Defesa de Berlusconi irrita Tribunal; ex-premiê é alvo de críticas ao enaltecer ditador fascista.

Ao vivo na RFI esta manhã  a partir de 8’14”
:)

Um outro capítulo sem desfecho no caso Ruby na manhã desta segunda-feira (28.01) no Tribunal de Milão. A previsão era que os advogados de Silvio Berlusconi, acusado de concussão e prostituição de menores, apresentassem a mãe de Karima el Mahroug como testemunha de defesa. Entretanto, Yazhili Zhara, que vive na Sicília, enviou um fax ao Tribunal no qual explicava que os advogados não haviam autorizado a compra da passagem aérea. Apesar da ausência, Zhara confirmou que está disponível a testemunhar.

Há uma semana, Ruby chegou a ser arrolada como testemunha pela defesa de Berlusconi, foi até o Tribunal mas não foi ouvida sendo dispensada poucos minutos antes. Os juízes, por sua vez, se retiraram do plenário quando a advogada de defesa solicitou que a mãe de Ruby fosse chamada para a próxima audiência. A promotora Ilda Bocassini se opôs à solicitação dizendo que “se houvesse real intenção de ouvir Zhara, os bilhetes aéreos poderiam ter sido comprados online”. E mesmo com as tentativas da defesa em postergar o processo, as datas para a conclusão do mesmo foi definida pelo Palácio da Justiça: 4 e 11 de março, logo após as eleições marcadas para 23 e 24 de fevereiro.

Berlusconi, por sua vez, foi alvo de críticas não só na Itália ao enaltecer o ditador fascista Benito Mussolini, neste domingo, em Milão, durante a inauguração de um memorial ao Holocausto na Estação Central da cidade. Berlusconi disse que a Itália de Mussolini no início não era consciente da aliança com a Alemanha nazista e que tornou-se aliada para evitar a invasão alemã.

Berlusconi dorme durante inauguração de memorial do Holocausto em Milão
Berlusconi dorme durante inauguração de memorial do Holocausto em Milão

 

Ainda nas comemorações pela memória do holocausto no “Binario 21”, ou Plataforma 21, em Milão, de onde os judeus milaneses foram extraditados para os campos de concentração, fotógrafos flagraram Berlusconi dormindo durante os discursos de inauguração.

África parte 1: Tanzânia

Recentemente, de novo me aventurei em terras africanas. Desta vez o destino foi a Tanzânia e o Malauí. Antes mesmo da minha primeira ida à África em 2012, sempre tive o desejo de aterissar por lá. Talvez seja uma marca que restou em meu DNA , herança de meu avô negro, ou talvez seja o destino que impulsiona. Unidas as possibilidades, o caminho se desenha perfeitamente. E também paradoxalmente.

Tanzânia

A viagem é fruto de meu trabalho como correspondente para a DW aqui em Roma (lá se vão dois anos já!). Cobrir as três agências da ONU voltadas à alimentação e agricultura, nomeadamente FAO, WFP e IFAD renderam belas histórias e muitas descobertas. O convite partiu da Missão dos EUA nas Agências da ONU aqui em Roma. A proposta era acompanhar o novo embaixador numa missão de reconhecimento de alguns projetos em andamento naqueles dois países.

A agenda era muito apertada. Compromissos alla horário do metrô russo: 9h17, 10h23, etc impediam uma dedicação mais a fundo diante de tantas histórias e do tal conceito multimídia, nova (velha) espécie de jornalista que surgiu com a internet. Processar tantas informações e, ao mesmo tempo, decidir se aquilo vale um vídeo, uma sonora para rádio, uma foto ou um texto ou todos juntos nem sempre é fácil.

Contudo, a corrida contra o tempo é fantástica e intuicional. É a engrenagem que faz a máquina funcionar e que impulsiona o jornalista a produzir o máximo de conteúdo – mesmo que privo de um aprofundamento. Desde que isso não comprometa o trabalho final que deve ter devida contextualização das informações adicionadas posteriormente.

Fortunate, pequena rizicultora beneficiada pelos programas de ajuda internacional.
Fortunate, pequena rizicultora beneficiada pelos programas de ajuda internacional.

A primeira história que me despertou a atenção foi a de Fortunate Michel. Uma jovem rizicultora, divorciada, mãe de três filhos que vive também com a mãe e, às vezes, dá de comer também para o novo namorado. É o tal empoderamento da mulher que também chega à África. Com a ajuda dos programas de irrigação financiados pelo USAID (United States Agency for International Development) e o know-how do WFP, na Tanzânia dirigido pelo estadunidense que já viveu na Coreia do Norte, Richard Ragan, Fortunate viu sua produção de arroz aumentar e, finalmente, conseguiu comprar o seu próprio pedaço de terra.

Como repetidas vezes disse o embaixador David Lane durante seus speechs, é fundamental ir a campo para saber o que acontece com as decisões tomadas atrás de uma mesa. De fato, entender o porquê da agricultura ser a melhor saída para combater a fome e a pobreza ali onde ela está é radicalmente o oposto do entendimento que vem com as explicações dos relatórios oficiais – sem, de forma nenhuma, desmerecê-los.

 

 

Flora: da lavoura à universidade
Flora: da lavoura à universidade

Ainda curvado diante da imponência do Kilimanjaro e do Monte Meru, conheci um exemplo que até então só tinha lido nos tais relatórios. Ela é uma filha dentre numerosos irmãos. Flora Laanyuni por muito tempo trabalhou na lavoura de milho com o pai e o restante da família. A ajuda internacional trouxe a eles conhecimento técnico para expandir a produção e enveredar novos rumos para diversificar o plantio. A antiga lavoura de milho agora também é lavoura de tomate, pimenta e cebola. A produção cresceu assim como os rendimentos. A soma desses fatores permitiu que Flora se tornasse a primeira integrante da família a obter um diploma universitário adivinhem em que? Jornalismo! Flora hoje é repórter do Tanzanian Daima.

////

Extra: no final de uma das cerimônias de boas-vindas à equipe na Tanzânia, me deparei com esta iguaria: uma cabra inteira assada.

////

Outra hora volto para contar algumas das experiências do Malauí.

Política italiana: compreender o incompreensível

Áudio do comentário na RFI Português em 04.01.13

///

A questão eleitoral aqui na Itália já é, por natureza, difícil de entender. E para quem está acostumado com o “voto direto” do presidencialismo de coalisão do Brasil,  fica ainda mais complicada. O sistema de governo na Itália é o parlamentarismo. Pela Constituição, os cidadãos tem o dever de votar, entretanto, para quem não vota as sanções nem sempre vêm aplicadas. Além da figura do Primeiro Ministro, nomeadamente Presidente do Conselho dos Ministros, existe também o Presidente da República Italiana, atualmente Giorgio Napolitano, que é escolhido pelo Parlamento, ou seja, a Câmara dos Deputados e o Senado.

Napolitano dissolveu o Parlamento em 22.12.12 quando o representante do partido de Berlusconi na Câmara dos Deputados, Angelino Alfano, disse que o Parlamento já não teria como dar a fiducia, ou seja, a confiança ao governo técnico de Monti – indicado por Napolitano um ano atrás – no auge da crise financeira italiana. Mario Monti, por sua vez, considerou o gesto um voto de desconfiança e pediu demissão. Contudo, Monti ainda é o Primeiro Ministro italiano, mas considerado como uscente, em saída.

Lista com os nomes e partidos durante as eleições.
Lista com os nomes e partidos durante as eleições.

Itália à deriva?

Seja Mario Monti, demissionário, que não foi eleito mas nomeado pelo Presidente para superar a crise financeira por meio de um governo técnico, seja a Câmara e o Senado dissolvidos, continuam a “governar” o País. É uma administração ordinária. Durante esse período não se aprovam novas leis. As decisões mais urgentes são tomadas somente  por meio de atos administrativos.

Eleições à vista

As próximas eleições estão marcadas para 24 e 25 de fevereiro. Essa data será, para mim, um marco pessoal. Pela primeira vez poderei votar como cidadão italiano. Ainda estou procurando entender se devo votar num partido, numa coalisão ou, simplesmente, não votar. Isso porque, apesar das urnas, é o Presidente que decide, com base na maioria eleita no Parlamento, quem será o Primeiro Ministro. O ato é para promover a governabilidade. Em síntese, o nome que encabeça o partido ou a coalisão mais votados pode vir a não ser o Primeiro Ministro.

Para além das minhas dúvidas e experiências pessoais, acredito que 2013 deva ser um marco histórico também para o País, que terá que decidir se se detém a velhas figuras ou dará chance a novos nomes, apesar do vácuo existente no cenário político italiano, carente de novos ímpetos. O Movimento Cinque Stelle (M5s), Movimento Cinco Estrelas, nasceu em 2009 e tem como mentor o cômico Beppe Grillo. Grillo – conhecido por não ter papas na língua – e seu novo movimento político conseguiram importantes vitórias em eleições municipais, principalmente na Sicília e na região da Emilia Romagna. Todavia, ainda está longe de cair nas graças do povo italiano.

A volta do nano

Daqui até as eleições viveremos um momento especulativo. Berlusconi retingiu os cabelos e voltou com tudo à cena política nos últimos dias. Participou de programas de rádio e tv. Não oficialmente, está também no Twitter. O ex-Primeiro Ministro disse que investir na rede social não foi uma iniciativa dele e sim de voluntários que apóiam a sua volta ao Palácio Chigi.

No cenário internacional essa reaparição de Berlusconi pode soar estranha, mas aqui na Itália não surpreende. Berlusconi ficou no poder por 20 anos e os reflexos desse período ainda podem ser sentidos, principalmente a influência que exerce por meio de seus canais de televisão, distribuidora de filmes, além de outra série de empreendimentos como, por exemplo, o Milan Futebol Clube, do qual é dono.

Dessa forma, apesar de todos os escândalos, Berlusconi parece ainda estar em jogo. E agora partiu para o ataque. O alvo: Mario Monti. Il nano diz que Mario Monti não pode ser candidato nas eleições por já ser senador vitalício. Monti, por sua vez, disse que deixa seu nome à disposição do futuro governo.

Como diz o célebre  Roberto Benigni,  “quando a Constituição entrar em vigor, ela será ótima”.

 

*update

Parece que Mario Monti vai mesmo concorrer. Acaba de chegar a informação de que apresentará seu novo partido nesta sexta-feira 04.01.13