Guarani-Kaiowá denuncia negligência do governo no Comitê dos Direitos Humanos

Guarani-Kaiowá denuncia negligência do governo no Comitê dos Direitos Humanos

MP3 A voz de um índio Guarani-Kaiowá ecoou na mais alta representação dos Direitos Humanos para denunciar a negligência do governo brasileiro em relação aos povos indígenas. Eliseu Lopes, professor e reconhecida liderança dos Guarani-Kaiowá, termina em Milão a sua passagem pela Europa onde teve a oportunidade de relatar as violências sofridas pelo seu povo na luta pelo reconhecimento do direito dos índios à terra.

“No Brasil já fizemos inúmeras reivindicações dos nossos direitos e denúncias, só que até hoje não recebemos nenhum resultado. Portanto, o socorro que os Guarani-Kaiowá estão pedindo agora se dirige principalmente às autoridades internacionais”, disse Eliseu à RV por telefone, em Milão.

A resposta da comunidade internacional ao apelo de Eliseu feito durante a 27ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, poderá vir por meio dos tribunais internacionais, afirma o coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul, Flávio Machado: “A iniciativa de promover a denúncia internacional e, agora, uma denúncia formal para que o Estado brasileiro seja demandado em cortes internacionais frente a essa negligência que resulta em morte dos povos indígenas”.

Cultura de preconceito e morte no Brasil

Estimativas das Nações Unidas apontam que as populações indígenas representam mais de 5% da população mundial, aproximadamente 370 milhões. No Brasil, hoje os índios estão reduzidos a 900 mil. Levantamentos da ONG inglesa Survival International detalham esse número: os índios do Brasil estão divididos em 240 tribos das quais provavelmente 77 ainda vivam isoladas.

A etnia Guarani é dividida em três grupos, que somam cerca de 60 mil indíos. A tribo mais numerosa é a Kaiowá, cujo território ancestral reivindicado encontra-se no estado de Mato Grosso do Sul. O CIMI denuncia ainda a escalada de ódio contra os índios nos últimos dez anos no Mato Grosso do Sul, onde um índio Guarani-Kaiowá é assassinado a cada 12 dias e outro comete suicídio a cada sete dias.

“Lamentavelmente os acordos políticos e ecônomicos que estão envolvidos – inclusive na eleição atual – não têm os povos indígenas como uma demanda principal a ser resolvida. O que importa são os acordos ecônomicos – o agronegócio – o desenvolvimento. Os índios são entendidos como um empecilho. Isso só se muda com uma política séria de respeito aos direitos que já existem em nossa Constituição e, acima de tudo, com o promover de um processo educacional que realmente mostre para a nossa sociedade quem são os povos indígenas”, disse o coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul.

Ativismo internacional

Há mais de 45 anos a ONG inglesa Survival International trabalha ao lado dos povos indígenas do Brasil para o reconhecimento das terras. “A Survival segue com esta campanha que pede ao governo brasileiro a demarcação imediata das terras dos Guarani evitando que mais pessoas morram”, confirma Sarah Shenker, responsável da campanha da ONG em favor dos Guarani-Kaiowá.

Legislação

O Brasil ratificou e introduziu como lei nacional a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre os direitos fundamentais dos povos indígenas e tribais. Entretanto, passados 25 anos da criação da Convenção e em meio a tantas propostas de emendas constitucionais, o Brasil, ao lado de Suriname, não aplica uma das principais recomendações e continua a ser o único país da América do Sul a não reconhecer o direito dos índios à propriedade da terra.

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Papa Francisco está preocupado com a situação da Argentina

Papa Francisco está preocupado com a situação da Argentina

Presidente da Argentina almoça com o Papa, na pauta a situação ecônomica do País.

 

Carta de próprio punho do Papa Francisco que chegou à Casa Rosada
Carta de próprio punho do Papa Francisco que chegou à Casa Rosada

Foi por meio de uma carta escrita a próprio punho no início deste mês que o Papa Francisco convidou a presidente Cristina Kirchner para o almoço deste sábado na Casa Santa Marta. O gesto demonstra a preocupação do pontífice, que se utiliza destes “recados” para realizar suas comunicações mais “urgentes”.

Esta foi quarta vez que Francisco recebeu a presidente da Argentina desde o início do seu pontificado. Em nota, o Vaticano disse que o encontro durou cerca de quinze minutos. Logo após a conversa privada, Francisco convidou toda a delegação argentina para almoçar com ele.

O conteúdo da conversa obviamente não foi divulgado, mas sabe-se que o Papa está preocupado com a situação econômica do seu país e que também “orienta” Kirchner para o processo de transição eleitoral após as eleições de outubro de 2015, disse à rádio América de Buenos Aires o padre Guillermo Karcher,  chefe do protocolo do Vaticano.

Ainda segundo Karcher, o Papa Francisco teria manifestado sua preocupação “pela governabil10685572_805870932810777_7273381223029022919_nidade da Argentina”, com crescentes tensões sociais no País devidas sobretudo à situação econômica da país.

Uma curiosidade do encontro: enquanto a presidente deu de presente ao Papa um quadro que retrata Evita Perón, ícone absoluto da Argentina, o Vaticano presenteou a delegação argentina com um quadro de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, à qual Papa Francisco tem particular devoção.

Talvez  seja justamente um milagre o que a Argentina mais precise neste momento em que a inflação beira 40% ao ano e um novo calote na dívida pública irritou os financiadores, sobretudo aqueles norte-americanos.

Aliás, daqui do Vaticano, Cristina Kirchner embarca para Nova Iorque onde participa da Assembleia Geral das Nações Unidas.

 Áudio na RFI

 

 

África continua a região mais desnutrida do mundo; Brasil vira exemplo de combate à fome

África continua a região mais desnutrida do mundo; Brasil vira exemplo de combate à fome

Nunca se produziu tanto alimento quanto em 2014. Apesar disso, 805 milhões de pessoas ainda não têm acesso à uma alimentação digna e estão subnutridas, segundo o relatório anual da ONU sobre a fome no mundo em 2014.

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Meninos na pausa para o almoço em um escola na Tanzânia, em 2013. Merenda é garantida por meio de um programa insipirado no Fome Zero do Brasil.

Foi apresentado nesta terça-feira (16.09), em Roma, na sede da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o relatório anual sobre a fome no mundo em 2014. A apresentação este ano foi antecipada para que, na próxima semana, os resultados possam ser divulgados durante a Assembleia geral das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Nunca se produziu tanto alimento quanto em 2014. Apesar disso, 805 milhões de pessoas ainda não têm acesso a uma alimentação digna e estão subnutridas. A situação paradoxal afeta principalmente as populações nos países em desenvolvimento, que concentram 791 milhões dos subnutridos.

África desnutrida: o caso dos PALOP

Somente na África, são 226 milhões os subnutridos, o que representa 22% da população do continente. Numa caminhada contrária ao resto do planeta, o número de pessoas famintas na África tem aumentado desde 1990.

Para se ter uma ideia, somente, Angola e Moçambique somam 11 milhões de subnutridos. Apesar de Angola ter alcançado a meta do desenvolvimento do milénio ao reduzir pela metade a proporção de pessoas subnutridas, atualmente 4 milhões de angolanos não conseguem comer com dignidade. Um sinal claro de que a desigualdade social é um fator que impede o desenvolvimento pleno do país. Em mais de 20 anos de luta contra a fome, Moçambique reduziu a proporção da população subnutrida em 50%, caminha para atingir a meta de desenvolvimento do milênio, mas continua a ser pátria de 7 milhões de subnutridos.

A redução da pobreza e da percentagem de pessoas com fome é também bastante visível outros PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Na Guiné-Bissau, a descida é menos significativa: apenas 23,5%, correspondente à redução da fome na população.

Em Cabo Verde, a redução é de 38,9%, equivalente à descida na percentagem da população com fome de 16,1% em 1990 para 9,9% este ano. Em São Tomé e Príncipe, a percentagem de pessoas malnutridas desceu de 22,9% para 6,8%.

O  diretor geral da FAO, José Graziano da Silva, traça um rápido panorama de alguns obstáculos que fazem com que África hoje, infelizmente, esteja a perder a luta contra a fome.

“Nós vemos hoje que ainda há muitas limitações estruturais para os investimentos privados na agricultura africana. Eu começaria pela instabilidade político-social, e o conflito que existe em boa parte dos países da região. Ninguém vai investir num país com instabilidade política e social. Porém, temos visto que os governos não têm dedicado recursos suficientes para prover a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento das áreas rurais. Sem infra-estrutura, também, o setor privado não vai investir na agricultura dos países africanos.”

Apesar da falta de estabilidade e infra-estrutura, alguns países africanos são modelos a ser seguidos, lembra o diretor-geral da FAO. “Eu destacaria o Gana e o Malawi, que apesar de todas essas adversidades, conseguiram dar um avanço significativo na redução dos subnutridos.

O exemplo do Brasil

As políticas públicas de combate a fome no Brasil ganharam capítulo especial. O país não somente atingiu a meta de desenvolvimento do milênio (diminuir pela metade a proporção de pessoas que passam fome até 2015) assim como o objetivo mais árduo estabelecido pelo World Food Summit em reduzir pela metade o número absoluto de pessoas que passam fome.

“Particularmente, no caso do Brasil isso chama muito a atenção. O Brasil, por ter 200 milhões de habitantes, puxa os números [da América Latina] e o que nós vimos no Brasil durante toda a década passada, a partir do ano 2000, foi um forte decréscimo no número de pessoas subnutridas. Se tomarmos os triênios a partir de 2002, o decréscimo é de -1,7%, em 2005-2007, passa a -5%, mantém-se em -5% em 2009-2012 e aumenta para -5,1% no período recente, de 2011-2013”, finalizou o diretor geral da FAO, José Graziano da Silva.

Links originais: DW e RV

Viajando sozinho pela Sicília – e ilhas menores

Viajando sozinho pela Sicília – e ilhas menores

As ilhas Egadi, na ponta ocidental da Sicília, são, sobretudo, destino de verão dos próprios sicilianos. Italianos de outras regiões, contudo, também são numerosos. Raros, porém não menos frequentes, são os turistas estrangeiros que chegam, na maioria, nos navios de cruzeiro que atracam em Trapani ou Palermo. Ultra-raros, todavia sempre com o pé na estrada, são os viajantes “individuais”.

Área central de Palermo, próximo ao Spasimo
Área central de Palermo, próximo ao Spasimo

Foi em Palermo que cheguei com um low-cost da Vueling saído de Roma – Fiumicino, em um trajeto percorrido em menos de uma hora. A capital da Sicília, por assim dizer, é uma cidade jovem e com muitos locais interessantes a serem descobertos. Consegui um B&B a preço módico via Airbnb no coração da cidade, mercado Vucciria. Movimentado durante a semana e, em especial, nos fins de semana, quando a situação é caótica. Povo grita mesmo. Se não quiser descer e participar do vuco-vuco, comer as coisas típicas, use tampões para dormir. Cheguei em Palermo no final de agosto, quando justamente soprava o Scirocco, um vento quente que eleva a sensação térmica para níveis marcianos, uma coisa tipo Teresina.

Na Sícilia os trens não funcionam como no resto da Itália, exceção para a linha Palermo-Cefalù, que é bem servida, numa viagem que dura cerca de uma hora. Cefalù é uma típica cidade à beira-mar que durante o verão é invadida pelos turistas. A faixa de areia branca é tomada, obviamente. Evitando essa muvuca tipo Jurerê em fevereiro, à direita ao final da praia estão as rochas. Ali, é possível encontrar um lugar tranquilo longe da gritaria, porém sem areia, o que na Itália não é prioridade.

Detalhe de uma das bancas do mercado Ballarò
Detalhe de uma das bancas do mercado Ballarò em Palermo.

Terceiro dia de aventuras, busão da estação central de Palermo para Monreale. O lance improvisado na Sicília supera o Brasil, sem mentira. Tanto é que era o tiozinho que vende uns badulaques no ponto do busão que detinha os horários de partida e chegada do bus para Monreale. Também questão de uma hora para chegar. Lá no alto o calor deu uma aliviada. Visita à praça central e à catedral, patrimônio da Unesco. Vale a pena subir nas torres para ter um visual do alto de Palermo e da Conca d’Oro, o conjunto das montanhas que circunda a cidade. Almoço num restaurante típico ao lado da catedral, preço justo e uma Pasta alla Norma como tem que ser. Monreale é pequena, portanto pode ser visitada em meio-dia. Tendo em consideração que após o almoço a vida volta ao normal depois das 16h, sabe-se que essa “tradição” também atinge os ônibus. Espero por mais de uma hora para voltar a Palermo.

Chegando à cidade, na praça do Teatro Politeama, pego outro busão em direção a Mondello, a praia mais limpa e próxima de Palermo. Ok, águas limpas, etc e tal. Todavia, os italianos quando vão pra praia se instalam com casa, cachorro e tudo mais. A maior parte da extensão da areia é privada, resta pouco espaço livre e este, claro, superpopulado. Vazei. Melhor continuar a noite no centro de Palermo, que é cheia de vida e…botecos! A região do porto nas imediações da via Vittorio Emanuele concentra uma centena de restaurantes e botecos, mesas do lado de fora, claro. Uma coisa meio Brasil: calor, algazarra, música. Lugar ideal para encontrar outros viajantes e conhecer o povo da cidade.

O dia seguinte dedico a Palermo com uma incursão pelas vielas do mercado Ballarò. Uma experiência olfativa intensa. E visual também: algumas boas 200 fotos tiradas. Mercado tradicional que representa bem a cultura meridional italiana, com a fusão de culturas típicas daquela parte da Sicília.

Scala dei Turchi, província de Agrigento. Dizem que o pôr do sol é fantástico. Não pude conferir, infelizmente!
Scala dei Turchi, província de Agrigento. Dizem que o pôr do sol é fantástico. Não pude conferir, infelizmente!

Longe de Palermo, haviam dito que valia muito a pena conhecer o Vale dos Templos e a Scala dei Turchi, na província de Agrigento. Ida e volta no mesmo dia, de busão, valeu muito a pena. Cruzei uma parte interna da Sicília que é muito diferente do litoral. A viagem demorou algo como uma hora e meia. Chegando em Agrigento, o ônibus para o Vale dos Templos saiu rapidinho. Caminhar pelo Vale, contudo, foi devagarinho. O calor piauiense sem ao menos uma brisa às 11h da manhã era de matar. Acho que desidratei, mas não amarelei. Muita água e muita espera pelo ônibus que depois iria me deixar “próximo” a Scala de Turchi. Estendi à toa o dedo para pedir uma carona, recebi vários sinais de negativo. Enfim, o ônibus passou e me deixou a uns cinco quilômetros da Scala. Continuei em vão meus pedidos de carona. Caminhei uns bons 2 quilômetros até que um casal de Torino me deu uma carona até a escadaria para descer. Valeu muito a pena. O lugar é único e dizem que o por do sol é magnifíco, não pude ficar para ver. Lá, pelas coincidências do destino, encontrei brasileiros que vivem em Roma que me ofereceram uma carona para voltar para Agrigento, assim pude curtir a praia por mais tempo!

Hora de mudar de base. Destino: Trapani. Ali também por meio do Airbnb achei um apê dos anos 50 super inteiro todo pra mim por um preço módico. Sabia que não era no centro histórico, mas a distância seria facilmente coberta pedalando. Primeira medida em Trapani, limpar o sensor de imagem da câmera. Segunda: alugar uma bike. Por oito dias paguei 45 euros. Justo, cinco por dia. Rodei toda a cidade, o porto e as praias durante a tarde.  Pôr do sol nas salinas, com moinhos de vento e flamingos ao longe. No mesmo passeio estava uma família da Lituânia que, mais tarde, descobri estar hospedada pertinho do meu apê. Voltamos juntos pedalando e trocando experiências dos locais visitados!

Dia seguinte: início da exploração das Ilhas Egadi. A primeira: a menor, Levanzo. Embarquei, junto com a bike, na “nave” porque no ferry rápido não dá pra embarcar a bike. Pouco menos de duas horas e chegamos. A ilha é pequena e cheia de surpresas. Algumas “cala” de tirar o fôlego. Indo à direita a partir do porto é possível seguir as trilhas. Cabeção, ao invés de deixar a bike no porto, me meti nas trilhas com a magrela. Resultado: pneu furado. Voltei ao porto, deixei a inutilizável bicicleta ali e fui me informar sobre como visitar a Grotta dei Genovesi. Lugar ancestral que vale muito, mas muito mesmo a pena conhecer. Seguir pela trilha que sai do porto, contudo, é fora de cogitação. Chegar de barco e voltar pela trilha só se tiver tempo. O importante é ir até este local ancestral que era o topo de uma montanha quando a ilha de Levanzo era ligada à Sicília. Lá, no cume, as populações pré-históricas neolíticas e paleolíticas deixaram seus sinais nesta caverna que, ao que tudo indica, era um lugar sagrado. Tais sinais semelhantes são encontrados também na Espanha e na França, num veradeiro quebra-cabeça antropológico. O guia que nos explicou era muito simpático. Não permitiu contudo que fossem feitas fotos, mas não foi preciso. Grotta dei Genovesi, nota 10.  De volta a Trapani, já é noite, momento para saborear uma típica granita artesanal e depois comer uma deliciosa pasta alla norma (dieta elementar), não necessariamente nesta ordem!

Eu e a bike na cala Azzurra em Favignana
Eu e a bike na cala Azzurra em Favignana

Segunda das ilhas: Marettimo. Uau. Jurassic Park. A mais distante das três ilhas. Não demora muito porém para chegar com o ferry veloz. Já na chegada, ali mesmo no porto, o serviço de volta à ilha de barco é oferecido. Um dia inteiro para contornar a ilha por 15 euros. Vale a pena, claro. O dia estava lindo e o mar de almirante. Saio num barco com outras 10 pessoas. Para minha sorte, o irmão do comandante passa com outro barco onde estavam só três pessoas: obviamente pulei para o lado de lá. Com mais calma e sem o frenesi de umas crianças mal acostumadas e de umas mães italianas histéricas e super protetoras, a volta à ilha transcorreu maravilhosamente em paz. Acho que paramos umas 5 vezes para tomar banho. Todos os locais fantásticos. Os paredões da ilha altos quase 600 metros dão uma sensação de isolamento selvagem. As grutas formadas pela ação da água e do vento reservam uma surpresa a parte e, para mim, algo que jamais esquecerei. Numa das paradas para banho, uma gruta especial. É preciso nadar uns 10 metros adentro, tudo vai ficando escuro. Tocar as paredes lisas de calcário completa o cenário de fantasia. No fundo, uma pequena praia de pedrinhas brancas e escuridão total. Depois que os outros sairam, continuei ali sozinho por uns 10 minutos. Sentado, ouvindo as pequenas ondas reverberarem junto aos bíjá. Quando olha-se para trás, apenas um ponto de luz incide através das rochas diretamente na água azul turquesa cristalina e guia para a saída. Um lugar idealizado até mesmo para os contos de fada, sem dúvidas.

Pôr do sol a bordo da "nave" saíndo de Favignana.
Pôr do sol a bordo da “nave” saíndo de Favignana.

Terceira das ilhas: Favignana. Outra vez “nave” e bike. Sem vacilos, rodei toda a parte sul da ilha que é plana. Em meio-dia passei pelas principais “cala”, azzurra e rossa. Como estavam lotadas, claro, nem parei. Sempre deixando-me guiar pelos sentidos, acabei encontrando um lugar nas pedras com um mar tranquilo onde quase ninguém se aventurou a descer. Exceção para uns moloques que queriam pular das pedras, alta uns 10 metros. Saltos feitos, logo foram embora. Favignana tem centro histórico muito legal e eu queria comer um cous-cous, típico da região, herança gastronômica árabe. Nos restaurantes não encontrei nada e, quando ia em direção ao porto, acabei cruzando com um restaurantezinho onde tinha cous-cous fresquinho e vegetariano, feito por uma vegetariana. Viva! A guria deveria ter menos de 20 anos. Perguntei porque ela tinha decidido ser vegetariana. Porque me faz sentido, respondeu. E, de fato, essa é a melhor resposta.

Ilhas terminadas, dia para ir a San Vito lo Capo e conhecer Scopello e a Reserva Natural do Zingaro. Em Trapani, no Arancio Tourist onde aluguei a bike, eles me reservaram a ida ao Zingaro em barco por cinco euros. Valeu muito a pena. O mar estava mexido, não fizemos tantas paradas para banho, mas admirar a beleza incontaminada da reserva foi excepcional. Fiz minha boa ação traduzindo as infos da guia, muito simpática por sinal, para um casal da Suécia. San Vito lo Capo segue os padrões de Mondello, ou seja, cheia e privada. À esquerda, contudo, existe uma grande área livre onde fiquei muito bem por umas três horas enquanto aguardava a saída do barco. Volta para casa, no ponto a espera do bus estava a família de lituanas muito simpáticas. Patati patatá durante o retorno. Anoitece.

O fim das férias se aproximam: uma vez em Trapani, não tem sentido não descer até Pantelleria, argumento comigo mesmo durante a noite. De fato, no dia seguinte, me informo das partidas e me confirmam que o ferry rápido sai as 13h. Não tenho dúvidas, compro ida e volta. Dois dias em Pantelleria e depois voltaria para Roma, feliz da vida.

Um "Dammuso" em Pantelleria.
Um “Dammuso” em Pantelleria.

Sempre que via no google earth Pantelleria perdida no Mediterrâneo, mais próxima da África do que da Itália, imaginava uma ilha toda pitoresca, não paradisíaca. Para os italianos, a referência é sempre aquela da casa de Giorgio Armani, ou daquela de Gerard Depardieu e outras chiquerias. Mas o que importa é que chego as 4 da tarde, em 15 minutos descolo um quarto onde ficar e as 5 estou na bike (15 euros meio-dia – os preços na ilha são muito mais salgados). As cinco e meia chego no Lago de Vênus e dali não quero mais sair: as águas sulfúricas que são apenas uma das manifestações vulcânias secundárias presentes em toda a ilha (que na verdade é um vulcão adormecido) aliviam as tensões. Sem contar na lama terapêutica natural. Já é escuro quando resolvo sair das piscinas naturais, dedos enrrugados da hidrólise. Moleza no corpo, mesmo assim subo com a bike a íngreme ascendente antes de embocar a perimetral de Pantelleria. Dia seguinte, último dia, volta à ilha de barco. Outra vez, mar de almirante, céu de brigadeiro.

Paradas sensacionais para o banho. Já na primeira, fontes de água doce termais dentro do mar! Uma mistura de água quente, quentíssima, com as águas do mediterrâneo. Ninguém queria sair dali, nem os peixes! Uma experiência a ser feita e não escrita. Partimos as 10 horas da manhã e as 18h estávamos de volta ao porto. Ver toda a ilha da perspectiva de quem está a bordo foi inesquecível: salve a ilha preta!

No fim do passeio, rumores de que um vento fortíssimo se abateria sobre a ilha nas próximas horas, impedindo a navegação (o meu retorno a Trapani) e comprometendo os voos. Dito e feito. Na segunda-feira pela manhã pego um micro-ônibus e vou para o lago, na volta, consigo uma carona. Da perimetral vemos as ondas altíssimas. O motorista me diz: por três dias ninguém sai ou entra da ilha. Oba! Por vias das dúvidas, fui até a bilheteria e me deparei com o fatídico aviso de que o ferry rápido não sairia. Viva o improviso! Aviso no quarto que ficarei por mais alguns dias, alugo um 600 e vou dar a volta a ilha, desta vez de carro! O vento não perdoa!

Se na costa o vento é implacável, subindo em direção às pequenas planícies no interior da ilha, a intensidade diminui. Com o mapa da ilha no banco do carona, subo em direção à Montanha Grande. No caminho, vejo os mais variados tipos de dammuso, construções típicas pantescas, intercalados com os vinhedos. Não resisto e roubo um cacho de uva zibbibo, matéria prima do Passito de Pantelleria e dos vinhos da ilha. Ali, os parreirais são muito baixos para que os cachos fiquem protegidos do vento que sopra constantemente. Acaba a planície, enfrento uma longa trilha para chegar à Favara, local de outras manifestações vulcânicas secundárias: vapores de água quente que saem das fendas das rochas às vezes acompanhados de ácido sulfídrico. O bacana neste caso foi o caminho para chegar às fendas. E as fotos. Ainda à caça dos eventos vulcânicos secundários, próxima parada, Grotta Benikulà, ou sauna natural. Uma outra fenda, dentro de uma rocha, onde cabem seis pessoas sentadas. O vapor natural surge das profundezas e ali sim sente-se o seu calor e atuação no corpo. Ao sair da sauna, o bom é ter uma garrafa d’água para se refrescar, e outra para beber. Ali mesmo, um pequeno terraço em direção oeste garante o pôr do sol na África! Depois da sauna, nada melhor que as águas quentes do lago de Vênus. A lua crescente garantia a permanência também na clara noite da ilha preta!

 

Pôr do sol em Pantelleria
Pôr do sol em Pantelleria, a Ilha Preta.

No terceiro dia o vento torna-se quase brisa, o mar acalma. Os primeiros barcos começam a deixar o porto. Sinal de que o ferry veloz deverá zarpar e que minha aventura em Pantelleria vai terminar. De volta à ilha-mãe, tempo de subir em Erice, com a bike no bondinho, comer um Genovese alla nutella e descer a montanha. Ali, com o calor do vento no rosto, começo a repassar as férias, as aventuras e a libertação que é estar longe da zona de conforto e das comodidades quotidianas. Viajar sozinho é, antes de tudo, um percurso interior no qual muitos paradigmas são rompidos. É aprender que (lá vem clichê) não importa onde se vai chegar e sim a estrada percorrida. É sorrir quando perguntarem: passagem para quantos, mesa para quantos, quarto para quantos. É saber valorizar o imprevisto e assumir, de uma vez por todas, que “Deus nos criou livres, porém não independentes”.