Franck Tayodjo: um refugiado africano reconhecido pela Itália

Roma, 16 jun (RV) – Esta é a história de Franck Tayodjo, 32 anos. Jornalista de Camarões, perseguido pelo regime do presidente Paul Biya, no poder desde 1982, por fazer críticas ao governo em rádios e jornais. No dia mundial dos refugiados, comemorado na última quarta-feira, Franck concedeu uma rara entrevista, na qual contou à Rádio Vaticano como foi sua fuga. Tudo começou na cidade de Douala.

“Era o epicentro da revolução que estava nascendo em Camarões. Lá não poderíamos mais ficar. Pensamos que poderíamos ir para outra cidade de Camarões, nos escondermos e ficarmos tranqüilos por algum tempo, para depois voltar. Mas ao contrário do que pensávamos, os conflitos armados estavam espalhados por todo o país. Então, quando chegamos à Bamenda, depois de percorrer cerca de 400 km, lemos num jornal que estávamos sendo procurados. Nossos amigos nos disseram que não poderíamos ficar lá, que deveríamos sair de Camarões. Como Bamenda faz limite com a Nigéria, decidimos atravessar, mas a fronteira estava fechada. Com o dinheiro que nosso editor-chefe havia nos dado para a fuga, subornamos os policiais e conseguimos entrar no país. Entretanto, ainda temíamos pela nossa segurança e já haviam nos dito que também não poderíamos ficar na Nigéria: seríamos mercadoria de troca e se nos levassem de volta a Camarões, seria morte na certa. Encontramos então falsificadores de documentos que nos disseram que poderíamos deixar a Nigéria para chegar à Europa, em qualquer país, deveríamos escolher. Havíamos escolhido a Inglaterra, mas não tínhamos dinheiro. O que queríamos era fugir, não importava para onde. Disseram-nos então que existia um avião que se chama Alitalia, mas eu não sabia que seria uma companhia aérea porque a Alitalia não voa para Camarões. Demos todo o dinheiro que tínhamos. Os homens nos esconderam no bagageiro do avião. Disseram que depois voltariam para nos levar onde estavam os demais passageiros, o que não aconteceu. Foram oito horas de viagem de Lagos até Roma. Quando aterrissamos, logo fomos descobertos e a polícia nos prendeu. Mas não conseguíamos caminhar, porque no bagageiro faz muito frio. Estávamos congelados. Fomos presos, apreenderam nossos passaportes falsos, nos colocaram numa sala fechada. Uma semana depois, conseguimos explicar nossa situação. Disseram-nos então que poderíamos requerer asilo político. Preenchemos vários documentos. Só depois soubemos que era o pedido de asilo”.

Franck e seu grupo finalmente foram libertados. Estavam livres, porém sozinhos numa cidade grande e desconhecida como Roma. E o pior, sem falar italiano. Ainda no aeroporto souberam de um local que ajuda imigrantes ilegais, mas teriam que encontrar por conta própria.

“Quando cheguei à Estação Central de Roma, dormi lá por quatro noites até descobrir onde ficava o Centro Astalli. Lá cuidaram de mim, recebi primeiros socorros e encontrei um lugar pra dormir. Depois de um ano e meio, a comissão que trata dos pedidos de asilo me chamou, contei toda a minha história, e após três meses, o Estado italiano reconheceu meu status de refugiado político. Desde 2005 estou na Itália”.

Mas nem mesmo os 60 anos da Convenção de Genebra sobre o asilo político foram capazes de fazer com que a Itália criasse uma lei especifica para os refugiados. Justamente agora que a península voltou a ser a principal porta de imigrantes para a Europa, especificamente a ilha de Lampedusa, cenários dos desembarques.

Somente nos primeiros três meses desse ano chegaram à Itália 14 mil refugiados. 2.500 morreram durante as travessias do Mediterrâneo. Na condição de quem é refugiado e já viveu na pele os medos de uma fuga, Franck fala sobre a Primavera Árabe e a fuga de seus compatriotas africanos.

“Tem uma coisa que devemos entender, tem uma coisa que o mundo deve entender. Enquanto houver desigualdade existirão sempre os imigrantes em busca de melhores condições de vida. Por exemplo, os tunisianos que chegam aqui, vêm porque um ditador por muitos anos abusou de seus direitos. Sem dizer que esses ditadores são muitas vezes sustentados pelos governos europeus e quando a revolução acontece… eu abençoo as revoluções”. (RB/RV)

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