Saída de cena de Armando Guebuza não será completa

Saída de cena de Armando Guebuza não será completa

Armando Gebuza foi recebido esta quinta-feira (04.12) pelo papa Francisco no Vaticano

Continuará Armando Guebuza a ter influência no Governo quando terminar o seu segundo mandato? “Todos os quadros têm influência sobre o partido”, admitiu esta quinta-feira o Presidente moçambicano, em visita à Itália.

Armando Guebuza prepara-se para deixar a cadeira da presidência depois de dez anos à frente do país. A data da passagem do comando ao Presidente eleito, Filipe Nyusi, não foi ainda definida. “É preciso respeitar os prazos”, disse Armando Guebuza.

Filipe Nyusi, o candidato à presidência da FRELIMO, foi eleito à primeira volta nas eleições de 15 de outubro, com 57,03% dos votos, para a sucessão de Guebuza.

Filipe Nyusi foi eleito com 57,03% dos votos

Contudo, a saída de cena do Presidente cessante não será completa. “Eu sou um quadro da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Todos os quadros têm influência sobre o partido”, respondeu Armando Guebuza quando questionado sobre o que irá fazer na presidência da FRELIMO no fim do seu segundo e último mandato como Presidente da República e se continuará a ter influência no Governo.

“E por que é que eu vou resistir? Por que é que todos os outros podem ter menos eu?”, questionou ainda o chefe de Estado cessante numa breve entrevista ao correspondente da DW África em Roma.

Investimentos polémicos

Armando Guebuza comentou ainda a contestação em Moçambique em torno dos investimentos internacionais na área dos recursos naturais. “Diz-se que há muita controvérsia. Obviamente, é uma coisa nova. Em Moçambique nós não tínhamos visto ainda uma mina a céu aberto.”

Recentemente, o braço moçambicano da brasileira Vale, que explora as minas de carvão em Moatize, divulgou um balanço negativo de 44 milhões de dólares. O chefe de Estado moçambicano, no entanto, destacou a presença da Vale, muito criticada pela falta de políticas para a exploração sustentável do carvão.

“No princípio, a Vale, que é a que produz mais carvão, transportava o carvão que poderia transportar apenas para a Beira. Saímos de dois milhões de toneladas no início para seis milhões de toneladas, mas isso é muito pouco comparado com aquilo que a Vale pode produzir”, afirmou Guebuza, lembrando que “a área do carvão tem limitações”, como a exploração, o transporte e o manuseamento portuário.

Entretanto, sublinha, abriu-se um outro caminho que vai até Nacala. “Este mês, vamos ter o porto de Nacala que vai receber o carvão que vem de Moatize. E Nacala pode manusear mais do que 30 milhões de toneladas. Mas, mesmo assim, continuaremos com o problema do transporte do carvão em Moçambique”, reconheceu.

Guebuza em Itália

Esta quinta-feira (04.12), Armando Guebuza esteve reunido com o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, e com o Presidente da Itália, Georgio Napolitano, e no final da manhã foi recebido pelo papa Francisco no Vaticano.

A luta contra a pobreza e as desigualdades dominou o encontro do papa Francisco com Armando Guebuza

O Presidente da República de Moçambique esteve também reunido com o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), José Graziano.

Durante a visita, iniciada na terça-feira (02.12), o chefe de Estado também se reuniu com o diretor da petrolífera italiana ENI, que lidera um dos dois blocos de exploração de gás natural na bacia de Rovuma, no norte de Moçambique.

Esta é a segunda visita a Itália de Armando Guebuza. A Itália, que coopera com Moçambique em várias áreas, é um dos maiores investidores estrangeiros neste país africano.

FAO reconhece os avanços do Brasil na luta contra a fome

FAO reconhece os avanços do Brasil na luta contra a fome

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) reconheceu, neste domingo, 30/11, as conquistas que o Brasil e outros 12 países obtiveram na redução da fome e da desnutrição na última década.

De acordo com a FAO, em 2002, 10% da população brasileira passava fome. Em 2013, os dados mostram que este número caiu para 1,7%. Em termos absolutos o Brasil vence a guerra contra a fome, contudo, 3,4 milhões de brasileiros ainda não tem o que comer. A Ministra do Desenvolvimento Social e Luta contra a Fome, Tereza Campello, afirmou durante a entrega do prêmio, na sede da FAO em Roma, que “a primeira geração de crianças livre da fome já nasceu no Brasil”.

A ministra destacou que hoje o programa Bolsa Família, cujo valor médio é de R$ 168, complementa a renda de 14 milhões de famílias no país – aproximadamente 50 milhões de beneficiados. Para ter acesso ao benefício, as famílias precisam garantir que as crianças frequentem a escola e façam uma visita médica a cada seis meses.

“Quando se pensa que a pobreza seja o resultado de uma leniência, que o pobre é um perdedor ou uma pessoa preguiçosa, não é bem assim. Porém, estamos construindo uma futura geração que não precisa do Bolsa Família, que teve acesso à educação e à saúde, mas aí se eles vão estar empregados, vai depender da economia mundial”, disse a ministra.

Ações locais contra a fome

A ministra afirmou ainda que, agora, uma vez atingidas as metas internacionais, o foco das políticas públicas de combate à fome passam a ser locais.  E citou exemplos:

“Estamos promovendo políticas específicas de assistência técnica para quilombolas indígenas, para populações extrativistas, para pescadores artesanais, comunidades ribeirinhas. Públicos que vivem, às vezes, de maneira isolada e que têm culturas diferenciadas, portanto, a assistência técnica não pode ser generalizada”, explicou Campello.

O Arcebispo de São Paulo, Odilo Scherer, reconhece os avanços promovidos pelo Bolsa Família contudo reitera a necessidade de promover a emancipação dos beneficiados.

“Se cessarem agora os programas de assistência do governo, teremos imediatamente de novo a fome. No momento, superamos a fome, mas ainda no meu conceito, não superamos a miséria. É preciso continuar a lutar, devem ser dadas novas prioridades para que estas pessoas possam ser autônomas”, advertiu o arcebispo.

O Diretor geral da FAO, José Graziano da Silva, disse que o êxito do Brasil no combate à fome está se refletindo também na distribuição das riquezas.

“Hoje, a ênfase na distribuição de renda em um processo de crescimento levou o Brasil para um outro caminho que tem sido até agora bem sucedido”, reiterou Graziano.

Países que avançaram

Etiópia, Gabão, Gâmbia, Irã, Quiribati, Malásia, Mauritânia, Ilhas Maurício, México e Filipinas são os outros países que alcançaram a meta em reduzir pela metade, até 2015, o percentual de pessoas que passam fome.  Brasil, Uruguai e Camarões, além de atingirem este objetivo, conseguiram ainda alcançar a meta de reduzir pela metade até 2015 o número absoluto de pessoas que passam fome.

Graziano afirma que estes reconhecimentos representam bem a mudança de paradigma pela qual passam as políticas de combate à fome e a desnutrição da FAO.

“Ninguém gosta de expor a sua miséria.  Diante disso, a FAO passou a valorizar que tinham conseguido superar as mazelas. Com esse reconhecimento pelo lado positivo, e não para acentuar o número de crianças que morrem todos os dias ou ressaltar a indignação em relação à fome, a FAO procura valorizar os países e compartilhar as experiências positivas”, disse Graziano.

Segundo mandato

Durante a premiação,  o representante da Mauritânia declarou publicamente o apoio do país do norte da África para um segundo mandato de Graziano à frente da FAO. As eleições acontecerão em junho do ano que vem.

“Eu fiquei surpreso, não esperava, mas gostei, como candidato, de receber esse apoio”, declarou Graziano.