Política italiana: compreender o incompreensível

Áudio do comentário na RFI Português em 04.01.13

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A questão eleitoral aqui na Itália já é, por natureza, difícil de entender. E para quem está acostumado com o “voto direto” do presidencialismo de coalisão do Brasil,  fica ainda mais complicada. O sistema de governo na Itália é o parlamentarismo. Pela Constituição, os cidadãos tem o dever de votar, entretanto, para quem não vota as sanções nem sempre vêm aplicadas. Além da figura do Primeiro Ministro, nomeadamente Presidente do Conselho dos Ministros, existe também o Presidente da República Italiana, atualmente Giorgio Napolitano, que é escolhido pelo Parlamento, ou seja, a Câmara dos Deputados e o Senado.

Napolitano dissolveu o Parlamento em 22.12.12 quando o representante do partido de Berlusconi na Câmara dos Deputados, Angelino Alfano, disse que o Parlamento já não teria como dar a fiducia, ou seja, a confiança ao governo técnico de Monti – indicado por Napolitano um ano atrás – no auge da crise financeira italiana. Mario Monti, por sua vez, considerou o gesto um voto de desconfiança e pediu demissão. Contudo, Monti ainda é o Primeiro Ministro italiano, mas considerado como uscente, em saída.

Lista com os nomes e partidos durante as eleições.
Lista com os nomes e partidos durante as eleições.

Itália à deriva?

Seja Mario Monti, demissionário, que não foi eleito mas nomeado pelo Presidente para superar a crise financeira por meio de um governo técnico, seja a Câmara e o Senado dissolvidos, continuam a “governar” o País. É uma administração ordinária. Durante esse período não se aprovam novas leis. As decisões mais urgentes são tomadas somente  por meio de atos administrativos.

Eleições à vista

As próximas eleições estão marcadas para 24 e 25 de fevereiro. Essa data será, para mim, um marco pessoal. Pela primeira vez poderei votar como cidadão italiano. Ainda estou procurando entender se devo votar num partido, numa coalisão ou, simplesmente, não votar. Isso porque, apesar das urnas, é o Presidente que decide, com base na maioria eleita no Parlamento, quem será o Primeiro Ministro. O ato é para promover a governabilidade. Em síntese, o nome que encabeça o partido ou a coalisão mais votados pode vir a não ser o Primeiro Ministro.

Para além das minhas dúvidas e experiências pessoais, acredito que 2013 deva ser um marco histórico também para o País, que terá que decidir se se detém a velhas figuras ou dará chance a novos nomes, apesar do vácuo existente no cenário político italiano, carente de novos ímpetos. O Movimento Cinque Stelle (M5s), Movimento Cinco Estrelas, nasceu em 2009 e tem como mentor o cômico Beppe Grillo. Grillo – conhecido por não ter papas na língua – e seu novo movimento político conseguiram importantes vitórias em eleições municipais, principalmente na Sicília e na região da Emilia Romagna. Todavia, ainda está longe de cair nas graças do povo italiano.

A volta do nano

Daqui até as eleições viveremos um momento especulativo. Berlusconi retingiu os cabelos e voltou com tudo à cena política nos últimos dias. Participou de programas de rádio e tv. Não oficialmente, está também no Twitter. O ex-Primeiro Ministro disse que investir na rede social não foi uma iniciativa dele e sim de voluntários que apóiam a sua volta ao Palácio Chigi.

No cenário internacional essa reaparição de Berlusconi pode soar estranha, mas aqui na Itália não surpreende. Berlusconi ficou no poder por 20 anos e os reflexos desse período ainda podem ser sentidos, principalmente a influência que exerce por meio de seus canais de televisão, distribuidora de filmes, além de outra série de empreendimentos como, por exemplo, o Milan Futebol Clube, do qual é dono.

Dessa forma, apesar de todos os escândalos, Berlusconi parece ainda estar em jogo. E agora partiu para o ataque. O alvo: Mario Monti. Il nano diz que Mario Monti não pode ser candidato nas eleições por já ser senador vitalício. Monti, por sua vez, disse que deixa seu nome à disposição do futuro governo.

Como diz o célebre  Roberto Benigni,  “quando a Constituição entrar em vigor, ela será ótima”.

 

*update

Parece que Mario Monti vai mesmo concorrer. Acaba de chegar a informação de que apresentará seu novo partido nesta sexta-feira 04.01.13

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