Rafael Belincanta
Direto de Túnis

O País que deu origem à Primavera Árabe teve as primeiras eleições livres após quase 30 anos no final de outubro. Depois de 25 anos de ditadura do ex-presidente Zine El Abidine Ben Ali, os tunisianos deram ao partido leigo – tido como anti-islâmico – Nidaa Tounes a maioria na Assembleia dos Representantes do Povo. Em segundo lugar ficou o partido da direita islâmica, Ennahda.

Apesar da abertura após o dia 14 de janeiro de 2011 – data da fuga do ex-presidente Ben Ali para a Arábia Saudita – à eleições multipartidárias e democráticas, o resultado reflete, por um lado, o desejo da Tunísia à plena democracia e, de outro, a manutenção dos preceitos do Islã num País onde 95% da população é muçulmana.

Duas vias que, inevitavelmente, poderão colocar a religião no centro dos debates, enquanto a estrutura do governo da Tunísia hoje resume-se aos 217 eleitos para a Assembleia dos Representantes do Povo – que substituiu o antigo sistema de governo com duas câmaras.

Com a vitória, o Nidaa Tounes terá o direito de indicar o nome do futuro primeiro ministro e formar um governo de coalizão. Contudo, as definições sobre o futuro político da Tunísia serão conhecidas somente depois do dia 23 de novembro, data das eleições presidenciais, a primeira desde a aprovação da nova Constituição, em janeiro deste ano.

Na Praça 14 de janeiro de 2011, centro nervoso da Revolução do Jasmim de 2011, hoje a vida parece transcorrer normalmente. As centenas de bandeiras do País espalhadas pela região central evocam o sentimento patriótico dos cidadãos. Todavia, o entusiasmo da mudança já não é visto com tanta intensidade, nem mesmo quando as estatísticas revelam uma queda continua nos índices de desocupação, atualmente em 15%.

Ao contrário de outros países de maioria muçulmana, a Tunísia é internacionalmente reconhecida por defender o direito das mulheres. De fato, elas ocuparam 27% da Assembleia Constituinte após o final da revolução e uma das grandes bandeiras por elas defendida é a educação.

“Não importa se o futuro governo será muçulmano ou não, se haverá mistura entre religião e política – o que acredito que não deva acontecer -, o importante é que a educação seja prioridade para o verdadeiro desenvolvimento da Tunísia”, afirmou a estudante Emna Ben Achour.

O fato é que a República Tunisiana, quando comparada aos demais países da Primavera Árabe, tem demonstrado ser capaz de virar a página da ditadura com respeito e já sem atos de violência.

A vizinha Líbia, por exemplo, passa por uma instabilidade crônica desde o assassinato de Muammar Ghedaffi. Inclusive, no final de julho, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil determinou que os atendimentos da Embaixada do Brasil em Trípoli fossem transferidos para a capital da Tunísia. Sem falar no Egito que vive uma nova ditadura e na Síria, desfigurada pela guerra civil.

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