Check point Charlie, em Berlim, virou atração turística depois do Tear down this wall de Reagan a Mr. Gorbachov. Mais de 20 anos após a queda, um outro muro divide não uma cidade e sim dois países – distintos em seus objetivos nacionalistas e religiosos – porém unidos pela geografia e separados pela história. Abaixo, isso é ilustrado pelas opiniões de um jovem palestino e de uma jovem israelense.

Sair de Belém (Bethlehem) e ir em direção a Jerusalém – o centro de energia da Terra, lugar de criação do mundo para os judeus – é a Via Sacra quotidiana para os palestinos autorizados a atravessar a fronteira para trabalhar no “ocidente” ou, ainda, por questões religiosas. O caminho de volta é o mesmo. Descer do ônibus, em fila passar pelo primeiro controle, percorrer alguns metros na zona neutra com o horizonte bloqueado pelo muro cinza – impecável do lado israelense – entrar em um novo controle, superar a porta de barras de metal giratória para, enfim, percorrer o longo corredor de grades que conduz à saída. No celular, muda a rede e a mensagem diz: Marhaba, smell the jasmine and taste the olives. Welcome to Palestine.

Muro do lado de Israel
Muro do lado de Israel

Na entrada, nada além de um pequeno mercado de frutas e os taxistas que pescam os turistas. Fomos fisgados por um jovem palestino que desde 2002 não pode pisar em Jerusalém. No seu velho todavia bem cuidado carro, propõe a visita aos principais pontos sagrados de Belém a preço de “estudante” porque feliz em saber que conhecíamos Bansky, o autor das intervenções no muro e outras partes da cidade cujos cartões postais ele tinha afixado no teto do táxi.

Fluente em inglês, Sharif se orgulha de ter aprendido a se comunicar (muito bem) sozinho em outra língua. Quando soube que eu era jornalista, não calou, ao contrário, disse que nos levaria como extra aos locais dos desenhos de Bansky. Nos intervalos das visitas à Basílica da Natividade, ao Campo dos Pastores e à Gruta do Leite, aproveito para ouvir suas declarações sobre os rumos da Palestina.

Uma das intervenções de Bansky. O desenho está no muro de um lava-jato. Ali, um senhor me perguntou o que as flores coloridas representavam para mim. Disse, sem dúvidas, a liberdade da Palestina. Ele sorriu!
Uma das intervenções de Bansky. O desenho está no muro de um lava-jato. Ali, um senhor me perguntou o que as flores coloridas representavam para mim. Disse, sem dúvidas, a liberdade da Palestina. Ele sorriu!

“Não sou nem pelo Hamas (Faixa de Gaza), nem pelo Fatah (West Bank). Não sou pela Autoridade Nacional Palestina, nem por Mahmud Abbas. A Palestina como membro da Unesco é cena. Nada muda aqui, mas para os políticos o bolso se enche. O mundo árabe não se importa conosco. Querem somente tirar proveito do dinheiro do petróleo”.

Lembro a Sharif que, recentemente, exumaram o corpo de Yasser Arafat. Imediatamente o tom de voz muda, os olhos se fecham como se quisessem voltar ao passado.

“Você está vendo isso? (Uma espécie de terço pendurado no retrovisor com pedras verdes, pretas e vermelhas unidas por uma maior). Arafat era esta pedra da união, ele uniu toda a Palestina. Não vejo ninguém, atualmente, que possa ocupar seu lugar”.

O que ele nos faz ver é um novo bairro israelense construído em meio ao território palestino. “São todos judeus norte-americanos”, explica ao dizer que uma nova estrada foi construída para que eles possam ir e vir sem barreiras.

Na hora de voltar para o “ocidente”, Sharif margeia o muro que do lado palestino é colorido pelos grafites, pelas mensagens de liberdade e de esperança. Quase ninguém nos acompanha pelos caminhos frios e metálicos do check point. Mas as palavras de Sharif estão presentes. “Não acreditem naquilo que a mídia diz. O governo mantém os preços altos para que o povo não tenha tempo em pensar em algo além de trabalhar para sobreviver e, assim, não interferir nos rumos da política”.

De volta à cosmopolita Tel Aviv, em uma de suas praias se respiram ares de liberdade e se aproveitam as temperaturas amenas antes do escaldante Verão. Ao lado, uma jovem israelense.

Naava não é a favor das divisões, diz que o grande problema de Israel são os judeus fundamentalistas mas se compraz ao dizer que pela primeira vez em muitos anos não existem religiosos no governo. Porém, para ela o muro é necessário, uma vez que “na Palestina, nos livros das primeiras séries, eles ensinam como identificar e aniquilar um judeu”.

Talvez por esses motivos acredite que o apoio dos Estados Unidos seja fundamental para a proteção do país, mas é consciente de que os EUA aproveitam da posição geopolítica estratégica de Israel para seus próprios interesses no Oriente Médio. Quanto a Jerusalém, é enfática. “Todos querem um pedaço de Jerusalém, mas ela é nossa”.

Pôr-do-sol em Tel Aviv
Pôr-do-sol em Tel Aviv

Naava é judia mas não é praticante. Bom exemplo disso é que está na praia em pleno Shabbat. Pergunta se somos cristãos, católicos, e como é a vida na Europa. Não muito diferente de Tel Aviv, respondo. E talvez, aqui vocês tenham ainda mais liberdade. Ela concorda, contudo diz que o preconceito na sociedade é outro grande problema de Israel e que não aceita ter que deixar 30% de seus ganhos para o Estado que paga os fundamentalistas (black people como ela os chama) para ficarem em casa rezando enquanto ela trabalha.

Filha de mãe judia do Marrocos e pai judeu da Polônia, ela nasceu e cresceu no Sul próximo à fronteira com a Faixa de Gaza. Enquanto Naava conta como era ser criança em meio ao temor de bombas, digo que estive na Palestina. No mesmo instante, pergunta: E como é lá? Antes que eu responda, recomeça. “Eu sei, é como vemos na tevê. São pobres”.

Enquanto a paz reina no final do Shabbat nas praias de Tel Aviv, ao Norte, na fronteira com a Síria e o Líbano, novos bombardeios de Israel contra alvos árabes. Ao sul, nas fronteiras com o Egito, Jordânia e Arábia Saudita e Faixa de Gaza, o período é de trégua.

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