Especial: Entrevista com John Thavis, autor de “The Vatican Diaries”

In bocca al lupo entrevistou John Thavis, vaticanista por 30 anos. Editor aposentado do Catholic National Service (CNS), a agência católica de notícias dos Estados Unidos, seu mais recente trabalho acaba de ser publicado. O livro The Vatican Diaries coincide com a renúncia de Bento XVI. Coincidência?

Por enquanto, em inglês.
Por enquanto, em inglês.

Sexta-feira, 22 de fevereiro. No Vaticano, comemora-se a Solenidade da Cátedra de São Pedro. Esta que, a partir do dia 28, ficará vacante à espera do novo Bispo de Roma. O encontro com John Thavis acontece na Sala de Imprensa da Santa Sé, na atribulada Via da Conciliação. Lá chegando, vejo Thavis sentado, com seu Ipad. “Estou checando minha lista dos papáveis, acrescentando as idades”, diz.

Quando chegou à Itália, em 1977, Thavis veio estudar arqueologia. Mas foi um acontecimento em 1978 que fez com que ele enveredasse pelas vias do jornalismo: o sequesto do primeiro-ministro italiano, à época Aldo Moro, pelas Brigadas Vermelhas. Thavis conseguiu uma posição no Rome Daily American e naquele ano, acompanhara dois conclaves: os que elegeram João Paulo I e João Paulo II.

De volta – em definitivo – a Roma em 1982, um ano mais tarde começou a trabalhar para a agência católica dos EUA e, desde então, acompanhou os papas João Paulo II e Bento XVI em mais de 60 viagens. Em 2012, anunciou sua aposentadoria “um pouco antecipada” do cargo de chefe do escritório da CNS em Roma e voltou aos Estados Unidos para se dedicar ao seu novo livro. Com a renúncia do Papa, voltou a sua antiga base.

 In boccal al lupo: Quanto tempo o senhor demorou para escrever The Vatican Diaries?

John Thavis: Foram muitos anos de anotações. Depois, levei um ano para escrevê-lo. Quis seguir o pontificado de Bento XVI, sobretudo os bastidores, com muitos detalhes, para poder dar uma visão da Cúria e do Vaticano que fosse além das manchetes normais. Quis desvelar esses bastidores e cenários que, para mim, são muito mais interessantes do que as manchetes sensacionalistas. Sabemos que a visão do Vaticano frequentemente se transforma em uma caricatura. Eu, particularmente, encontro aqui um mundo muito humano. Falível, sim. Mas que trabalha para o bem, aliás, que ao menos procura trabalhar para o bem, muitas vezes sem sucesso. É um mundo muito mais interessante do que aquilo que se lê nos jornais. A ideia central do livro era essa de desvelar um mundo que o grande público não conhece. Depois que terminei de escrever, por sorte, vendi imediatamente para uma grande editora dos EUA. Como eles não trabalham com instant books, tivemos muito tempo de trabalho e decidiram de publicar somente em fevereiro deste ano, justamente quando o papa renunciou. Para eles, é ótimo, porque agora o interesse pelas coisas do Vaticano aumentou muito.

IBAL: O que há por detrás dos muros vaticanos?

John durante a entrevista ao blog
John durante a entrevista ao blog

JT: É preciso entrar no Vaticano e não somente ver o papa ou os cardeais quando de suas aparições públicas. Uma das coisas mais surpreendentes – e  também uma das mais contraditórias – é que o Vaticano, com sua estrutura hierárquica rígida, abriga pessoas que são livres para pensar e falar. Por exemplo: o pregador da Casa Pontífica (Frei Raniero Cantalamessa). Ele quando chega para suas homílias, “abre a boca”, diz aquilo que ele quer sem que nenhum tenha sabido antes. De improviso. Esta é uma grande liberdade. Claro que algumas vezes há uma censura, mas essa liberdade existe também em grandes níveis aqui no Vaticano.

IBAL: O senhor estava em Roma no dia da renúncia de Bento XVI.

JT: Cheguei no domingo. Na segunda-feira, ao chegar aqui (na Sala de Imprensa), ouvi imediatamente as notícias sobre a renúncia do papa. Como todos, fiquei surpreso. Entretanto, já havia pensado nessa possibilidade, ou melhor, já tinha previsto que isso pudesse acontecer em fevereiro, especificamente no dia 22. Mas vendo o calendário das atividades do papa um pouco vazio e, somado a isso, a imagem frágil do papa durante as celebrações de Natal e o fato de Bento XVI ter criado novos 6 cardeais no final do ano, tudo isso me pareciam sinais de que ele – que já havia falado sobre a possibilidade de renunciar – estivesse realmente pronto para abdicar.

 IBAL: O que o senhor pensa a respeito do trabalho da imprensa nestes dias?

JT: Acredito que um jornalista deva sempre fazer uma auto-crítica e, nestes dias, há muito a ser criticado.  Muitos jornalistas preenchem o vazio porque, de fato, os cardeais são reticentes a dizer o nome de “papáveis”. Além disso, conforme os cardeais chegam a Roma e se aproximam as Congregações Gerais, eles se tornam ainda mais reservados. Em síntese, é um processo no todo fechado e deixa o jornalista de fora. E o que faz o jornalista? Entrevista outros jornalistas, cria cenários. Sim, é um defeito, devemos admitir. Alguns jornalistas querem até mesmo eleger o novo papa. Fazem campanhas – sutis e menos sutis. Um vaticanista, neste período de pré-conclave, deve estar mais em silêncio e escutar mais porque certamente os sinais existem. É preciso prestar muita atenção aquilo que dizem os cardeais.

IBAL: Mas conseguir uma entrevista com um cardeal é uma tarefa quase impossível…

JT: É sempre difícil no Vaticano. Por trinta anos eu escutei: é impossível ter uma posição oficial do Vaticano. Mas não é. É preciso trabalhar muito e, ao final, trabalhando bem, com as fontes se consegue saber, mas é preciso tempo também.

IBAL: Se o senhor pudesse dar um conselho ao novo papa, qual seria?

JT: Dar um conselho ao papa? (Risos). Bem, vimos que Bento XVI sofreu muito com a desorganização na Cúria Romana e também as divisões das quais ele mesmo falou muitas vezes. Penso que o novo papa deva estar apto a controlar a Cúria Romana e colocar a casa em ordem. Ou, ainda, ter um assistente para isso. Porque é verdade que um papa que se dedica muito tempo ao managment perde algumas oportunidades já que gerir a Cúria Romana é uma tarefa enorme. Mas (o futuro papa) deve escolher bem seu assistente.Talvez novos rostos, gente de fora, sem fixar-se muito às velhas figuras.

IBAL: O senhor é leigo. Qual deve ser o papel dos leigos no Vaticano?

JT: Acredito que o Vaticano deveria conceder muito mais espaço aos leigos. É muito clerical, honestamente, e por isso não reflete a população da Igreja, o povo de Deus. Sabemos bem que esta não é uma democracia, que a Cúria Romana não é um parlamento. Todavia, ao mesmo tempo, um católico, no Brasil ou em qualquer outro lugar, deve se reconhecer no Vaticano. Não existem regras sobre a participação dos leigos. Eles deveriam estar em toda a Cúria. Penso que esse deveria ser um tema do qual os cardeais deverão falar antes de se fecharem no Conclave.

IBAL: Em 2013 se repete o que aconteceu em 2005, quando João Paulo II morreu e seu sucessor, como primeira viagem internacional, participou da Jornada Mundial da Juventude. O que o novo papa vai encontrar no Brasil?

JT: Será uma grande oportunidade para o novo papa. A data não pode ser cancelada, existem muitas expectativas. O novo papa irá diretamente ao Brasil – que é o maior país católico do mundo – e, quem sabe, um papa brasileiro. Seria muito bom. A mensagem será forte, seja para a América Latina, seja para os jovens. Veremos se este novo papa conseguirá se comunicar com essa nova geração.

IBAL: No pontificado de Bento XVI vimos o Vaticano entrar mais do que nunca no mundo virtual. Foi uma iniciativa do próprio papa?

JT: Não creio. Acredito que alguém tenha motivado o papa a fazer isso. Até porque ele, ainda hoje, faz suas reflexões com papel e caneta, então não vejo o papa “tuitando”. Mas essa iniciativa reflete um movimento aqui no Vaticano de estar mais presente nas mídias sociais. Creio que este será outro ponto de debate quando os cardeais chegarem porque nem todos apreciam esta iniciativa. Até porque eles temem que haja uma superexposição do papa a comentários na rede. De qualquer maneira, acredito que a Igreja irá adiante com sua presença nas mídias sociais, até porque, para a Igreja, o jornalismo é um filtro não tão confiável, então eles devem investir nestes novos canais para chegar diretamente aos católicos.

IBAL: Precisamos de um papa 2.0?

JT: Sim. É desejável.

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