Em nome da corporação, da concorrência e do welfare. Amen!

Como um tecido retalhado muito bem costurado em nuances metafóricas resgatadas na Inquisição e em Bob Woodward e Carl Bernstein, a jornalista Rosane Porto ‘em passant’ do escândalo envolvendo o The News of the World explica como as máquinas pararam. شكرا

Em nome da corporação, da concorrência e do welfare. Amen !
Rosane Porto*

Queimem a ruiva que entregou o esquema da imprensa britânica confessando relíquias ao Parlamento Britânico? Pois ela disse isso mesmo: “eu sabia que o pagamento a investigadores era uma prática, assim como em todos os jornais”. A jornalista Rebekah Brooks nasceu em 1968 na Inglaterra, o mesmo país que entre os séculos XVI e XVII perseguiu adeptos de religiões pagãs e matriarcais tidas como satânicas.

Brooks agora é cassada por uma versão ultramoderna do Malles Maleficarum, ou o “martelo das feiticeiras”, manual de caça às bruxas produzido pela aliança religião-monarquia no século XV. Nascida no ano marcado pela luta a favor da liberdade em vários pontos do planeta, Brooks arde na fogueira que condena práticas ilícitas no exercício do Jornalismo, aquele que usa da invasão de privacidade e paga propinas a suas fontes de informação.

A ruiva era CEO da News International, divisão britânica da News Corporation, o império multinacional de comunicação de Keith Rupert Murdoch (ou Robert, conforme algumas agências noticiosas), um “aussi” de 70 anos, cuja base de negócios deu-se a partir da Austrália e Nova Zelândia, com ramificações para o Reino Unido, Estados Unidos e países asiáticos. Foi ele quem criou a Fox Broadcasting Company, em 1986 e, no início deste século decidiu comprar o canônino The Wall Street Journal.

Conforme os sites biográficos, Murdoch figurou várias vezes na lista das 100 pessoas mais influentes do planeta e um dos mais poderosos com uma fortuna superior aos 6 billhões de dólares. Na sua carteira de negócios estão redes de TV e rádio, jornais, revistas, editoras e investimentos em times de futebol americano e na campanha do presidente Barack Obama.

Longe de protagonizar sagas bruxólicas britânicas como a de Harry Potter, que “finalmente chega ao fim” com o segundo episódio de “As relíquias da Morte”,  Murdoch e Brooks apenas trazem à tona um dos pecados capitais da imprensa – oscilando entre soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça –, ávida pela sobrevivência em nome da corporação e da concorrência afeta ao sistema de comunicações mundiais.

Murdoch é um dos tantos – agora poucos no mundo – antológicos clones de Citizen Kane, metaforizado nas telas do cinema por Orson Welles nos anos 30. Seus similares estão espalhados pela história da imprensa internacional e do Brasil, tais quais Chateaubriand, Wainer, Lacerda, Marinho e outros. Todos aliados do poder em nome da informação preconizada pela social- democracia que está a serviço do bem “welfare”, o bem estar coletivo.

Brooks era editora do tablóide “The Sun”, e uma vez sendo julgada e condenada a dizer tão somente a verdade sobre a práxis jornalística corrente há vários anos no Reino Unido da Grã Bretanha – e no mundo inteiro -, vai amargar um ex também no exercício da profissão, se o código de ética por lá for levado a sério. Mas a ética neste caso parece ser apenas um detalhe, porque envolve corrupção do welffare britânico, até ontem acima de suspeitas em nome do regime moderno. A “bruxa ruiva”, conforme vem sendo taxada nas redes sociais, disse que o escândalo de escutas ilegais que envolve investigadores particulares e até policias do esquema oficial de segurança britânica, em nome da matéria jornalística, foi, assim, “horrível”.

A “bruxa ruiva” revelou as entranhas de um novo Watergate, mas a diferença agora é um esquema mais complexo que envolve mais que um mero e imaginário “garganta profunda” como fonte de atos corruptos. Há mais que um presidente a derrubar. Há celebridades em posições constrangedoras e uma polícia acima de qualquer suspeita a ser cúmplice de um crime perfeito que usa da tecnologia para produzir informações. Salve-se quem puder, porque celulares e e- mails não são seguros nem aqui e nem lá. Quem traiu quem? A jornalista que alimentava a fonte ou a polícia que alimentava a indústria da informação?

Isso tudo cheira a jabá. O artigo sexto do Código de Ética do Jornalismo no Brasil reza em seu parágrado oitavo o seguinte: “é dever do jornalista respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão”. Mas para uma profissão que zela pela função social – aqui e no Reino Unido – who cares about privacy? No artigo segundo, o Código determina que “o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental” e, assim, “os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse”. Isso porque “a liberdade de imprensa e pressuposto do exercício do jornalismo implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão”.

Portanto, lendo o Código ao pé da letra e encaixando no con-texto, “como queira”, tudo é possível e incrivelmente mágico. Vamos, então, prolongar a saga de Harry Potter e dar a Rebekah Brooks um papel mais significativo que o de mera atriz coadjuvante, porque a Murdoch já coube a re-presentação de Lord Voldermort, uma versão cool de Darth Vader. Mas Brooks é fashion, convenhamos, porque aprendeu a usar a varinha mágica com charme, confessando todos os feitiços de cabelos ruivos soltos ao parlamento. Merecia um Prêmio Pulitzer por ser simultaneamente dedo duro e cara de pau em saia justa.

* Graduada em Jornalismo e Doutoranda em Literatura Brasileira pela UFSC
Professora da Unisul e Produtora Executiva da RIC/Record
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