Não sei de onde vem o provérbio prá lá de Marrakesh e nem como o utilizamos pra denotar um bêbado. Mas isso não interessa. Marrakesh atrai milhares de turistas, eu inclusive. Turista incidental, que fique claro. Nunca pensei em parar no Marrocos! E cada vez tenho mais certeza que essas são as melhores viagens, aquelas não planejadas e sim decididas em cima da hora.

A mesquita Kutubiya à noite

Do aeroporto pegamos um ônibus por 10 dirhams, quantia equivalente a 1 euro. Tinha acabado de chover forte, para nossa sorte. Nem meia hora depois, chegávamos à praça Djemaa el Fnaa, porta de entrada da cidade antiga, ou Medina, de onde também se via a imponente mesquita.

Enquanto procurávamos o albergue, não resistimos e compramos meio-quilo de abricó, fruta desidratada que foi nosso café da manhã. Pela manhã havia um movimento na praça, mas só quando a noite caíra é que viríamos a conhecer o verdadeiro espetáculo.

Eu não falo nem ao menos um cazzo de francês que o Giu se virava e, muito menos, árabe! Mesmo assim, achamos sem maiores problemas o albergue. (Indico, mas por favor, troquem os colchões do quarto para 4 pessoas!)

Com mapa em mãos (mais tarde decidiríamos que o melhor era se perder) exploramos a cidade velha. Medina é um grande mercado, mas grande mesmo! Na verdade, é uma cidade-mercado. Ou seja, todos pensam que estás ali para gastar. Em tempos de low budget, o negócio é ter jogo de cintura para não perder a paciência com uma abordagem enfática a cada 2 metros.

Enquanto procurávamos uma refeição típica para não-turistas, encontramos um guia incidentalmente, também. Jac, um marroquino de 17 anos que mais parecia ter 11, que nos acompanhou e no final, surpreendeu por não pedir nenhum Dirham.

Mais tarde, onde não esperávamos nenhuma abordagem, veio uma grande surpresa. Ao descobrir que se tratava de um brasileiro e um italiano, seu Zico, isso mesmo, Zico, nos convida a entrar no negócio onde ele é vendedor acidental.

Peça exposta na entrada do artisanat dar essalam

Passamos praticamente a tarde inteira até chegar ao terraço da Riad onde está a loja. Ninguém mais foi levado até lá! Conforme seu Zico nos mostrava cada uma das sessões, mais encantados ficávamos. Aquilo era um verdadeiro museu! Jamais teríamos descoberto se, do lado de fora, seu Zico não nos tivesse abordado e soltado um “Bom Dia”!

Saímos de lá com tapetes, pequenas relíquias e deixamos 20 euros para seu Zico. Da parte dele, a promessa de nos levar para almoçar no dia seguinte num lugar onde os turistas não vão. Dito e feito!

À noite a praça se transforma num formigueiro humano, de carros, motorinos, cobras, macacos…África! Pensamos que se tratasse de um dia de festa. Engano! Um garçom de um dos restaurantes turísticos nos disse que é assim todo o dia, que o povo gosta de sair pra ver o que acontece!  A gente também. E nessa descobrimos que a cortesia em Marrakesh sempre tem um preço. Enquanto assistíamos a uma apresentação de música, Giu foi surpreendido por um tapinha nas costas dado por um macaco!!!!!  Não bastasse o susto, o mamífero ainda roubou meu copo de chá e tomou! No final, o bom samaritano queria que fizéssemos uma foto por alguns $. Não fizemos, mas no google tem um monte de imagens de macacos com turistas em Marrakesh. Quanto aos encantadores de serpentes, bem, temos medo de cobra.

Risoto nunca mais será o mesmo!

No dia seguinte, circulamos pelos mercados de especiarias, que instigam paladar e olfato, além é claro da visão. Passamos pelo bairro judeu e ouvimos sobre tolerância religiosa num país predominantemente muçulmano. A essa altura já dominávamos obrigado, desculpe, atenção em árabe, suficiente para nos livrarmos literalmente de um cidadão que queria nos levar pelas vielas e depois cobrar, claro.

Fomos sozinhos, descobrindo todas as cores e aromas de cada especiaria, sem falar nas ervas para chás e perfumes, incensos e mirra.
Voltamos ao negócio de seu Zico e lá estava ele, a nossa espera. Como prometido, nos levou para almoçar. Comemos Tajine e Cuscous, sempre com as mãos. No final, ele pagou para nós e ainda nos levou para tomar um chá e fumar uma erva conhecida por ter propriedades relaxantes.

Relaxar era a palavra de ordem do último dia. Decidimos encontrar um hammam mas não para turistas. No hostel nos arranjaram um banho turco por 100 dirhams. Não, obrigado. Giu já o tinha feito em Fes, e disse ter pagado 6 dirhams. Quem procura acha! Logo um marroquino nos acompanha até o hammam. Entramos, discutimos valores, nos permitiram entrar por 10 dirhams. Não sei o quanto ficamos, mas usamos o sabão feito de oliva e nos lavamos com uma espécie de luva áspera. E claro, suamos!

Chegando ao ninho.

Fim de tarde no terraço da Riad. No céu da África vimos passar aves migratórias tão altas quanto os aviões. Pensávamos que poderiam ser cegonhas. Aliás, nunca tinha visto um ninho de cegonhas. Em Marrakech, os imponentes ninhos podem ser vistos em vários pontos da cidade.

Não sei se as cegonhas migram, ou estavam indo levar bebês do baby boom 2011, mas o céu da África não tem igual. Isso que não fomos ao deserto!

Pois bem, última noite, voltamos à praça. Tomada pelos turistas, principalmente franceses, e gente que sai da periferia para vender o inimaginável.

No final, obliterado pelo meu eu turista, o jornalista gritou e eu provei de gravar um vídeo, sem dar muita bandeira. Mas parece que não adiantou. Abaixo o que consegui gravar e o detalhe para a reação do homem quando viu que eu empunhava a câmera.

Voltaremos? Inshallah!

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2 comentários sobre “Prá lá de Marrakesh

  1. Contribuição da querida leitora Lorraine 🙂

    Segundo o livro “Mas será o Benedito?” de Mário Prata, a expressão ” Para lá de Marrakesch”, surgiu durante o movimento hippie em Berkeley, Califórnia, mais precisamente na Telegraph Street, quando os convocados para a Guerra do Vietnã fugiam e, quando procurados, os amigos diziam que “ele estava para lá de Marrakesch, em Marrocos.” Segundo ainda Mário Prata em seu dicionário, a expressão possui o significado de “estar muito doidão, drogadíssimo.” Pág. 137. Bacione

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