A Gênese de Sebastião Salgado

Depois de Londres e Paris, Gênese – o mais recente trabalho de Sebastião Salgado – foi apresentado à imprensa nesta terça-feira, no Altar da Pátria (Ara Pacis), em Roma. Na entrevista abaixo, Sebastião deixa claro que o título nada tem a ver com religião, ao contrário. Gênese apresenta um novo Sebastião, desta vez voltado para a temática ambiental. Depois de oito anos fotografando e imortalizando os mais remotos cantos da Terra, Gênesi mostra a origem incontaminada de um mundo que está ficando preto e branco.

Sebastião, essa Gênese também é uma Gênese tua, depois de tanto tempo de trabalho?

– Antes eu só tinha fotografado temas sociais e passei a fotografar um tema ambiental. Mas na realidade eu sempre fotografei temas que eu estava inteiramente conectado com eles. Eu tinha uma idenficação – ou ética ou ideológica. Quando eu fotografei Imigrações eu tinha uma razão de fotografar a imigração, eu tinha uma relação com a imigração, eu fui refugiado uma época e depois sou imigrante até hoje. Quando eu fiz Trabalhadores eu estava, talvez, extraíndo de dentro de mim o economista que eu fui. E, hoje, quando estou fazendo Gênese, é um pouco a mesma coisa porque nós temos um projeto ambiental no Brasil no qual estamos implantanto um pedaço da Mata Atlântica e que está, portanto, inteiramente ligado com a natureza. Então, Gênesis foi uma continuidade da minha vida também.

 

Alguma relação com a Gênese bíblica?

– Eu não acredito em nenhum deus, em nada, sou completamente materialista, então deste lado não. Eu também só emprestei a palavra Gênese como a religião também, que é uma palavra forte, que representa o início – então, aqui para mim representa o início. Eu acho que existe uma ordem natural das coisas, existe uma certa organização do planeta, existem estintos, existe uma espiritualidade nas coisas, mas eu não acredito num ser superior coordenando, mandando em tudo, dessa forma não.

A força da natureza, entretanto?

A força da natureza é o maior poder de todos. Nós somos natureza. Nós somos um animal igual aos outros. Nós viemos todos da mesma célula básica e só evoluímos de maneira diferente. Eu acho que quem fez essa análise perfeita de tudo foi muito mais o Darwin do que Cristo.

Você está me enxergando em preto e branco agora?

Eu sempre tive uma percepção das gamas de cinza quando eu estou fotografando. Eu não enxergo em preto e branco não, eu enxergo em cor, como todo mundo

 A dama por trás das lentes de Sebastião Salgado

 

Lélia Wanick Salgado enfatiza:

– Eu gosto de fazer fotos, mas eu faço em cor.

Qual é sua parte em Gênese?

– Este projeto é nosso. Nós pesquisamos para saber onde ir, como ir e eu estava presente na maioria das viagens.

Por quê Gênese?

– Gênese: o planeta que ainda não foi transformado por nós, humanos. No entanto, o início não existe, as coisas vão mudando. Nunca é a mesma coisa.

Espiritualidade?

– Esta palavra é muito específica de religião, prefiro dizer que vivenciamos uma comunhão total com a natureza. Nós somos natureza, mas não nos classificamos como natureza.

Gênese é o início e também o fim?

– Evidentemente que fazer um novo trabalho da amplitude de Gênese vai ser um pouco difícil por que nós já estamos ficando velhos para fazer um outro trabalho de oito anos. Mas não temos a mínima vontade de parar de trabalhar.

Entre todos os lugares visitados, qual foi o mais intenso?

– Na África, nos parques nacionais, com aquele pôr-do-sol vermelho e aqueles animais pré-históricos, é tudo muito bonito e nos transporta para um outro mundo. Ali, muitas vezes, nós nos sentimos muito emocionados.

Israel e Palestina: check point para West Bank

Israel e Palestina: check point para West Bank

Check point Charlie, em Berlim, virou atração turística depois do Tear down this wall de Reagan a Mr. Gorbachov. Mais de 20 anos após a queda, um outro muro divide não uma cidade e sim dois países – distintos em seus objetivos nacionalistas e religiosos – porém unidos pela geografia e separados pela história. Abaixo, isso é ilustrado pelas opiniões de um jovem palestino e de uma jovem israelense.

Sair de Belém (Bethlehem) e ir em direção a Jerusalém – o centro de energia da Terra, lugar de criação do mundo para os judeus – é a Via Sacra quotidiana para os palestinos autorizados a atravessar a fronteira para trabalhar no “ocidente” ou, ainda, por questões religiosas. O caminho de volta é o mesmo. Descer do ônibus, em fila passar pelo primeiro controle, percorrer alguns metros na zona neutra com o horizonte bloqueado pelo muro cinza – impecável do lado israelense – entrar em um novo controle, superar a porta de barras de metal giratória para, enfim, percorrer o longo corredor de grades que conduz à saída. No celular, muda a rede e a mensagem diz: Marhaba, smell the jasmine and taste the olives. Welcome to Palestine.

Muro do lado de Israel
Muro do lado de Israel

Na entrada, nada além de um pequeno mercado de frutas e os taxistas que pescam os turistas. Fomos fisgados por um jovem palestino que desde 2002 não pode pisar em Jerusalém. No seu velho todavia bem cuidado carro, propõe a visita aos principais pontos sagrados de Belém a preço de “estudante” porque feliz em saber que conhecíamos Bansky, o autor das intervenções no muro e outras partes da cidade cujos cartões postais ele tinha afixado no teto do táxi.

Fluente em inglês, Sharif se orgulha de ter aprendido a se comunicar (muito bem) sozinho em outra língua. Quando soube que eu era jornalista, não calou, ao contrário, disse que nos levaria como extra aos locais dos desenhos de Bansky. Nos intervalos das visitas à Basílica da Natividade, ao Campo dos Pastores e à Gruta do Leite, aproveito para ouvir suas declarações sobre os rumos da Palestina.

Uma das intervenções de Bansky. O desenho está no muro de um lava-jato. Ali, um senhor me perguntou o que as flores coloridas representavam para mim. Disse, sem dúvidas, a liberdade da Palestina. Ele sorriu!
Uma das intervenções de Bansky. O desenho está no muro de um lava-jato. Ali, um senhor me perguntou o que as flores coloridas representavam para mim. Disse, sem dúvidas, a liberdade da Palestina. Ele sorriu!

“Não sou nem pelo Hamas (Faixa de Gaza), nem pelo Fatah (West Bank). Não sou pela Autoridade Nacional Palestina, nem por Mahmud Abbas. A Palestina como membro da Unesco é cena. Nada muda aqui, mas para os políticos o bolso se enche. O mundo árabe não se importa conosco. Querem somente tirar proveito do dinheiro do petróleo”.

Lembro a Sharif que, recentemente, exumaram o corpo de Yasser Arafat. Imediatamente o tom de voz muda, os olhos se fecham como se quisessem voltar ao passado.

“Você está vendo isso? (Uma espécie de terço pendurado no retrovisor com pedras verdes, pretas e vermelhas unidas por uma maior). Arafat era esta pedra da união, ele uniu toda a Palestina. Não vejo ninguém, atualmente, que possa ocupar seu lugar”.

O que ele nos faz ver é um novo bairro israelense construído em meio ao território palestino. “São todos judeus norte-americanos”, explica ao dizer que uma nova estrada foi construída para que eles possam ir e vir sem barreiras.

Na hora de voltar para o “ocidente”, Sharif margeia o muro que do lado palestino é colorido pelos grafites, pelas mensagens de liberdade e de esperança. Quase ninguém nos acompanha pelos caminhos frios e metálicos do check point. Mas as palavras de Sharif estão presentes. “Não acreditem naquilo que a mídia diz. O governo mantém os preços altos para que o povo não tenha tempo em pensar em algo além de trabalhar para sobreviver e, assim, não interferir nos rumos da política”.

De volta à cosmopolita Tel Aviv, em uma de suas praias se respiram ares de liberdade e se aproveitam as temperaturas amenas antes do escaldante Verão. Ao lado, uma jovem israelense.

Naava não é a favor das divisões, diz que o grande problema de Israel são os judeus fundamentalistas mas se compraz ao dizer que pela primeira vez em muitos anos não existem religiosos no governo. Porém, para ela o muro é necessário, uma vez que “na Palestina, nos livros das primeiras séries, eles ensinam como identificar e aniquilar um judeu”.

Talvez por esses motivos acredite que o apoio dos Estados Unidos seja fundamental para a proteção do país, mas é consciente de que os EUA aproveitam da posição geopolítica estratégica de Israel para seus próprios interesses no Oriente Médio. Quanto a Jerusalém, é enfática. “Todos querem um pedaço de Jerusalém, mas ela é nossa”.

Pôr-do-sol em Tel Aviv
Pôr-do-sol em Tel Aviv

Naava é judia mas não é praticante. Bom exemplo disso é que está na praia em pleno Shabbat. Pergunta se somos cristãos, católicos, e como é a vida na Europa. Não muito diferente de Tel Aviv, respondo. E talvez, aqui vocês tenham ainda mais liberdade. Ela concorda, contudo diz que o preconceito na sociedade é outro grande problema de Israel e que não aceita ter que deixar 30% de seus ganhos para o Estado que paga os fundamentalistas (black people como ela os chama) para ficarem em casa rezando enquanto ela trabalha.

Filha de mãe judia do Marrocos e pai judeu da Polônia, ela nasceu e cresceu no Sul próximo à fronteira com a Faixa de Gaza. Enquanto Naava conta como era ser criança em meio ao temor de bombas, digo que estive na Palestina. No mesmo instante, pergunta: E como é lá? Antes que eu responda, recomeça. “Eu sei, é como vemos na tevê. São pobres”.

Enquanto a paz reina no final do Shabbat nas praias de Tel Aviv, ao Norte, na fronteira com a Síria e o Líbano, novos bombardeios de Israel contra alvos árabes. Ao sul, nas fronteiras com o Egito, Jordânia e Arábia Saudita e Faixa de Gaza, o período é de trégua.