Fundamentalismo

Lembro que perguntei a um marroquino se ele não estava preocupado com a revolução vivida pelos países vizinhos. Ele respondeu que aqui “não” temos esse problema. O rei está ao lado do povo e o povo e tolerante às diferenças.

Café Argana, alvo do atentado: repleto de turistas

Hoje ao ler e ver as fotos sobre o atentado na praça Jemaa el Fna, precisamente no Café Argana, não tive dúvidas de que tolerância não está para fundamentalismo. O alvo foi um Café frequentado exclusivamente por turistas. Os preços praticados por lá estão fora da realidade dos cidadãos marroquinos. Eu, enquanto lá como turista, também não me senti atraído. Primeiro em razão dos preços, segundo porque lá não se respira a tradição local. Talvez, justamente por isso, o kamikaze tenha escolhido exatamente aquele local. Escolheu matar turistas!  O Marrocos é um país de maioria muçulmana contudo as minorias tem seu espaço respeitado. Até mesmo os turistas, que em grande parte não tem a mínima intenção de entender o que se passa no país em que estão, são bem-vindos – principalmente por causa dos euros.

Sinagoga em Marrakesh: tolerância?

Curioso com essa tolerância, acabamos entrando no bairro judeu. Sim, pouco distante do centro de Marrakesh, tem seu próprio mercado onde os marroquinos vão às compras e, outros, depois fazem a revenda aos turistas na Medina. No meio das casas sempre em tons vermelhos, destaca-se a Sinagoga de Marrakesh. Todos respeitam o local sagrados para os judeus, mesmo se não conseguem entender as escrituras em aramaico. Sabe-se que ali, assim como nas mesquitas, algo de especial acontece. O que não se torna especial, seja no cristianismo, no judaísmo ou no islã e a falta de discernimento religioso que nasce com o fundamentalismo e atinge o auge em ataques como o de hoje, em Marrakesh.

A foto da foto da farmácia: Papa JPII com o Rei Hassan II em na década de 1980

Lembro-me que um italiano, dono de uma farmácia na cidade velha, mantinha na parede uma foto do papa João Paulo II quando o sucessor do trono de Pedro visitou pela primeira vez (me parece a única de um papa) o mundo Islâmico. Perguntei se ele não tinha algum temor em manter aquele registro ali, à vista de todos. Sem titubear, disse que não: estamos num país tolerante. Não temos problemas como na Tunísia ou na Líbia. Acreditei.

Tudo isso no dia em que veio a tona a união de inimigos históricos no Oriente Médio. A questão paira no ar: Israel, Palestina, Islã. Abaixo a matéria pra rádio vaticano.

Um mundo sem fronteiras

Todas as quintas à noite a Rai2 passa um programa que se chama Annozero. Em forma de arena, convidados no centro, plateia num mezanino. Ontem, entre os temas, os imigrantes que fogem da África e chegam à Itália. Berlusconi (que não tem pai e nem mãe) afirmou que a crise com a Tunísia chegou ao fim. A Itália manda de volta, com pouco mais de mil euros no bolso, pra casa os imigrantes sem que eles saibam, revelou uma reportagem do programa.

Em Tunis, a repórter italiana conversou com jovens. Uma, em particular, muito revoltada. Dizia ela que os que emigram são a vergonha do país, deveriam ficar na Tunísia e trabalhar lá. Antes, mostrou uma família que vive num sobrado, e o relato sobre como juntaram o dinheiro para mandar dois filhos nas embarcações direto à Itália. A certo ponto, a repórter pergunta se a família não está satisfeita com os dois mil euros dos filhos reempratiados…pergunta estúpida, tolerância zero. Eles vão usar o dinheiro para pagar uma nova viagem.

A Itália entra em pânico por causa de 20 mil refugiados. O que ninguém fala é dos cidadãos da Costa do Marfim, que cruzaram a fronteira da Libéria e foram recebidos. Ninguém fala sobre a quantidade de iraquianos na Jordânia. Nos dois casos, o número é muito superior a 20 mil. No mínimo mais um zero no fim.

Com um primeiro-ministro piadista, bunga bunga, a Itália é rechaçada pela UE e fala-se em desligamento da península do resto da Europa, por própria vontade italiana.

Italianos esquecem que no passado também emigraram. Memória curta.

À tarde, quinta-feira, os Jesuítas apresentaram o balanço dos pedidos de asilo pelos refugiados em 2010, aqui na Itália. O número caiu. Naquele ano passado, o governo apertou o cerco contra os imigrantes e, no final, acabou por rejeitar quem mais precisava de asilo.

Abaixo a matéria para a Deutsche Welle

PALESTINA LIVRE

Pra finalizar, acordo com a notícia de que o ativista italiano Viktor, pró-palestina, foi morto em Gaza. Aqui o blog dele. Duas frases me chamaram atenção. A primeira está no blog, a outra foi tirada de um de seus últimos vídeos e reproduzida na TV italiana.

È bello anche morire per le proprie idee… chi ha il coraggio di sostenere i propri valori muore una volta sola, chi ha paura muore ogni giorno. (Paolo Borsellino)

“É belo morrer pelos próprios ideais. Quem tem coragem de manter os próprios valores morre somente uma vez. Quem tem medo morre todos os dias”.

 I don’t believe in borders, in barriers, in flags. I think that we all belong, independent of latitude and longitude, to the same family, the human family. Vittorio Arrigoni

“Eu não acredito em fronteiras, em barreiras, em bandeiras. Eu penso que todos nós pertencemos, independentemente da latitude e longitude, a mesma família, a família humana”.

Eu também!

Prá lá de Marrakesh

Prá lá de Marrakesh

Não sei de onde vem o provérbio prá lá de Marrakesh e nem como o utilizamos pra denotar um bêbado. Mas isso não interessa. Marrakesh atrai milhares de turistas, eu inclusive. Turista incidental, que fique claro. Nunca pensei em parar no Marrocos! E cada vez tenho mais certeza que essas são as melhores viagens, aquelas não planejadas e sim decididas em cima da hora.

A mesquita Kutubiya à noite

Do aeroporto pegamos um ônibus por 10 dirhams, quantia equivalente a 1 euro. Tinha acabado de chover forte, para nossa sorte. Nem meia hora depois, chegávamos à praça Djemaa el Fnaa, porta de entrada da cidade antiga, ou Medina, de onde também se via a imponente mesquita.

Enquanto procurávamos o albergue, não resistimos e compramos meio-quilo de abricó, fruta desidratada que foi nosso café da manhã. Pela manhã havia um movimento na praça, mas só quando a noite caíra é que viríamos a conhecer o verdadeiro espetáculo.

Eu não falo nem ao menos um cazzo de francês que o Giu se virava e, muito menos, árabe! Mesmo assim, achamos sem maiores problemas o albergue. (Indico, mas por favor, troquem os colchões do quarto para 4 pessoas!)

Com mapa em mãos (mais tarde decidiríamos que o melhor era se perder) exploramos a cidade velha. Medina é um grande mercado, mas grande mesmo! Na verdade, é uma cidade-mercado. Ou seja, todos pensam que estás ali para gastar. Em tempos de low budget, o negócio é ter jogo de cintura para não perder a paciência com uma abordagem enfática a cada 2 metros.

Enquanto procurávamos uma refeição típica para não-turistas, encontramos um guia incidentalmente, também. Jac, um marroquino de 17 anos que mais parecia ter 11, que nos acompanhou e no final, surpreendeu por não pedir nenhum Dirham.

Mais tarde, onde não esperávamos nenhuma abordagem, veio uma grande surpresa. Ao descobrir que se tratava de um brasileiro e um italiano, seu Zico, isso mesmo, Zico, nos convida a entrar no negócio onde ele é vendedor acidental.

Peça exposta na entrada do artisanat dar essalam

Passamos praticamente a tarde inteira até chegar ao terraço da Riad onde está a loja. Ninguém mais foi levado até lá! Conforme seu Zico nos mostrava cada uma das sessões, mais encantados ficávamos. Aquilo era um verdadeiro museu! Jamais teríamos descoberto se, do lado de fora, seu Zico não nos tivesse abordado e soltado um “Bom Dia”!

Saímos de lá com tapetes, pequenas relíquias e deixamos 20 euros para seu Zico. Da parte dele, a promessa de nos levar para almoçar no dia seguinte num lugar onde os turistas não vão. Dito e feito!

À noite a praça se transforma num formigueiro humano, de carros, motorinos, cobras, macacos…África! Pensamos que se tratasse de um dia de festa. Engano! Um garçom de um dos restaurantes turísticos nos disse que é assim todo o dia, que o povo gosta de sair pra ver o que acontece!  A gente também. E nessa descobrimos que a cortesia em Marrakesh sempre tem um preço. Enquanto assistíamos a uma apresentação de música, Giu foi surpreendido por um tapinha nas costas dado por um macaco!!!!!  Não bastasse o susto, o mamífero ainda roubou meu copo de chá e tomou! No final, o bom samaritano queria que fizéssemos uma foto por alguns $. Não fizemos, mas no google tem um monte de imagens de macacos com turistas em Marrakesh. Quanto aos encantadores de serpentes, bem, temos medo de cobra.

Risoto nunca mais será o mesmo!

No dia seguinte, circulamos pelos mercados de especiarias, que instigam paladar e olfato, além é claro da visão. Passamos pelo bairro judeu e ouvimos sobre tolerância religiosa num país predominantemente muçulmano. A essa altura já dominávamos obrigado, desculpe, atenção em árabe, suficiente para nos livrarmos literalmente de um cidadão que queria nos levar pelas vielas e depois cobrar, claro.

Fomos sozinhos, descobrindo todas as cores e aromas de cada especiaria, sem falar nas ervas para chás e perfumes, incensos e mirra.
Voltamos ao negócio de seu Zico e lá estava ele, a nossa espera. Como prometido, nos levou para almoçar. Comemos Tajine e Cuscous, sempre com as mãos. No final, ele pagou para nós e ainda nos levou para tomar um chá e fumar uma erva conhecida por ter propriedades relaxantes.

Relaxar era a palavra de ordem do último dia. Decidimos encontrar um hammam mas não para turistas. No hostel nos arranjaram um banho turco por 100 dirhams. Não, obrigado. Giu já o tinha feito em Fes, e disse ter pagado 6 dirhams. Quem procura acha! Logo um marroquino nos acompanha até o hammam. Entramos, discutimos valores, nos permitiram entrar por 10 dirhams. Não sei o quanto ficamos, mas usamos o sabão feito de oliva e nos lavamos com uma espécie de luva áspera. E claro, suamos!

Chegando ao ninho.

Fim de tarde no terraço da Riad. No céu da África vimos passar aves migratórias tão altas quanto os aviões. Pensávamos que poderiam ser cegonhas. Aliás, nunca tinha visto um ninho de cegonhas. Em Marrakech, os imponentes ninhos podem ser vistos em vários pontos da cidade.

Não sei se as cegonhas migram, ou estavam indo levar bebês do baby boom 2011, mas o céu da África não tem igual. Isso que não fomos ao deserto!

Pois bem, última noite, voltamos à praça. Tomada pelos turistas, principalmente franceses, e gente que sai da periferia para vender o inimaginável.

No final, obliterado pelo meu eu turista, o jornalista gritou e eu provei de gravar um vídeo, sem dar muita bandeira. Mas parece que não adiantou. Abaixo o que consegui gravar e o detalhe para a reação do homem quando viu que eu empunhava a câmera.

Voltaremos? Inshallah!

Mamma África

A experiencia de poder trabalhar em contato com os colegas dos outros paises lusofonos e incrivel. Confesso que no inicio meu ouvido bruto demorou para se acostumar com o sotaque e com as peculiaridades que a lingua portuguesa adquiriu em cada um desses especiais paises. Angola, Mocambique, Portugal, Guine Bissau, Sao Tome, Cabo Verde… que mundo fascinante!

Ele, o rádio!

Africa, o berço do homem moderno. Continente marcado pelo subdesenvolvimento e, automaticamente, superacao de seus cidadaos. Para nos, do mundo que nao e africano, o velho “raidinho” a pilha pode parecer ultrapassado como fonte de informacao. Na Africa, ao contrario, ele pode ainda fazer uma revolucao – nao daquelas armadas, mas uma revolucao moral, informacional (se existe a terminologia)

Honra maior é de ter trabalhado com um guineense que mais que colega, tornou-se um amigo. Ele, Braima Darame, a grande voz da Guine Bissau, relata abaixo um pouco de como e fazer rádio na Africa, mais especificamente na cidade de Bissau!

Alias, Africa, aí vou eu! 🙂