridos porque não amados. Mas o amor, o acolhimento, vai fazê-los reerguer. A gente pode falar isso por experiência, porque não é uma teoria, é uma experiência de acolhimento que nós estamos fazendo, nas ruas, nas cracolândias, vamos amá-los, não tirá-los. Nós não vamos para recolher. Nós vamos para amá-los ou acolhê-los. No Brasil, se diz que tem que recolher. Eu digo, se recolhe o lixo. Pessoas, se acolhe.

Padre Chiera na Rádio Vaticano
Padre Chiera na Rádio Vaticano

A Paixão dos meninos de rua

O encontro com o Papa foi uma coisa inesperada e emocionante. Parece que o Papa estava falando para nós. Me veio uma emoção muito forte quando ele falou da Paixão dos meninos. A Casa do Menor nasceu a partir desta Paixão. Eu não comecei este trabalho porque eu quis: teve um chamado de Deus através de acontecimentos.

Um menino que eu acudi porque a polícia estava caçando ele, já tinha dado tiro, ele foi assassinado na porta da minha casa. Se chamava “Pirata” Carlos Martins. Isso me chocou muito.

Um dia um rapaz veio me pedir ajuda e me disse: padre, tu sabes que mataram 36 na tua paróquia neste mês? E agora tem 40 marcados para morrer. E eu sou o primeiro da lista, e eu não quero morrer. E, me olhando fixo, me dizia, e você nos deixa morrer todos. Matar todos. E você não faz nada? Então, eu senti que Deus estava me chamando a dar uma resposta a esta tragédia das crianças, a infância negada.

Rejeição x Família

Eu te digo que quem não foi amado é mais sensível ao amor do que qualquer pessoa. Eu fico impressionado quando os chamo de filhos. Aí dizem: você escutou? Ele me chamou de filho! Ninguém nunca me chamou de filho. Quem não é amado percebe o amor. Agora, não podes enganá-los. Não pode fingir de amar. Brincar, como o Papa falava. Não podemos brincar com as crianças porque aquilo que eles nos pedem é o essencial.

Entrevista especial – Cracolândia: cemitério de vivos

Entrevista especial – Cracolândia: cemitério de vivos

Na semana passada um grupo de mais de 25 meninos e meninas de rua acolhidos pela Casa do Menor, realizou o sonho de conhecer pessoalmente o Papa Francisco. À frente do grupo estava o padre – mais brasileiro do que italiano – Renato Chiera, fundador da instituição. Eu entrevistei padre Chiera, que nesse especial fala sobre a sua experiência nas cracolândias, “cemitério de vivos de onde sai um grito por Deus”.

Rafael Belincanta: A cracolândia é um lugar que ninguém quer ir…

Padre Renato Chiera: É, nas cracolândias todo mundo tem medo.

Padre Renato Chiera em Roma
Padre Renato Chiera em Roma

Espelho da sociedade

– A cracolândia, não queremos vê-la porque um espelho da nossa sociedade. Nós não queremos nos espelhar. Queremos nos esconder. Achar que isto é uma coisa periférica em nossa vida. Para mim, é o resultado de uma sociedade que esta se quebrando nos seus valores essenciais. O valor da família, o valor de Deus, o valor da gratuidade, o valor do amor, da doação. Estamos perdendo todos estes valores, até mesmo Deus.

Deus mágico

– Embora todo mundo diga ser religioso, esse é um Deus que virou comércio. Um deus que é mágico, que me dá, que resolve meus problemas, não é um deus que me chama a me converter e ajuda-lo a transformar.

Observatório da sociedade

– Para mim a cracolândia foi um observatório. Estes quatro anos que eu estou lá são um privilégio. Um observatório sobre a sociedade que está se quebrando. Sobre a família que não tem mais condições de criar os seus filhos e, também, sobre as políticas públicas que pensam que tem que recolher e não acolher. Ou que tem que invadir as favelas com o exército, com a polícia em vez de fazer políticas públicas (de inclusão e promoção social n.d.r).

Deus preenche o vazio

Projeto da Associated Press retrata as histórias das cracolândias
Projeto da Associated Press retrata as histórias das cracolândias

– A cracolândia também é um observatório sobre a nossa evangelização. Aí, eu questiono também a nossa Igreja. Que evangelização estamos fazendo? Nas cracolândias encontramos muitos que são evangélicos, católicos, que dizem que creem no Evangelho. Mas qual é o Evangelho que nós apresentamos? Qual é o deus que nós apresentamos? Se este deus não é o Deus do qual o Papa fala, que dá a vida, como é que ficam aqueles que acreditam em Deus mas morrem no crack? Nós devemos apresentar um Deus que preenche o vazio do ser humano. Não um deus que me leva, depois, a uma vida triste ao ponto de procurar no crack a solução para os problemas.

Cemitério de vivos

– A cracolândia é um cemitério de vivos que se consolam juntos criando família entre si e usando crack até morrer. Porém, há na cracolândia um grito: um grito por família.

Presença no inferno

– Eu escrevi um livro, Presença no Inferno, e do inferno das cracolândias há um grito por amor, um grito por família. Lá tem gente de todo o tipo, de todas as idades e de todas as condições sociais, de todas as cores e de todas as religiões. De crianças a velhos. A criança diz: eu não tenho pai nem mãe, não me querem. O velho diz: eu tinha filhos, me abandonaram. E venho aqui porque aqui somos família. Usamos crack, somos todos iguais, encontramos aqui a família que não nos quer mais ou que não temos mais.

Escravos dentro

Outro retrato do projeto da AP
Outro retrato do projeto da AP

Na cracolândia há um grito por Deus. Um menino, cearense de Sobral, que está na cracolândia da Maré, depois que eu passei uma noite lá com eles, me chamou e disse: Padre, você nos ama muito, não é? Porque passou a noite aqui conosco, não teve medo. E me falou: Escuta, você gostaria que nós saíssemos daqui mas você não vai conseguir porque nós somos escravos dentro. E gritou: Padre, nos dê Deus e a sua Palavra. E repetiu três vezes. Entendeu bem? Me dizia. Nos dê Deus e a sua Palavra ou nós não vamos conseguir sair daqui. Da ausência de Deus, porque na cracolândia parece que Deus morreu, tem uma presença e um grito por Deus. Eu senti a cracolândia como uma catedral (silêncio) …um grande Cristo crucificado que grita o abandono mas que também grita por vida e está dizendo que a nossa sociedade deve mudar se não quiser se tornar toda ela uma cracolândia.

Receita brasileira para levar comida a escolas africanas

Receita brasileira para levar comida a escolas africanas

A versão para a África do programa brasileiro de Aquisição de Alimentos (PAA) tem promovido em cinco países africanos a convergência entre políticas públicas de apoio à agricultura com aquelas de assistência social. Um modelo que tem se mostrado eficaz na luta contra a fome e na promoção da resiliência de comunidades vulneráveis.

Tanto que, recentemente, as conquistas do PAA – que chega ao terceiro ano – foram destacadas pelas Nações Unidas. Financiado pelo Departamento do Reino Unido para o Desenvolvimento (DFID) e coordenado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) em parceria com o Programa Alimentar Mundial (WFP), o PAA mantém projetos-piloto em Moçambique, Etiópia, Níger, Senegal e Malauí.

Nos dois primeiros anos, o PAA supriu cerca de 1 mil toneladas de alimentos para mais de 128 mil estudantes de 420 escolas. Aproximadamente 37% da produção das famílias atendidas foram vendidas.

Produção e consumo local

Modelo brasileiro é aplicado em cinco países africanos
Modelo brasileiro é aplicado em cinco países africanos

Ao incentivar a produção da agricultura familiar local garantindo a aquisição de parte da colheita que será convertida em merenda escolar, o PAA estabelece um ciclo virtuoso que pode inspirar governos, Ong’s e programas de assistência social a não separarem ações que deveriam ser complementares.

O Coordenador do PAA na FAO, Israel Klug, explica que, além do efeito imediato das crianças que permanecem na escola e têm maior rendimento, o programa pode ter outros êxitos.

“No longo prazo, na medida em que esse programa seja expandido ao contexto nacional, isso pode ter um impacto em termos de recursos humanos e força de trabalho. Trata-se de toda uma geração que potencialmente pode ter maior acesso tanto à educação como à melhor nutrição por meio da alimentação escolar”, disse.

Garantias

Nestes três anos, o PAA auxiliou cerca de 5,5 mil pequenos agricultores que viram a produção aumentar mais de 100%. No Níger e no Senegal, grande parte da produção comprada pelo PAA vem de cooperativas administradas por mulheres agricultoras.

Em Moçambique, por exemplo, o PAA atua na província de Tete onde trabalha com 600 famílias agricultoras cuja produção alimenta mais de 70 mil estudantes de 175 escolas da região. A compra de parte da safra, principalmente de milho, assim como o treinamento que recebem, é uma garantia de retorno dos investimentos para os produtores, explica Klug.

“O agricultor tem mais segurança para investir porque sabe que uma parte da produção tem mercado já garantido”, afirmou o coordenador.

Israel afirma que, por enquanto, o PAA não deve ser expandido para outros países.

“O PAA África pretende contribuir não aumentando o número de países mas ampliar os projetos pilotos nestes cinco países. E, com isso, gerar mais conhecimento sobre que tipo de modelos são mais adaptados de acordo com os contextos nacionais. Com base nestes resultados de avaliação e monitoramento, oferecer conhecimento e dados que possam subsidiar decisões dos governos para a ampliação de programas de alimentação escolar”.