è dura

Nós brasileiros podemos ficar na Itália sem qualquer documentação por no máximo três meses. Nesse período, basta apresentar o passaporte com o carimbo de entrada e tudo bem. É a condição de turista. Exime de qualquer dever, não lhe dá direito a nada. Porém, passado esse período, é obrigatório fazer-se reconhecer. O que muitos imigrantes não fazem é a declaração de presença, que deve ser preenchida no máximo 20 dias após a chegada. Basta ir em qualquer delegacia, com o passaporte, e declarar a presença no devido endereço. Na verdade, quem declara a sua presença é quem te aluga o apê. Se nao o fizer, paga multa. A maioria dos proprietários não o faz por puro desconhecimento da lei.  Depois, é preciso obter um CPF ou Codice Fiscale. Independentemente da zona de residência, o imigrante deve dirigir-se à Agenzia delle entrate. Aqui em Roma tem uma em Trastevere, próximo a entrada do mercado em Porta Portese.

Passados os três meses, quando se pensa que a burocracia terminou, é que vem o pior. Para permanecer legalmente nello Stivale é necessário obter o Permesso di Soggiorno, ou visto de permanência – há inúmeras variantes para cada caso. Com o ok da Questura, que mete o dito cujo no passaporte e posteriormente envia um cartão que serve como identidade, deve-se ir ao Municipio. E é na prefeitura (onde mais poderia ser!) que o pesadelo começa.

Vale tudo! Ipod, livro, notebook, celular e um quartinho de lexotan para aguentar a burrocracia

O caos impera no Municipio. Ao menos no Primo aqui de Roma. Logo na entrada recepcionistas que mais parecem do pessoal da limpeza GRITAM em resposta a sua inofensiva pergunta. Ao chegar ao Ufficio Anagrafe, uma máquina maldita com (HIPÉRBOLE) números de senhas e serviços é o primeiro imperador a ser deposto. Depois da bela recepção, o medinho de perguntar está sempre presente. Claro que peguei a senha para o serviço errado. Depois de uma hora de espera sem livro, sem ipod, sem note, sem papel e caneta, somente com o ódio interiorizado, no relógio batem as 12h30min. Acabou o expediente!

Sim. Das 8h as 12h30min. Sem choro.

– Mas já estão fechando?

O que esperavas, figliolo, estamos aqui desde cedo!

Ma…. Os horários mudam conforme o dia. Fique atento.

Outro dia, semanas depois, devidamente armado de informações, volto. Descubri que para fazer a bendita residência é preciso primeiro pegar a senha para fazer a inscrição anagráfica. Depois, é preciso pegar outra senha para fazer a residência. Isso em meio a centenas de pessoas que, sem informação, logo perdem a paciência e protagonizam barracos épicos. É Brasil.

A minha novela ainda não terminou. Logo terei de voltar para pegar outra senha…

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A noite de Roma

A noite de Roma

Aproveitando meu estado engessado, ao inves de ler um livro ou terminar a colecao de almodovar, resolvi me alienar na internet. Vou lancar mais informacoes no cyberespaco. O tema de hoje e: balada em Roma: testaccio ou pigneto?

atmosfera cult do pigneto

Pigneto era ate pouco tempo um quartiere que ninguem dava nada por ele. Abandonado a pouca sorte, virou uma periferia as costas do centro historico. Ja foi cenario de filme de Pasolini (lembrei de terca insana!) e hoje se reinventa fora do circuito turistico. Poucas maquinas fotograficas insandecidas giram por la. A tarde, via del pigneto se transforma num mercado ao ar livre, sem muitas pretensoes, mas interessante. Tem restaurantes bacanas, com preco bem mais acessivel que o menu turistico de roma. Mas nao fui la para comer. Fui para beber. E tem um bar que chama Bar Brasil. Parada obrigatoria para tomar uma caipirinha de verdade por um preço justo feita por uma brasileira de Fortaleza. A noite o local se transforma. Estudantes, artistas, jornalistas, imigrantes vendendo drogas, moradores. Um ambiente diferente, nao parece ser Roma. ‘E o circuito alternativo, pra quem gosta daquela baladinha apertada e esfumaçada, que vai do indie ao electro passando longe do pop glam do testaccio. Ah, nao esqueca, para entrar depois da meia-noite, tessera Arci obrigatoria.

Obrigatorio tambem e o circuito Campo dei Fiori, Trastevere e Testaccio do sabado a noite. Pra quem nao tem paciencia (eu) com norte-americanos que nao falam, gritam, principalmente estudantes, desaconselho o passeio em Campo dei Fiori. Melhor fazer o aperitivo em alguma das tavernas carinas em Trastevere antes de se jogar pra baladinha, no Testaccio. La estao as mais concorridas baladinhas de Roma. Uma fauna variadissima sai do metro em Piramide e segue junta ate cada um comecar a entrar onde lhe convem. geralmente cada casa tem uma noite dedicada a um publico, portanto, antes de fazer o carao para ser aceito na fila, pergunte o que esta rolando la dentro. se nao gostar, siga para a casa ao lado, ou ao lado, ou ao lado…

– Mas eu sempre digo, vamos pro Pigneto?

=)

documentariando

Meu estagio aqui no Vaticano coincide com um periodo de mudancas para todos. Para mim, tudo e novidade. Aqui no Palazzo Pio, sao 40 redacoes, em 40 linguas diferentes. Apesar da aparente babel, todos estao unidos em documentar a beatificacao de Joao Paulo II, marcada para o proximo dia 1 de maio.

Aqui na redacao brasileira, parte do trabalho cabe a mim. E esta sendo gratificante ter acesso a todos os arquivos, imagens e audios alem dos textos em diversas linguas, referentes aos 26 anos do Pontificado de John de Deus 🙂

Lembro que em 1991, quando eu tinha 9 anos, o papa esteve no Brasil pela segunda vez e, pela primeira em Santa Catarina. Meus pais queriam ter ido a Florianopolis, mas nao rolou.

Emoçoes a parte – e durante a produçao tambem, poder documentar isso tudo jornalisticamente é um privilegio.

Abaixo a primeira.

 

 

Contrastes

Passei as portas, adentrei os muros do pais mais rico do mundo. Tem farmacia pros reles mortais, mas se quiser comprar no supermercado tem que ter, ou melhor, ser cidadao do Vaticano. A segurança é dura: para chegar às cabines de transmissão apresentamos o “lascia passare” ao menos tres vezes. Eu quatro, porque nao tenho cara de religioso.

– Adesso siamo al Belvedere, dice.

Stato Città del Vaticano

– “Bello”, gliel’ho detto.

Aguardamos o elevador. Quando chega, um ascensorista elegantissimo nos faz subir. Mais guardas do Vaticano e suas indumentarias particulares. Um corredor nos leva até uma galeria lindissima. Uma rapida espiada pela janela e pude ver a comitiva que aguardava a saida do Papa. Outra galeria. Marmore e afrescos. Uma porta muito estranha que nao sei descrever estava sendo vigiada por outro guarda. Estavamos do lado de ca da capela sistina. Passagem secreta vetada aos visitantes. Depois, me senti meio como Ricardito niño bueno de Vargas Llosa: trancado numa cabine por duas horas traduzindo o que o papa dizia aos pecadores. Eu vou para o céu!

Hasta la vitoria siempre!

Por outro lado, meus dedos que agora digitam ainda estao marcados pela tinta fraca do jornal Gramna, que chegou as minhas maos direto da ilha comunista. Sempre quis um exemplar, desde os tempos de faculdade. Para minha surpresa, leio materias de encontro de Frei Betto com Fidel, de um resgate dos 50 anos da batalha na baia dos porcos, da cooperacao entre Brasil e Cuba para promover a saude no Haiti (que é aí) enquanto ainda tenho frescas na memoria as fotos que vi da plaza de la Revolución com a cara do Che (onde está você?)