Papa Francisco e Alto Comissário da ONU discutem situação dos refugiados

Papa Francisco e Alto Comissário da ONU discutem situação dos refugiados

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António Guterres foi recebido em audiência pelo Papa Francisco, esta sexta-feira (06.12), no Vaticano, onde discutiram os refugiados. Ambos expressaram ainda as suas condolências pela morte de Nelson Mandela.

Globalização da indiferença. De acordo com o Papa Francisco, é este o fator que tem provocado os milhares de mortes de imigrantes africanos e do Oriente Médio na travessia do Mediterrâneo em direção à Europa.

Quando esteve no centro dessas tragédias – a ilha italiana de Lampedusa – ,em julho, o Papa Francisco explicou as causas desse fenômeno, afirmando que “a cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: bonitas, sim, mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório”. Para o Papa, “esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença”.

Papa Francisco celebra uma missa na ilha de Lampedusa

Para explicar o panorama atual dos fluxos migratórios, António Guterres fala em “mega-tendências”. “O crescimento da população, a urbanização, as alterações climáticas, a insegurança alimentar, a escassez de água, todas elas se vão combinando mais e mais, inter-influenciando mais e mais, num mundo que está cada vez mais pequeno, em que há limitações físicas ao crescimento económico, os desastres naturais são mais frequentes, mais intensos e com piores consequências humanitárias”, afirmou o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

Guterres considera que “há uma aceleração da desertificação em várias zonas do mundo onde as pessoas não podem mais viver. Tudo isso faz com que cada vez mais haja gente obrigada a fugir para poder sobreviver”. “Eu diria que é mais que indiferença, diria que em muitos casos é rejeição”, conclui.

Lampedusa no centro da tragédia

Na sua mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2014, num texto publicado em a 4 de agosto, portanto, depois sua visita à Ilha de Lampedusa, o Papa Francisco escreveu: “Os migrantes e refugiados não são peões no tabuleiro de xadrez da humanidade” e “os fluxos migratórios contemporâneos são o maior movimento de pessoas, se não de povos, de todos os tempos”.

Dois meses mais tarde, a ilha de Lampedusa voltava às manchetes internacionais. Outros 300 imigrantes mortos no enésimo naufrágio. Naquela manhã de 3 de outubro, o Papa Francisco voltava a pronunciar-se: “Não posso deixar de recordar com profunda dor as numerosas vítimas do último, trágico, naufrágio ocorrido hoje ao largo de Lampedusa. Vem-me a palavra vergonha. É uma vergonha”.

Essa austeridade no bloqueio das fronteiras da União Europeia aos refugiados africanos e o Oriente Médio é criticada por Guterres, que afirma que “é trágico que uma família Síria que já sofreu enormemente com uma guerra devastadora tenha que se colocar na mão de traficantes e contrabandistas para poder chegar à Europa. Só isso é uma tragédia e só isso demonstra que algo está fundamentalmente errado nos movimentos de população”.

Para Guterres, “ainda é mais trágico que alguns tenham dificuldades em chegar à fronteira e que até haja situações de retorno forçado por parte de alguns países europeus“.

Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres

O retorno voluntário dos somalis no Quénia?

Situação de preocupação também no Quénia, onde vivem mais de 500 mil refugiados somalis, muitos dos quais forçados a deixar os campos de refugiados. Em busca de uma solução pacífica, a agência da ONU para os refugiados, o ACNUR, estabeleceu acordos com os governos queniano e somali para incentivar o retorno voluntário.

“O regresso voluntário será condicionado pelas dificuldades que ainda existem na Somália. Tenho esperança que com os acordos isso possa ser feito de uma forma gradual e voluntária, no respeito da dignidade e segurança das pessoas”, afirmou o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

Papa Francisco e António Guterres lamentam morte de Mandela

Também esta sexta-feira, num telegrama enviado ao presidente sul-africano, Jacob Zuma, o Papa Francisco expressou as suas condolências pela morte de Nelson Mandela. “Soube com tristeza da sua morte”, afirmou. “Louvo o firme compromisso demonstrado por Nelson Mandela: promover a dignidade humana de todos os cidadãos da Nação e forjar uma nova África do Sul, construída sobre os alicerces firmes da não violência, da não agressão e da verdade. Rezo para que o exemplo do ex-presidente inspire as gerações da África do Sul a colocar a justiça e o bem comum no topo das suas aspirações políticas”, foram as palavras do Papa Francisco

António Guterres comentou também o legado de Nelson Mandela, falecido esta quinta-feira (05.12), considerando que “é um símbolo dos valores de tolerância, no caso dele, mais do que tolerância, de perdão. De estender à mão a quem o tinha preso, a quem o tinha maltratado, a quem tinha sacrificado o seu próprio povo e, de fato, um homem com uma visão extraordinária de compreender que é no perdão e na reconciliação que é possível construir o futuro. Se esse exemplo pudesse ser seguindo em tantos outros países do mundo não viveríamos a tragédia que estamos a viver”.

Prandelli propõe intervalos nos jogos da Copa e sonha em final com Brasil

Prandelli propõe intervalos nos jogos da Copa e sonha em final com Brasil
Cesare Prandelli, treinador da seleção italiana de futebol disse nesta terça-feira, em Roma, que a Federação Italiana de Futebol (FIGC) deve propor à Fifa que nos jogos da Copa do Mundo do Brasil sejam efetuados pequenos intervalos durante as partidas. A argumentação é o calor excessivo que poderá comprometer o rendimento dos jogadores que não estão acostumados com o clima brasileiro.

Cesare Prandelli teme enfrentar Alemanha de forma prematura na Copa Foto: AP
Cesare Prandelli teme enfrentar Alemanha de forma prematura na Copa
Foto: AP
  • Rafael Belincanta
  • Direto de Roma (Itália)

— A Itália terá um grande problema no Brasil: em algumas cidades a combinação calor e umidade é preocupante e já sentimos isso na pele durante a Copa das Confederações. Se queremos dar um espetáculo ao mundo, devemos também dar a possibilidade aos jogadores de dar espetáculo. Gostaria de propor que fossem feitos dois “time-out” para matar a sede dos jogadores. A Fifa havia colocado, durante a Copa das Confederações, garrafas d’água perto do gol. Se virmos as imagens, antes de qualquer escanteio, todos estavam ali bebendo. Existe o risco de jogar a bola pra escanteio para poder tomar água. Talvez seria melhor parar por dois minutos e consentir aos jogadores de matar a sede. Nunca tinha visto oito de 11 jogadores me pedirem para serem substituídos durante uma partida: sem hidratação corre-se o risco de haver uma redução na concentração, argumentou Prandelli.

O treinador azzurro prefere esperar até o sorteio dos grupos da Copa do Mundo, marcado para esta sexta-feira, para anunciar a cidade na qual a seleção italiana ficará durante o mundial. Entretanto, são duas as possibilidades: Mangaratiba, no Rio de Janeiro ou a região metropolitana de Belo Horizonte. Prandelli viajará à Costa do Sauípe para acompanhar o sorteio dos grupos.

Sobre os favoritos ao título, Prandelli citou Brasil, Alemanha, Argentina e Espanha. Fala ainda de seleções que poderão surpreender: Bélgica e Colômbia. Apesar da Itália não ser cabeça de chave, o treinador lembra do histórico da seleção Azzurra, de inícios difíceis em mundiais mas que se convertem em uma atuação forte, como o caso daquela de 2006, quando a Itália conquistou o tetracampeonato na Alemanha. Todavia, a mesma Alemanha é o adversário a ser evitado em 2014.

–– Por tradição – observa – nos grupos difíceis, chegamos preparados. Do contrário, se o grupo é fácil, encontramos dificuldades, é a nossa história. Prefiro então um grupo forte e, depois, jogaremos. Aquilo que não quero é encontrar de cara a Alemanha, disse que queria um grupo forte, mas não tanto. Melhor seria encontrá-la na final. A Alemanha é um exemplo para todas as seleções que tem vontade de mudar, experimentar e estar no compasso dos tempos, disse Prandelli.

Perguntado pelo Terra se, depois da derrota por 4 a 2 na Copa das Confederações, ainda vislumbrava uma final entre Brasil e Itália na Copa do Mundo, Cesare Prandelli foi enfático.

–– [A seleção brasileira] é uma equipe única, pode vencer ou perder o Mundial e depende somente dela mesma. Partiram da Copa das Confederações programando um time, com a ideia de que a prioridade é a seleção principal. Deram tempo para que Scolari pudesse treinar o time. Acredito que para a Copa do Mundo o Brasil terá 45 dias de preparação enquanto nós teremos somente duas semanas. Essas são algumas diferenças. Contudo, somos todos torcedores, mas primeiro existe essa programação e o Brasil está se preparando para a vitória final. Se me enxergo no Maracanã para a final com o Brasil? Quando alguém sonha deve sonhar alto, então sonhamos com essa partida, afirmou Cesare Prandelli.

 

Vítimas de violência, transexuais brasileiras viram alvo na Itália

Vítimas de violência, transexuais brasileiras viram alvo na Itália

Cidade da Utopia. É neste Centro Cultural alternativo na periferia de Roma que a Associação Libélula ocupa um espaço. A presidente, a transexual brasileira Leila Daianis, radicada em Roma há 33 anos, recebeu a reportagem do Terra enquanto atendia duas associadas. Uma transexual de Nápoles e outra francesa. Uma outra transexual brasileira aparece: havia terminado uma sessão de “aconselhamento”.  

[vimeo http://vimeo.com/80660541]

Não existe uma estatística oficial, mas um levantamento da Associação Libélula revela que atualmente aproximadamente mil transexuais brasileiras vivem na Itália. Ideologicamente comprometida em dar voz e imagem a essa comunidade invísivel aos olhos da sociedade e da legislação, Leila Daianis é referência para as transexuais em Roma e na Itália, e não somente às brasileiras.

“Recebemos pessoas de todos os lugares, e não só transexuais. Acolhemos estas pessoas, aconselhamos e procuramos dar apoio nos mais variados aspectos, desde um aconselhamento informal até assistência jurídica e registro civil”, explica.

Não é preciso uma estatística oficial para entender o motivo que impulsiona tantas transexuais brasileiras a atravessarem o Atlântico em direção à Europa: uma vida melhor longe da violência do Brasil. Muitas vezes, os primeiros contatos com os “vendedores de sonhos” acontecem ainda em solo brasileiro, com falsas promessas ou até mesmo uma passagem aérea paga cujo retorno, entretanto, não é garantido.

Um cidadão brasileiro pode permanecer na Europa, sem visto, por no máximo três meses. Se deseja prolongar a permanência, deve apresentar um motivo à imigração. É justamente nesse momento no qual o ‘estar ilegal’ passa a ser uma realidade que muitas transexuais brasileiras começam a perceber que o sonho de viver na Europa não era tão dourado assim.

“Antes de vir para a Itália, deve-se pensar em quantas são as barreiras que existem aqui. Uma delas são as normativas. Porque se a pessoa não vem com um trabalho, com uma coisa já certa, é inútil vir, porque depois passa a ser irregular, passa a cometer um crime na Itália. Pessoas sem documentos regulares são consideradas criminosas”, adverte Leila.

Discriminação

Na Itália a transfobia tem capítulo específico dentro de propostas de leis que estão sendo apresentadas – com muita fadiga pelos movimentos LGBT – ao Parlamento, portanto ainda não é passível de punição legal.

“Aqui na Itália existe muita discriminação, mas é uma discriminação diferente. Te tratam bem para poder ver você longe, um pouco como acontece em toda a Europa. Os europeus são assim, eles te tratam, te ajudam, mas querem uma distância.”

Troca de sexo na Itália

A Cirurgia de Redesignação Sexual (CRS) custa, na Itália, entre 25 e 30 mil euros. A Organização Mundial de Saúde considera a transexualidade um transtorno de identidade de gênero. A avaliação de um médico é necessária para identificar tal transtorno e, necessariamente, para autorizar a cirurgia. Contudo, no caso de cidadãos brasileiros, não basta pagar para realizar a operação na Itália, como explica Leila.

“É preciso ter residência na Itália. Uma pessoa em situação ilegal não pode fazer. É possível, todavia, fazer tratamentos médicos e endocrinológicos. Para isso, existe uma lei que autoriza os estrangeiros a obterem esses tratamentos temporariamente. Porém, não é possível entrar com o pedido para a CRS.”

Prostituição

Na Itália as estatísticas da violência contra as transexuais revela que as brasileiras estão entre as maiores vítimas de homicídios, na maior parte ligados à prostituição.

“De acordo com o Transgender Europe (ONG de apoio a transexuais na Europa), na Itália, nos últimos cinco anos foram assassinadas 20 transexuais, a maioria brasileira”, recordou Leila durante uma manifestação na Piazza del Popolo, no centro histórico de Roma.

A maioria das transexuais brasileiras na Itália se prostitui e muitas o fazem pelo dinheiro necessário para fazer a CRS, seja no Brasil ou na Europa. Porém, nessa busca, muitas transexuais brasileiras terminam mortas. Isso porque, se por um lado, muitas trans também querem fugir do Brasil, país com a maior taxa de assassinatos de transexuais do mundo, média de 95 por ano, de outra parte, a Transgender Europe revela que a Itália é o país europeu menos tolerante com as transexuais.

Questão de gênero

Leila chama a atenção para um erro comum nas tantas denominações da comunidade LGBT. Dentro do “T” estão os transexuais e os transgêneros. Os indivíduos transexuais trazem uma identidade de gênero oposta àquela do gênero biológico e nisto vem acentuada a necessidade de viver e ser aceito como pertencente ao sexo oposto. Nada a ver com a denominação “travesti”, – não usada na Itália – que identifica um sujeito que se veste como sendo do sexo oposto mas mantém a identidade de gênero.

Os mesmos conflitos de identidade de gênero são observados no indivíduo transgênero, contudo este não expressa a necessidade de viver e ser aceito como pertencente ao sexo oposto, uma vez que transitam entre um gênero e outro. Exemplo são as drags queens que, por desejo pessoal ou profissão, usam roupas do sexo oposto e não são, necessariamente, homossexuais.

“É importante que o foco – na questão dos direitos – não fique somente nos gays, mas também nas lésbicas e nas pessoas trans. Tem que ter uma paridade na própria comunidade LGBT porque o nosso ‘T’ está ali, mas é muito importante lembrar que aquele ‘T’ precisa ser valorizado, precisa ter dignidade também como os gays”, conclui a presidente a Associação Libélula.