ONG libanesa passa por mudanças para se adaptar ao êxodo sírio

ONG libanesa passa por mudanças para se adaptar ao êxodo sírio

Reportagem gravada em Barelias, Líbano, sede da Lebanese Active Youth (LAY), ONG criada pela brasileira Yasmin Dalle. Em setembro de 2013, a LAY era ONG de referência para o Save de Children e para a ONU na região da fronteira com a Síria. Cerca de 1000 crianças e jovens são atendidos todos os dias.

“Pensar em futuro agora? Não, devemos esperar”, diz refugiado sírio no Líbano

“Pensar em futuro agora? Não, devemos esperar”, diz refugiado sírio no Líbano

Confira o depoimento de um refugiado sírio que fugiu para Beirute

Centros de identificação são referência para refugiados sírios no LíbanoClique no link para iniciar o vídeo
Rafael Belincanta
  • Direto de Beirute

No centro de cadastro da Agência da ONU para os Refugiados, em Beirute, encontramos a família do sírio Bassel Rihavi. Ele, a esposa e quatro filhos dependem do auxílio internacional para sobreviver.

“Espero que nos ajudem economicamente, que nos forneçam alimentos e, se possível, agora com o início do ano escolar, vagas para as crianças. Fugi por temer pela vida dos meus filhos. Não suportava mais aquela situação que a cada dia se tornava ainda mais perigosa”.

Como o status de refugiado não é uma escolha, Bassel quer voltar. “Assim que a situação se acalmar, quero voltar. Mas há poucos dias minha sogra e quatro irmãos foram mortos. Pensar em algum futuro agora? Não, devemos esperar.”

Com embaixada em Damasco fechada, Brasil atende pedidos sírios no Líbano

Com embaixada em Damasco fechada, Brasil atende pedidos sírios no Líbano

A equipe do Consulado geral do Brasil em Beirute Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
A equipe do Consulado geral do Brasil em Beirute
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
  • Rafael Belincanta
  • Direto de Beirute

Dados preliminares do Itamaraty revelam que, desde o início do conflito na Síria, 1.490 vistos foram concedidos a cidadãos sírios. Já o site do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão ligado ao Ministério da Justiça brasileiro, informa que, em 2012, 138 pedidos de refúgio feitos por cidadãos sírios tiveram o status reconhecido.

A embaixada no Brasil em Damasco foi fechada em julho de 2012. Na capital síria, a representação diplomática brasileira é mantida por funcionários sírios, mas não presta nenhum serviço consular. Toda a burocracia é feita pelo Consulado Geral do Brasil em Beirute. Para lá foram transferidos dois funcionários da Embaixada de Damasco, Ana Cristina Palacky, atualmente vice-cônsul, e João Henrique de Alcântara, oficial de Chancelaria.

Ana Cristina serviu na Síria por quase três anos e lembra que, antes do início do conflito, a capital síria era um local tranquilo para se trabalhar e viver. Porém, recorda muito bem do dia em que a capital foi assediada. “Era manhã dia de Natal de 2011. Houve uma grande explosão. Depois vieram outras, mas esta, maciça, com muita destruição, mortos e feridos, marcou simbolicamente a a chegada da guerra a Damasco” (veja a entrevista no vídeo abaixo).

De Beirute: brasileira lembra que Síria era local tranquilo para viverClique no link para iniciar o vídeo

Serviço consular
O maior período de pedidos de cidadãos sírios por vistos e asilo no Brasil passou, afirmam os funcionários do Cosulado de Beirute. Mas a procura ainda é grande. São cerca de 50 processos por semana, geralmente de famílias sírias que têm parentes no Brasil. Não há uma categoria especial para os sírios: é preciso apresentar uma série de documentos que comprovem a permanência temporária no Brasil. Na maioria dos casos, é concedido um visto  turístico.

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Laços estreitos
Assim como no Brasil vive a maior comunidade libanesa fora do Líbano – fala-se em cerca de 10 milhões de libaneses e descendentes, principalmente em São Paulo – também no Líbano está a maior população brasileira do Oriente Médio. Lá vivem aproximadamente 10 mil brasileiros.

A maioria reside no Vale do Beqaa, que faz fronteira com a Síria. Grande parte obteve a cidadania por direito de sangue. São filhos de brasileiros, mas muitos nunca estiveram no Brasil e são raros os que falam português. Um caso excepcional é o da professora Nesrin Reyd, cuja mãe é brasileira. Ela fala português quase perfeitamente, e não esconde o sonho de um dia conhecer o Brasil. “Espero ir ao Brasil no ano que vem para a Copa do Mundo”, disse ao Terra, durante uma aula a filhos de refugiados sírios em uma ONG em Barelias, no Vale do Beqaa.

Nesrin Reyd, filha de brasileira, nunca esteve no Brasil, mas fala português Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Nesrin Reyd, filha de brasileira, nunca esteve no Brasil, mas fala português
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Vivendo em tenda no Líbano, refugiado sírio vende frutas para sobreviver

Vivendo em tenda no Líbano, refugiado sírio vende frutas para sobreviver

Confira o depoimento de Majed Hamadi, que fugiu da guerra civil em seu país

CliqRefugiado sírio enfrenta drama para sobreviver em outro paísue no link para iniciar o vídeo
Refugiado sírio enfrenta drama para sobreviver em outro país
  • Rafael Belincanta
  • Direto de Beirute

Majed Hamadi vive em uma tenda em um terreno próximo à fronteira libanesa desde que fugiu da Síria. Tem 31 anos e quatro filhos. Os menores ficam com a mãe, na tenda. Os outros dois frequentam as aulas de uma ONG que ajuda os filhos dos refugiados sírios. Seus outros 14 irmãos também vivem no mesmo terreno.

A tenda recebeu uma nova moradora nas últimas semanas: sua cunhada, que fugiu de uma cidade ao norte de Damasco. Pagou US$ 500 para atravessar a fronteira ilegalmente. Sem documentos, Majed não pode ser cadastrado como refugiado para receber ajuda internacional. Ele conta que, para sobreviver, trabalha em uma pequena plantação de frutas e verduras. Cinco vezes por semana recolhe a pequena produção para vender nas ruas.

Quando pergunto se ele pensa no futuro, a resposta é seca. “Vivo um dia de cada vez. Sem planos para o futuro”, diz. E quando falamos de seu país, se espera retornar, sem dúvidas responde: “Sim. Síria”.

VEJA FOTOS DE MAJED HAMADI E SUA FAMÍLIA
 Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
 Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
 Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
 Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
 Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

ONU se prepara para aumento do fluxo de refugiados sírios no Líbano

ONU se prepara para aumento do fluxo de refugiados sírios no Líbano

Por dia, 3 mil sírios cruzam a fronteira e entram no Líbano; a expectativa é que, ao final de 2013, 1 a cada 4 habitantes do país seja um refugiado sírio

Família síria preenche cadastro em Beirute para ter direito a receber ajuda internacional Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Família síria preenche cadastro em Beirute para ter direito a receber ajuda internacional
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
  • Rafael Belincanta
  • Direto de Beirute

Com metade do tamanho de Sergipe, menor Estado brasileiro, o Líbano se estende do Mediterrâneo até as montanhas que delimitam a fronteira com a Síria, a Leste, e ao sul com Israel. É casa de 4 milhões de habitantes. Mas número que vem aumentando dia a dia, resultado do êxodo dos sírios em direção ao país vizinho.

A agência das Nações Unidas para os refugiados, Acnur, tem registro de mais de 700 mil refugiados sírios em três centros de referência no Líbano. Além da capital, Beirute, os sírios podem inscrever-se em Zahle, no Vale do Beqaa, e em duas representações, no sul e no norte do país. Uma vez cadastrados, podem receber auxílio para alimentação, escola e abrigo. Atualmente, em todos os centros, cerca de 3 mil refugiados são cadastrados por dia.

A porta-voz do Acnur no Líbano, Roberta Russo, disse ao Terra que estes números devem subir ainda mais caso haja uma intervenção militar na Síria. “Estamos nos preparando para um provável grande êxodo de refugiados em direção ao Líbano. Estamos montando centros de recepção na fronteira para explicar aos refugiados qual a situação do país” (confira a entrevista na íntegra no vídeo abaixo).

Líbano se prepara para grande fluxo de refugiados da SíriaClique no link para iniciar o vídeo
Líbano se prepara para grande fluxo de refugiados da Síria

Experiência palestina

Ao contrário dos governos da Jordânia e da Turquia, no Líbano não houve autorização para a criação de grandes campos de refugiados para os sírios, concentrando-os portanto em um só local para facilitar o atendimento humanitário. A frágil aliança que há mais de um ano tenta dar um governo ao Líbano alegou que a eventual criação destes campos reviveria uma amarga lembrança: em 1948, data da criação do Estado de Israel, colonos palestinos chegaram ao Líbano, estabeleceram-se em campos de refugiados e nunca mais deixaram o território libanês.

Em alguns destes acampamentos palestinos ainda hoje é necessária uma premissão de acesso até mesmo para as autoridades libanesas. Essa autonomia velada equipara os territórios palestinos do Líbano à Faixa de Gaza e à Cisjordânia.

Criança brinca enquanto família é cadastrada como refugiados da Síria Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Criança brinca enquanto família é cadastrada como refugiados da Síria
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

Situação de emergência
Russo reconhece os esforços do governo libanês em não fechar as fronteiras aos refugiados, porém lamenta a falta de autorização para estabelecer campos de refugiados oficiais. “O governo sabe dos limites de infraestrutura para receber os refugiados e tem pedido suporte financeiro à comunidade internacional, contudo, a falta de verbas é uma realidade que afeta todos os envolvidos na emergência”.

Estado de emergência que não tem data para terminar. Mesmo com um eventual fim do conflito, as consequências dos deslocamentos serão sentidas ainda por muitos anos, afirma a porta-voz do Acnur.

Com certeza os refugiados não conseguirão voltar para casa em um futuro próximo, por isso temos que garantir a permanência deles até que existam condições para um possível retorno. É importante lembrar que o maior desejo de um refugiado é voltar para casa. Ninguém é um refugiado por escolha, eles são obrigados a deixar o seu país, vemos famílias separadas, então o que eles mais querem é voltar para casa mas isso num futuro próximo não será possível”.

Refugiado no Líbano, padre denuncia cruzada contra cristãos na Síria

Refugiado no Líbano, padre denuncia cruzada contra cristãos na Síria

http://noticias.terra.com.br/mundo/disturbios-no-mundo-arabe/refugiado-no-libano-padre-denuncia-cruzada-contra-cristaos-na-siria,fc0f31d880c21410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

Na cidade libanesa de Zahle, o religioso Nader Jbail usa uma rádio para confortar irmãos de fé, obrigados a sair do país em função do conflito

Rafael Belincanta
Direto de Beirute

R.K, 37 anos, é uma cristã que vivia em Homs, cidade ao norte de Damasco, palco do início dos conflitos na Síria. Ela fugiu para o Líbano com os filhos depois de ter sua casa invadida, saqueada e praticamente destruída pelos rebeldes. Rebeldes que, segundo ela, usavam bombas e metralhadoras, e eram na maioria estrangeiros  (confira seu relato no vídeo).

Refugiada síria relata ataque contra cristãos em HomsClique no link para iniciar o vídeo
Refugiada síria relata ataque contra cristãos em Homs

“Aquilo que se fala é uma coisa, aquilo que eu vi em Homs é outra. Vimos tudo diante dos nossos olhos. Manifestações, gritos de ordem contra o regime, ataques contra as nossas casas, ataque contra os cristãos, queriam que todos os cristãos e os alauítas (grupo muçulmano do presidente Assad, minoria na Síria) fossem embora da Síria. Aqueles que retornaram às nossas casas para pegar alguns pertencem foram mortos, homens e mulheres”, diz.

O padre Nader Jbail, cristão ortodoxo nascido em Damasco, usa uma rádio local para confortar os irmãos de fé Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
O padre Nader Jbail, cristão ortodoxo nascido em Damasco, usa uma rádio local para confortar os irmãos de fé
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

“Existe um plano para expulsar todos os cristãos para islamizar todo o Oriente Médio”, defende o padre Nader Jbail, cristão ortodoxo nascido em Damasco. OTerra encontrou o padre Nader um dia após seu retorno da capital síria, onde mantém contatos e vai visitar a família. “São três os pontos principais cujas consequências estamos vivendo aqui. O primeiro: petróleo e gás; segundo: os cristãos devem deixar o Oriente Médio; terceiro: a linha vermelha de Israel. Para o primeiro e o terceiro, encontra-se sempre uma solução. E para os cristãos?”, questiona.

Estátua de Nossa Senhora, em Zahle Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Estátua de Nossa Senhora, em Zahle
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

A cidade de Zahle, no Líbano, é o último reduto cristão antes da fronteira com a Síria. A diferença entre as religiões se vê na disposição da cidade: de um lado estão os cristãos e, de outro, os muçulmanos. Lá, o padre Nader é diretor da emissora cristã Swat el Sama e usa as ondas de rádio para levar conforto aos refugiados cristãos, sem dar notícias de conflitos ou ataques.  Entretanto, padre Nader testemunhou muitos ataques pessoalmente, além de ouvir os relatos dos refugiados.

Mesquita da cidade de Zahle, no Líbano Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra
Mesquita da cidade de Zahle, no Líbano
Foto: Rafael Belincanta / Especial para Terra

“Ultimamente os rebeldes muçulmanos não têm concentrado os ataques contra locais do governo, contra exército sírio. O que existe é uma verdadeira cruzada contra os cristãos. Basta ver um dos últimos, quando a cidade de Maalula foi assediada, simplesmente por ser um reduto cristão”, diz.